Vira-lata


Acredito tanto em carma, e sei que acabo adquirindo alguns deles durante o dia, seja por atitudes ou palavras, que posso confessar que mereço criar alguns calos no pé. Naquela noite estava tudo tão escuro, algumas luzes do poste estavam queimadas, e até me surpreendi com a grande quantidade delas. Não tenho medo de encontrar alguém, tenho medo de ser encontrado. E não pense que fico irreconhecível no escuro. Vivo tanto na luz, mas o escuro é onde me encontro. Torno-me, assim, mais claro aos olhos de quem vê.

Estava frio, como num inverno qualquer, e eu caminhava em passos rápidos. Precisava de um banheiro. Mijar, tomar um banho no escuro, e enfiar-me debaixo das cobertas. Precisava. Então quase corria. Só não corria porque não sou tão saudável. Não tinha ninguém na rua. Nenhum carro, nenhum pedestre, nenhum guarda tomando conta do posto de gasolina ou dos portões do supermercado. Apenas eu. Era uma cena poética, e seria até pouco dramática se não tivesse com a cabeça tão cheia de inutilidades. Andava como se estivesse conversando com alguém —um exercício mais que necessário.

Caminhava e falava, até que me assustei com um cachorro. Um vira-lata preto, até bem cuidado, limpo, e feliz. Quando me viu deu logo um salto de alegria e começou a me rodear. Minha primeira reação, claro, foi a de achá-lo a coisa mais linda do mundo. Com toda minha educação, o cumprimentei. Oi meninão. Continuei caminhando, e ele começou a me seguir. Ih, caralho. Fiz merda. Agora ele vai comigo até em casa e vai ficar parado lá no portão, esperando comida, carinho, um lar, que seja. Minha técnica de espantar cachorro, sempre infalível, é a de agachar, fingindo estar pegando uma pedra, e simular um ataque. Tudo de mentirinha. O bicho corre e nunca mais volta. Tentei fazer isso com ele, mas não deu certo. Não demonstrou um pingo de medo. Pelo contrário. Quando agachei, veio correndo em direção à mim, achando que aquilo era um convite pra brincar.

É, não teve como. Tive, então, que ser grosseiro. Disse com um tom de voz firme. Vai embora! Xô! Shhhh! E aí ele entendeu. Mas não o convenci da maneira que deveria, com um susto daqueles. Eu o magoei. Logo quando fiz o shhhh!, ele parou de abanar o rabo, abaixou as orelhas, e ficou ali parado, com o olhar mais triste do mundo, me olhando ir embora. Sabia que tinha feito a coisa certa, mas meu coração estava todo molengo. Então olhava de vez em quando pra trás. Ele viu que eu estava olhando, talvez achou que eu estivesse arrependido, então começou, mais uma vez, a me seguir. Não. Eu sei que é chato pra caralho, que é de cortar o coração, mas não posso deixar esse cachorro saber onde eu moro. Já tenho um em casa, mais um e então ficaria louco. Fiz outra vez, dessa vez bem alto, SHHHHH! E aí ele fez pior do que apenas parar e me observar. Fez o caminho de volta, e foi. Voltou lá pra’quele lugar escuro e solitário onde nos encontramos pela primeira vez.

Segui sem olhar pra trás. Seria pouco doloroso. Poxa, há tanto tempo não encontrava um cachorro na rua que não quisesse me morder. Esse só queria um carinho. Carinho que acabei não dando. Parece até um medo de cometer traição. Vou fazer carinho e brincar com ele, e aí chego em casa e meu cachorro vai vir logo me cheirar. Claro, vai entender tudo na hora, me virar as costas e enfiar-se na casinha e nunca mais sair de lá.

Esse foi um presente dos céus. A culpa inevitável que, independentemente, acabarei tendo que carregar. Consciência limpa. Mas como é bom ter um cachorro, não é? Ainda mais desses, que quer brincar o tempo todo. Eles dão um ânimo extra na vida, até fazem bem pro coração. Meu cachorrinho, coitado, já está velhinho. Só come e dorme, não tem vontade nem de passear. Às vezes sento no quintal pra olhar o dia, e ele apoia a cabeça em minha perna, esperando um carinho. E fica lá, deitado. Brincar nem pensar. Mas isso já um tipo de amor canino, e devo eu aceitá-lo. Levar um cachorro que mal conheci pra casa, que achei bacana só porque foi legal comigo, seria uma atitude tanto quanto irresponsável. Admiti, então, que sim, eu o ignorei. E já fui logo tratando de aceitar todo o carma que isso ia me trazer.

Continuei. Cheguei, olhei pra trás, e nada. Nem carro, nem gente, nem cachorro. Ninguém me seguiu. Estava salvo. Abri o portão e logo fui atrás do meu cãozinho. Onde está? Casinha, não. No corredor da lavanderia, não. Só podia estar no jardim, mas ele nunca fica muito tempo jardim, porque lá é gelado. E quando faz um frio desses como o da ocasião, fazia suas necessidades ali mesmo, no meio da garagem, só pra não ter que ir no jardim. Fui então ao jardim e de longe o avistei deitado, como se estivesse dormindo, na grama gelada e escura. Meu velho cãozinho, que pena, estava morto.

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