Admirável Jogo Novo

Era agosto de 2016. Após dar boa noite ao porteiro do condomínio, André entrou em casa e se jogou no sofá. Exausto pelo longo dia de trabalho, ligou a TV para acompanhar seu programa favorito: Que País É Esse É A Porra Do Brasil. O apresentador se jogava na parede enquanto dava a notícia:

-Olha só essa merda. Chegou ao Brasil o jogo Demônios de Bolso. O negócio foi liberado há uma hora e já tivemos 57 acidentes de carro, 45 pessoas pularam de viadutos e 393 celulares foram roubados. Quando é pra caçar corrupto, bandido, ninguém faz nada! Isso é Brasil… 
- Você viu isso, moze? - Disse André.
 - Quê, moze? - Disse Maraia, esposa de André, enquanto mandava mensagens através do aplicativo de comunicação instantânea e pontuava no jogo Doce Queda. 
 - Ouça. - Aumentou o volume.
 - ... é Demônios de Bolso pois os jogadores capturam demônios e depois guardam o celular no bolso, logo são Demônios de Bolso.
 - Que horrível! Nina! 
 - Oi, mãe! - Gritou de dentro do quarto.
 - Venha aqui agora.

Nina foi até a sala.

- Fala, mãe. 
- Nem pense em jogar esse jogo Demônios de Bolso. 
- Mãe, tenho 25 anos... 
- Enquanto estiver sob meu teto, já sabe!
- ...
- Filha... - disse André antes de argumentar por 47 minutos.

Nina ficou triste, pois já havia andado 3 quilômetros, capturado 23 demônios de bolso, 9 ovos — 3 estavam chocando — e era líder de um ginásio. André não conseguiu ficar em paz e saiu para observar as pessoas na rua. Já estava na esquina, mas voltou até a portaria do condomínio e disse:

- Boa noite, porteiro. 
- Já nos falamos há pouco, André. Esqueceu? - Jailson sorria.
- Boa noite, porteiro?

Jailson respirou fundo e, olhando para o rosto sorridente e reprovador do homem a sua frente, disse:

- Boa noite, André.

Nosso herói pressentia o pior. Bisbilhotava a tela dos celulares alheios nas ruas do centro, mas só via o aplicativo de comunicação instantânea. Só após andar por 3 horas que ele pôde se acalmar. Deu boa noite ao porteiro e entrou em casa. No dia seguinte, todos os jornais falavam sobre Demônios de Bolso. André sentiu o estômago embrulhar e deixou de lado seu café da manhã. Dali a pouco, ouviu seu colega de trabalho dizendo:

- Vi vários jovens na Pracinha dos Peixes procurando Demônios. Foi horrível.
- Roginho, vamos ter que agir, não podemos deixar isso acontecer. - Levantou de sua ilha.
 - Como? 
 - Vamos escrever um textão para viralizar nas redes.

Escreveram, compartilharam, receberam apoio de vários pais. André já tinha lutado pelos jovens antes, já havia palestrado sobre o desenho dos monstros digitais, dos ninjas que correm com os braços pra trás (claramente uma referência a uma entidade demoníaca) e a gatinha demoníaca sem boca que estampa várias capas de caderno. 
Mas agora era diferente. Era a materialização dos demônios. Era o fim do mundo como conheciam. Adultos largariam seus trabalhos para jogar, jovens deixariam de estudar e se relacionar para ficar naquilo para sempre. Perturbado com o futuro, achou o textão insuficiente e resolveu fazer uma charge com humor inteligente e legendar com a frase de algum pensador famoso. Ficou entre "que país é esse?" e "hoje eu só quero que o dia termine bem", acabou optando pela segunda.

Hoje eu só quero que o dia termine bem.

Foi um sucesso de público e crítica: muitos likes, compartilhamentos e comentários. Sentiu-se emocionado a cada "quem sonha junto não sonha sozinho", "jovens são o futuro da nação!" e "fora PT!" que lia. Maraia escrevia mais textões e dava oficinas que ensinavam as mães a burlar o código de bloqueio dos celulares dos filhos.
Era agosto de 2017. Nas ruas vazias, sacolas dançavam conduzidas pelo vento. As esferas de poder se desfizeram, pois o presidente adorava Demônios em geral e deu o golpe para todos jogarem. André e Maraia eram líderes de um grupo de resistência. Precisavam sair em busca de mantimentos, mas não importava onde estivessem, surgiam errantes de cabelos desgrenhados, hálito fétido, barba por fazer, sujos e magros, correndo em sua direção e gritando:

-Olhem ali! Tem um demônio raro no ombro deles!

No limite de suas forças e sanidade, André e Maraia corriam, corriam, percorriam quilômetros. Não sabiam, mas o motivo da perseguição era o fato da filha ter instalado o jogo nos celulares de ambos e ativado uma funcionalidade chamada incenso. Dentro de casa, trancada no quarto, Nina espumava e gritava:

-Uh-uh, é time azul! uh-uh é time azul!

Obs: Inspirado em @_fransuel e sua novelinha @lilapresoamanha e em todo lixo que circulou pelo whatsapp.