Milésimo de segundo


Seu silêncio é uma ponta de faca afiada. Aposto que não sabe disso. Afinal, nunca lhe dei tal conhecimento. Antes, quando havia intensidade e sangue, era apenas uma agulha de tinta que me desenhava. Hoje estão desbotados, apesar de ainda existirem. O contrário de tudo é esse.

Meus defeitos são efeitos colaterais de uma dose de mim, as quais você tomava regularmente. Coitado. É só o que penso. Não existe droga pior, porque enveneno e me enveneno todos os dias. A boca espuma, a convulsão vem, morro e ressuscito em um milésimo de segundo, sem que ninguém perceba. Por isso ainda vivo. Porque continuo nascendo. E assim como você, meu amor, posso?, um dia irei evaporar toda e qualquer substância, deixando sobrar apenas os efeitos e os desenhos já sem cor.

Só não me tenha como alguém feio. Sou belo assim como tudo que é vivo. Sei que esta ausência é a prevenção, melhor que o remédio, de tudo aquilo que sei desde pequeno. Sou mimado, arrependido, debochado. Pouco me importa. Autocentrado, hedonista doentio, medroso com coragem. Arrogante por conta de um histórico duvidoso. Barulhento, não-pedinte-de-desculpa. Só peço quando não me importo, e essa é uma informação de ouro. Merda. Preciso escrever mais uma última carta.

Só não duvide que esta é a última.

Gosto de pontos finais, mas tenho dificuldade em alcançá-los. Por isso não vou me alongar nem aqui fora e nem aí dentro. Sou mais que um livro aberto. Sou porta, janela, entradas, saída, abismo, céu. Sei que irá voltar e sei que seremos eternos até o fim do para sempre. Não vejo outra saída. Sua escolha é uma consequência da minha, vice-versa, versa, visse?

Parece doença, mas não é. A faca do silêncio é afiada, perigosa, mas é esterilizada. Agora, tudo que posso fazer é respirar, pirar e citar.

Eu só espero, com um tempo passado bom, que possa me perdoar. Eu vou me cuidar.
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