Paixão desorientada


Hoje alvoreci assim, meio inconsequente, transbordando esperanças ardentes. Há mais de um ano que a paixão foi imersa num caminho de areia branca. Virou movediça. Paixão que me decretou um tapa na cara, dito e feito. Que disse não me merecer por ser tão amargo. Sou um filho da puta, saia de perto, dizia. Uma sucessão de crimes sem provas onde os suspeitos, testemunhas, acusados, todos mentiam. Nenhum exame de corpo de delito feito, mas era explícito o ferimento. Ali, onde tudo cessou, existe ainda o sangue que virou tinta no chão de concreto, palco de tantos júbilos e libidinagens. Mas e agora?

Hoje alvoreci assim, repleto de veracidade. Ainda vamos nos encontrar, estou certo, e nada será como da última vez. Não existe fórmula, saída, recomeço — não consigo imaginá-lo com outra pessoa que não seja eu. Tanto que nunca vi. Tanto que espero nunca ver. Que tortura seria. Cada palavra estúpida, ação impulsiva, olhar desviado, tudo será absolvido. Assim a felicidade será palpável, mesmo que abruptamente. E não existe pedir chance, tamanha bobagem seria. Conto apenas com os traços do destino. Eles saberão o que fazer, assim espero.

Hoje alvoreci meio assim, olhando fotos antigas e debochando. Como vim parar aqui? (Nervo-risos). Poxa, tantas as coisas que poderia fazer. Poderia ser canalizado, cego, inconveniente, desvanecido, e ainda assim, jucundo. A paixão faria de mim, como faz de qualquer pessoa, um otário. Colidi com tantos outros e nenhum chegou perto da sua acepção, do que você provocou. Por isso alvoreci meio assim, sem prolongas, perguntando quanto tempo ainda falta para você constatar que eu fui a melhor coisa que te aconteceu. E mais uma vez, fim.

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