Gatilho


Até nos lugares mais aconchegantes sinto desconforto. Pensar, quando não preguiça, dá dor de cabeça. Um desalento que machuca a existência, sendo ele carregado de questionamentos disfarçados de tapas, murros e chutes.

Agora, a dor do corpo alivia a da reflexão — estou em repouso até que fique tudo bem. Seria fácil assim se a veracidade dos fatos não mastigasse meu cérebro-alma como um chiclete guardado na geladeira. Sinto-me por um triz.

O resultado é o ápice. As respostas, congratulações, críticas, até mesmo o desprezo. O fim é a hora de respirar fundo e sorrir. Dias antes, padecido. Escrever é morar num jardim florido regado por lágrimas de felicidade e tristeza. Nas pétalas, as cores se mesclam, formando novas. E quem não alimenta sua poesia, enxerga só capim.

Por fim, evitando procrastinar, ponho mãos abaixo. Aponto a arma para meu próprio peito e, em tom de ameaça, grito. Escreva! Entregue já estes sentimentos enrustidos para os devoradores de palavras carregadas. Passe, vá depressa, eles estão famintos. E sem protesto.

O gatilho coça e, mesmo com o desconforto da dor no corpo, coloco para trabalhar meu tom de desabafo. Hm… blablablá. Penso, regurgito. Com medo de levar bala ou de afogar na própria fobia do vazio, pego um lápis e um papel. Me rendo.