Pirofagia de sexta-feira

A súplica se faz necessária quando o sangue esfria. Se acendem as fogueiras, os fogões, incineradores, lareira, isqueiros e todo o fogo no rabo. Celebrar a juventude, ironicamente, nos tira alguns anos de vida. Dez e meia da manhã, você e eu na prisão em que fomos trancados por nós mesmos, onde a hora da liberdade se alonga tanto quanto o mítico almoço em família num domingo. Narizes trancados, mãos congeladas, olhos lacrimejantes, calafrios, nada restou. A expectativa se aproxima a de um show de metal cheio de barulho e pancadaria. Ah, como o desejo faz da gente os seres mais estúpidos.
Amores remotos são cicatrizes antigas que ainda coçam, uma coleção de corações quebrados, olhos e sorrisos apaixonados, lágrimas de piedade transformadas em saudade. Incêndios apagados. É hora de não lembrar, de tentar, tentar e tentar. E por todos os abraços que são oferecidos, todas as dores incríveis que já não sinto, ofereço rosas e água fria para ex-paixões em um labirinto, correndo em busca do que foi perdido. Um sentimento monocromático, tão colorido, dolorido. Mas as circunstâncias são vilãs, e nesta novelinha, bebo meu querosene e cuspo as chamas, pois hoje não terá par romântico.
É sexta-feira e não prometo que voltarei pra casa. Cuide de mim ou não me espere acordado. O afeto está no bar. Talvez encontre um novo amor. Talvez durma com um estranho. Talvez me case com ele. Talvez entre num carro sem destino e parta para o infinito. A calmaria cansa, a pressão causa explosão, o meio-termo fica extremo. Confesso que às vezes quero fugir. Quero labareda, calor, o sangue fervendo minuto a minuto, me queimando na exaustão. É por isso que suplico. Me dê o amor que mereço e não precisarei fugir esta noite. Ou então nossa única saída será acabar em chamas.
