Simbolismo

O simbolismo é um flagelo do mundo moderno. Junto ao pensamento narrativo e à reificação, ele forma a trinca que suporta o diálogo que rola no presente. Seu procedimento é simples: atribuída uma identidade, é só bater uns símbolos nos outros e depois acreditar que a identidade estava certa.

Evidentemente não estava. Mas é o que leva alguém a usar aquela ilustração de justiça x igualdade com uns meninos olhando por cima da cerca em uns caixotes como inspiração para uma série de outros desenhos explicando livre mercado, isenção tributária, dentre outros ainda mais estapafúrdios. É o que está sob o atrofiamento da sintaxe, para citar um exemplo menos crasso. Como as relações entre os símbolos são incongruentes com aquelas entre aquilo que é simbolizado, troca-se a relação por um símbolo de relação.

Em entrevista a Kent Brockman, Krusty afirmou que as palavras que parecem obscenas são mais engraçadas que as palavras obscenas. E os espertos bichos já perceberam que ao invés de criar uma música ou piada de duplo sentido é muito mais fácil fazer uma de zero a algum sentido e deixar que as pessoas imaginem que tem graça em suas cabeças. Isso é o que passa por criatividade hoje.

Quando li o Grande sertão: veredas, comecei a anotar do meio as frases e palavras engraçadas, imaginando que um dia releria e completaria o escólio. Não mais creio que haverá tempo azado:

Zé Bebelo trepava em altas serras.

Não havendo a ajuda de Joaquim Beiju, que estava 
dando para dela se sentir falta.

Veado, sim, vi muitos: tinha 
vez que pulavam, num sonhoso, correndo, de corta campo, tanto 
tantos — uns dois, uns três, uns vinte, em grupos

mas devia de ser de braço terrível, no
manobrar aquele cacete.

Da pessoa dele, da grande cabeça 
dele,

“Pra tu adoçar essa tua tripinha preta!”

Me prazia o ranger o couro das jerebas, aquele chio de carne em 
asso.

De repente, veio vindo um homem, viajor. Um 
capiau a pé, sem assinalamento nenhum, e que tinha um pau 
comprido num ombro: com um saco quase vazio pendurado da 
ponta do pau.

e nisso já o homem, com 
insensata rapidez, desempecilhou o pau do saco

Ovo é coisa esmigalhável.

eu acautelava evitando a jerimbamba

todos 
tinham mesmo pressa de dar.

e um engenho-de-pau-
em-pé.

Dava, dava.

O Rio de São Francisco — que de tão grande se comparece — parece é um pau grosso, em 
pé, enorme…

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