Houveram momentos em que o ser humano se encontrou num poço de ignorância, outros que o ser humano se encontrou num poço de sabedoria, que nada mais era que uma ignorância maior ainda.
Como um clichê, um filho mal criado de um ser poderoso, já avisava a bíblia há muito tempo. Mas esse clichê abatia os gênios e os burros, e, a depender de suas reações, eram do mesmo grupo.

Essa história fala sobre um ser horripilante, mas ele se sentia bem. Não, não se sentia, mas era o que dizia quando o perguntavam: ‘’tudo bem?’’ logo antes de cruzarem uma esquina e sumirem. No caminho para um lugar sem exatamente rumo, se perdendo entre as ruas da cidade todos os dias procurando algo novo, ele via as pessoas aparecendo e sumindo instantes depois. Era essa a convivência do ser com o mundo.

Era como se a gravidade fosse um pouco menor, e, quando ele parava, se perguntando o que procurava da vida, a sua volta vinha e desaparecia. pessoas, lugares, prédios inteiros se moviam enquanto o ser estava parado. Houveram dias em que teve de se desviar de casas ou um carro estacionado quase o atropelou. O ser nunca entendia, já que para ele o que sumia não se via e, por isso, não mais existia.

‘’Está tudo bem desviar de um prédio inteiro se ele não vai aparecer de novo’’.

Era o que pensava enquanto caminhava, as vezes parava, mas nunca descansava, já que algo poderia atropelá-lo a qualquer momento.
Não eram raras as vezes que se perdia ao voltar para casa, não reconhecendo os lugares por onde passou. Por isso, dormia em várias casas e quando acordava, estava em outra ainda mais diferente.

O ser não se importava, já que podendo descansar e sair de onde estivesse era o suficiente para ele.
Afastando as pessoas ao redor, o ser acabou entendendo que aquela era a reação natural e, por conta disso, deixou de depender de outras pessoas para tomar suas direções. Comprou um mapa.

Acontece que, como ele bem esquecia toda vez que o abria e lembrava ao começar a lê-lo, que nada daquele mapa entendia. um dia era de um jeito, outro dia era de outro, assim como as vozes que ouvia na rua.

Tudo estava em constante mudança, então o ser entendeu como natural. Ao mesmo tempo que não se sentia mudar enquanto o mundo a sua volta se alterava. O ser continuava a espantar as pessoas, os mapas continuavam a fazer pouco ou nenhum sentido e nunca parecia ter um lugar que era de verdade seu.

Travou uma jornada, o ser decidiu que iria achar seu lugar no mundo. seu lugar num mundo que tudo mudava, e o seu lugar seria fixo. ‘’Aqui eu estarei enquanto puder estar’’. Pensou o ser, fincou uma bandeira, pousou sua bunda, descansou contente e acordou em um lugar diferente, novamente.

Nesse dia, uma motocicleta o acordou, soando alto dentro de seu quarto. ele não entendia como é que alguém poderia ter entrado com ela lá, por isso afastou o motorista com um grito. Era novamente uma rua, e todos o encararam. Tudo parou, os prédios não se movimentavam e desmontavam, as pessoas pareciam ter os dois pés no chão. Mas isso durou apenas alguns segundos, com tudo retomando a sua desordenada ordem de sempre.

O ser horripilante gritou novamente, então. e isso parou tudo outra vez. E outra vez, logo tudo voltou ao normal. ele gritou, gritou, gritou mais vezes. mas tudo que ele conseguia era uma atenção que logo desaparecia.

Berrou tanto o ser horripilante que de sua boca só sobrou um sussurro, sussurou. e aquilo tornou o vento agradável.

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