Indefinitos

‘’Um homem caiu do céu e está em alto mar!’’
Eram quatro da tarde de uma sexta feira, véspera do feriado do dia primeiro de maio de dois mil e dezoito, a tempestade havia cessado e uma névoa cobria o tapete de mar que se estendia. Naquele momento, um navio pesqueiro francês encontrava um bote superlotado de refugiados vindos da Zâmbia e buscava alguma forma de resgatá-los.

-Ele foi jogado de algum avião? — questionava o capitão do navio a um dos tripulantes, logo à sua frente. — ele conhecia bem a fama do tripulante estarrecido, o que o fazia suspirar.
- Sem sinal de avião nenhum, apenas o vi caindo do céu. — naquele momento, o tripulante observava os céus, à procura de algum rastro de fumaça, mas o céu estava apenas parcialmente nublado.
-Deve estar delirando mais uma vez. Onde está o nosso super-homem? — o capitão aguardava a autorização do consulado para fazer ou não o resgate humanitário enquanto checava o radar, cético. Aquele ali era famoso por viver histórias fantasiosas, uma criança de dezessete anos.
O Tripulante fixou os binóculos com afinco e colocou com força o a sola de sua bota na beirada do convés - Ele parece estar sendo puxado por alguns dos refugiados enquanto outro empurra avisando que não há espaço. O que parece ser o líder deles pede para que tenham calma, acho que o bote pode não aguentar com mais um, senhor. — O tripulante engoliu a seco e girou os binóculos, procurando um maior zoom sem perder o foco. — ele não parece ter vindo com eles de forma alguma, senhor.
- E o que te leva a assumir isso? pode ser apenas um desentendimento. — sua paciência para com aquele jovem parecia estar se esgotando, o que levou a se afastar do timão de e se aproximar com rapidez, pegando de suas mãos os binóculos.
-Vê? ele é branco.

Foi uma tempestade moderada, estava superlotado. dezesseis refugiados em um bote onde a capacidade máxima era no máximo de sete, como observou o Capitão Dinnas. 
Metros dali,um corpo boiava, não houve forma de resgatar pois o corpo estranhamente roxo deslizava como pedra para debaixo d’agua.

Sendo da minoria cristã em seu país, os angolanos vindos da zâmbia o chamaram de ‘’Anjo’’ , referindo-se a como ele havia chegado dos céus e de que aquele era um sinal de que sua viagem foi abençoada.
Já cansados de aguardar a autorização do governo, o navio rapidamente resgatou o bote, distribuindo toalhas para todos aqueles que, sem salva vidas, tremiam ensopados com seus jeans e camisas desabotoadas. Dois outros tripulantes já haviam retirado tudo quanto era possível do estoque para fornecer um pequeno banquete de boas vindas.

-He doesn’t speak our language — disse em um inglês calejado um médico angolano que parecia curioso quanto à estrutura do homem desconhecido. — Parece frágil, muito frágil — continuou, enquanto ajudava a erguer o homem que parecia em choque.

O Capitão chamou o tal desconhecido para sua cabine, e constatou aquilo que foi testemunhado pelo médico, também convocado para prestar seu depoimento. Depois de seco, o homem não parecia muito à vontade com a luz forte das lâmpadas do lugar, cobrindo parte de seu rosto com a toalha.
Seus braços pareciam ligeiramente maiores do que de uma pessoa geralmente era, com seus dedos alcançando as canelas. Os pés pareciam estreitos, bem definidos por um sapato bicudo para baixo, de um material resistente e duro, muito diferente do que seria um sapato social.
Suas vestes de pareciam um conjunto pesado, de uma espécie de ferro enegrecido e ligeiramente enferrujado cobrindo todo o peitoral até a região da virilha. Suas calças, se é que podia assim ser chamadas, pareciam coladas com suas pernas, como se assim fossem.
Mas o que, de longe, chamava a atenção era a formação do corpo. Magro, muito magro e alto, tão magro que, naqueles tempos, seria possível chamá-lo de subnutrido. O único olho que se revelava por baixo do pano era razoavelmente maior, não como olhos de alguma pessoa alterada, mas com toda as extremidades espichadas.

-Poderia ser um alien? — Riu de forma escrachada um dos tripulantes, movendo a colher de pau lentamente para misturar a sopa de macarrão. Seu nome era Jean Michael, em referência ao ídolo pop, mas todos os chamavam de ‘’Jean Michou’’ -Sempre me interessei por aliens - e era verdade, mas, agora, confrontado com o que possibilidade de ter encontrado um, tremia tanto quanto alguns dos refugiados que se secavam no convés.

Conversava com Marnie, a imediata e descreveu o pouco que via que, às pressas, com duas baguetes debaixo de cada braço, descarregava apressada para cortar o macarrão em pequenas listras. Marnie era a mais experiente entre os dois e, por isso, informalmente intitulada de imediata. Assim como seu cunhado, o Capitão Dinnas, era apaixonada pelo mar e, pelo que aquilo parecia, estava animada com uma perspectiva de aventura.

-Se não estivesse dentro da sua cabine fazendo sei lá o quê…- Michou caçoava, estava numa alegria contagiante por acabar de descobrir uma precisão ao cortar cebolas.

Marnie queria esganá-lo. -Você já me acordou no meio da madrugada para falar que um peixe fresco estava de debatendo dentro do isopor mas não me chamou quando um homem caiu do céu.

-É….- Michou a olhava com o canto dos olhos, não contendo o riso— vai que você estivesse fazendo outro ritual maca-

O som da queda foi sentido por todo o convés.

Os dois finalizavam qua, ‘’Michou’’ e ‘’Apolline’’ destacavam os filmes que haviam visto sobre aliens e quantas milhas naúticas separavam o triângulo das bermudas do ponto onde estavam.
Marie apenas fumava, a uma distância segura enquanto pensava sobre o que viria a ganhar com a descoberta de uma nova forma de vida.

Passados alguns minutos, o médico angolano saiu da sala do capitão , avistando o pequeno grupo de curiosos, puxou um papo em inglês, ao qual apenas Marie, fluente em três línguas conseguiu colaborar.

-Pergunta pra ele se é um Alien! — sussurrava Michou atrás de seu ouvido.

O homem relatava o que havia visto para Marie, que, ignorando o garoto de olho roxo que a importunava, escutou:

‘’Ele parecia realmente muito frágil, se não fosse as vestimentas que utiliza, com certeza a queda na água teria quebrado todos os seus ossos. Não conseguimos retirar aquilo que vestia, também. a área do torso parecia revestida como se fossem peles de peixe maciças, mas a região das pernas foi a que mais me chamou atenção.
Não são calças, o material parece ser uma perna biônica, mas a região da virilha demarcava um corte não tão preciso, como se ele já nasceu sem pernas.’’

-Perguntaram de onde ele veio?— questionou Marnie
-Perguntamos, em todas as línguas que tínhamos acesso. Inglês ele não entendeu nada, francês muito menos, tentei com meu português e até mesmo algumas línguas próprias da angola, como Kikongo e o Umbongo. Houve apenas uma coisa que conseguimos fazer com que ele entendesse nossas perguntas.
-O quê? — perguntou Marie, naquele tempo, absorta.
-Urros. — Respondeu o médico angolano, que parecia ainda mais confuso depois de responder.

Marie aproveitou-se do silêncio da reflexão do homem e traduziu para Michou, que no mesmo instante fez dezenas de perguntas, ao qual apenas uma Marnie traduziu:

-Senhor, afinal, de onde ele disse que vinha? — Naquele momento, os refugiados já se serviam, e o som dos talheres parecia mais grave.
-Ele apontou para Oeste. — O Homem então apontou para o rosto de Marie, o que a fez recuar com o corpo — Simplesmente, apontou para Oeste.


-Então, na melhor das hipóteses, ele é um paraplégico que caiu do céu.
-Nas piores, ele é um androide vindo do futuro para acabar com a humanidade.

Marnie e Michou não conseguiam parar de formular teorias sobre o que seria aquele homem. O boato já se espalhava por aquele navio, Marnie já conseguia entender algumas palavras no português do angolanos e estava fascinada com suas histórias de vida.

Os refugiados clamavam por ver o homem que os tinham salvo, o anjo caído do céu enquanto seu líder, o Médico Kenza naquele dia discutia com Dinnas sobre aonde o homem deveria ficar, o homem os observava ligeiramente confuso.

-O que era aquele corpo roxo? — Dinnas era um fanático por teorias da conspiração e podia jurar que aquilo não era o que Kenza responderia.

-Morreu afogado, eu vi o homem caindo na água, aquelas ondas fortes o puxaram para longe antes que pudéssemos pegá-lo.— deslizava as mãos uma contra a outra e estalava os dedos

-Pode até ser, mas nunca vi um corpo afundar tão rápido assim no mar. — Dinnas já havia visto alguns corpos sendo enterrados no mar muitas e muitas vezes.

-Veja, Capitão Dinnas, estamos em um número bem maior que vocês e, independente da minha vontade de manter as coisas sem violência, parte do povo que vieram comigo não são facilmente liderados. Juntamos as pressas todos os cristãos e possíveis alvos políticos da aldeia e viemos buscar exílio na Europa. Essas pessoas não tem mais nada, o padre morreu durante a rápida tempestade e se tiverem de se agarrar a uma crença de um anjo nesse momento, eles irão fazer de tudo para manter contato com seu salvador. E receio que precise avaliar melhor esse homem, pelo menos durante nossa viagem.

O Capitão riu, surpreso e deu um tapa nos ombros de Keza — Cometemos um erro, salvamos piratas! — abrindo uma garrafa de whisky e prestes a servir um segundo copo, quando Keza o interrompeu com a mão: — eu entro na segunda categoria, capitão.

O sorriso de Dinnas desapareceu por alguns segundos, bebericando o copo lentamente, com uma sobrancelha levantada e um sorriso sarcástico: — sempre querendo conquistar, ein?


Foi apelidado de ‘’Miguel’’ por um acordo de todos o homem que mais parecia um grande esqueleto com ossos grossos e muito destacados. Seus hábitos eram noturnos e a forma de se comunicar com todos era por meio de mímicas e urros que foi aprendendo com relativa velocidade. Inicialmente pensaram que era mudo, mas, conforme comemoraram os cristãos do navio, ele admitiu que havia vindo do céu. ‘’Caeum’’, como dizia. Mas não conseguia explicar exatamente de onde, apenas como ‘’Ri.., bo nu num’’, Keza fazia exames rotineiros em seu corpo todo dia, e durante aqueles dias, conseguiu que o homem retirasse as placas do seu torso.
Eram mais finas do que poderia imaginar, podiam ser apertadas e, debaixo daquela carapaça, o homem se mostrava ainda mais magro do que imaginava. Apertando, ele não sentia dor. conseguia sentir até mesmo as linhas daqueles ossos, que, para compensar, pareciam bem mais grossos que o normal.
Keza era o único que mantinha contato com Miguel durante o dia, mantendo-o longe do sol e deixando-o livre durante as noites.
A presença de seus fiéis o acompanhavas noite adentro, confessavam seus pecados, puxavam sua mão para receber as bênção e faziam-no perguntas essenciais, como:‘’Como é o céu?’’ Ao qual o homem respondia com certa dificuldade: ‘’Caeum’’ e apontava para cima, abrindo os braços depois para baixo, apontando para o piso sujo de madeira do navio.
Após a decepção de ver a comunicação limitadas, juntamente com Michou, os antigos fiéis começaram a teorizar de que planeta ele veio.

Não conseguia comer os peixes frescos ou quaisquer outros tipos de crustáceos, corroendo a pele numa espécie de alergia, mas nunca ia ao banheiro. Concluiu-se que nele não haviam órgãos digestivos também.

As ondas pareciam aumentar gradativamente de tamanho quanto mais se aproximava de seu destino, a França. o motor do barco era de pouca potência e parecia que as ondas queriam empurrar o barco para longe de terra firme, como um indesejável sinal de aviso.

O homem, agora sozinho, mantinha seus hábitos noturnos, olhando o mar de uma forma tosca como se nunca tivesse parado de se impressionar com aquela imensidão. E era nessas horas que ele observava as estrelas, com o corpo deitado em setenta graus, os pés o equilibrando com seus calcanhares de ferros. lá ficava ele, intacto.

Nessa noite, Michou percebeu que parte da curiosidade cessara e o medo começava a surgir entre os tripulantes à exceção de Keza, que mantinha durante todo o dia hábitos de examiná-lo, cada dia dizendo menos, como se cada vez entendesse cada vez menos daquele homem grande, magro e misterioso.

Marnie agora passava mais tempo escrevendo as histórias de vida dos refugiados que conversando com Michou, o que o levou a se identificar com Miguel, cada dia com menos gente à sua volta. Munindo-se de um misto de curiosidade e falta do que fazer, aproximou-se.

Michou sentou-se ao lado do homem e, em meio às ondas fortes, tentou iniciar um diálogo, fazendo vários gestos e urros sem sentido, ao fim de vários movimentos e nenhum resultado, começou a admirar o céu junto a ele, sentando-se de pernas cruzadas ao seu lado.

O homem então começou a murmurar coisas que pareciam ser de uma linguagem complexa, mas que fazia tanto sentido aos ouvidos de Michou quanto tagalog, a língua das filipinas que Marnie jurava ainda aprender.

Foi então que, após um tempo murmurando, o homem pousou o longo dedo dentro do ouvido de Michou e, com lentas vibrações, ele conseguiu ouvir uma mensagem:

‘’Venho daqui, mas não do agora. Procuro por pessoas iguais a mim para poder me comunicar, pessoas com as quais eu tenha conexões mas não das quais eu possa continuar.’’

Instantes depois, uma onda imensa se formou à frente do navio e se chocou contra Michou e Miguel, Michou se mantinha intacto olhando para Miguel quando foi arrastado e por alguns metros até chocar as costas contra as paredes do deck, enquanto Miguel foi desaparecendo a medida que a onda o arrastava, caindo como pedra no alto mar.


Parte dos refugiados se encontravam no quarto de Marnie, enquanto ela tirava fotos com sua câmera semiprofissional, a outra estava dormindo quando foi subitamente acordada pelos gritos.

‘’Homem ao mar! Homem ao mar!’’ Gritava Michou, batendo em todas as portas. ‘’Miguel caiu, Miguel caiu!’’

Kenza ficou maluco. Pulou no mar, mas rapidamente foi puxado de volta com por alguns homens e Marnie mesmo que contra sua vontade. Estava furioso, e parecia querer mergulhar ainda mais fundo na procura infrutífera por Miguel.

Mal se agarrou no último degrau de acesso do navio, gritava um nome.

-Você tem ideia do que fez, moleque?! — suas mãos apertavam o colarinho de Michou com força, e, julgando pelo modo que o segurava, esperava alguma resposta, do contrário já teria o matado esganado. — TEM IDEIA DO QUE FEZ?!

Marnie logo se intrometeu, primeiramente por saber que Michou nada entendia o que o homem dizia além de saber que estava muito puto, e em seguida o que deixou bem explicito:
-Quem tem direito de esganá-lo sou eu.

Assim que Kenza recuperou a compostura, soltou o garoto e voltou para a sua cabine, onde de lá não saiu.

Os mais fanáticos dos cristãos conspiravam entre eles que Miguel ficou 3 dias na terra, e, seguindo a bíblia, fez sua aparição aos iluminados para que pudesse retornar ao céu. Caindo no mar para limpar os pecados daqueles que estavam a bordo e por que não, da humanidade?. Sua extinção foi motivo de alegria por seguir de forma fidedigna aquilo que o livro sagrado propunha.

Um outro grupo já via de forma oposta, com Miguel sendo Lúcifer vindo, e sua aparição de um anjo caído do céu era a prova que o fim dos tempos estava próximo.

Um terceiro grupo, liderado por Michou, tinha uma explicação mais simplista:
‘’Aliens.’’

Com os hábitos diurnos retomados, Marnie passava o dia compilando informações dos refugiados.
Haviam aqueles que estavam à caminho da Europa em busca de tratamento médico, outros por sua vez pareciam mais interessados em mandar dinheiro para a família.
Havia um caso em específico que chamava a atenção de Marnie.

‘’Sou um homem quase idoso que sempre quis sair da minha aldeia. nunca tive dinheiro para isso e não teria se continuasse por lá. Fico feliz por saber cada vez mais como o mundo se parece.’’

Marnie ficou encantada por esse homem, escrevendo várias páginas sobre sua história de vida, um dos únicos muçulmanos naquele bote, sem qualquer rancor de religião e buscando apenas uma aventura para fazer a vida valer a pena.

Seu nome era Sieg, originário daquela pequena aldeia da Zâmbia, tinha um péssimo hábito de não reter o estômago para futuras flatulências, o que afastava o restante, cristãos , por motivos além da religião.
Tinha o péssimo hábito de rir sempre que fazia isso.

Marnie acabava por escrever sobre o homem num espaço aberto e de uma distância segura. Naquela tarde, já não tão distantes da costa francesa a sua história de vida foi se aproximando daquele presente momento.

‘’Foi horrível vê-lo morrer sufocado’’

Marnie não sabia a quem estava se referindo.
-Quem? — não sabia se o homem falava sobre a infância, quando viu seu tio ser colhido por uma areia movediça ou sobre a adolescência, quando um vizinho teve um derrame.
-O Padre. Nunca ouvi alguém morrer sufocado tão lentamente e com tanta paz como aquele homem, foi como se estivesse vendo coisas, estivesse admirando cada passo. Por vezes, porém, ele parecia horrorizado, fechava os olhos e dormia durante o dia e voltava a murmurar durante a noite. Morreu assim que o tal do Miguel caiu na água, e foi deslizando das nossas mãos como se fosse feito de pedra. Nunca segurei algo tão pesado, mas para o nosso pequeno bote, aquele peso não fazia diferença. — Marnie tremia, nunca havia ouvido falar de algo do tipo e, acima de tudo, furiosa por ter sido enganada.
-Ele não morreu afogado?
Sieg parecia troçar com tal suspeita.
-Nunca ouvi falar de homem que morresse afogado antes de cair na água. ele delirava, delirava.
-Não havia um médico com vocês? Kenza não o diagnosticou?
-Médico? Kenza? Não, não. -Sieg parecia surpreso de uma forma cautelosa, também desconfiado daquela informação — Kenza é um mecânico. nosso barco teve o motor consertado várias vezes durante a viagem por Kezan, dependíamos dele para continuar no caminho certo.

Marnie se ergueu em um pulo e gritou por Dinnas, empurrando a porta de Kenza, que sem surpresas, estava emperrada. Dinnas chegou rapidamente, mas, ao chegar na cabine, se deparou com vários dos refugiados barrando a entrada de Marnie enquanto puxavam os braços de Dinnas.

Logo que Sieg chegou, desviou dos homens que prendiam Dinnas pelos braços, ficou de frente de Marnie e pediu com a mão para que se afastasse.
Marnie deu um passo para o lado e Sieg logo deu um impulso com os ombros na intenção de arrombar a porta, que visto a ameaça de um corpulento homem em fúria, logo desviaram.

A porta foi arrombada no segundo impulso o que se viu foram apenas pernas. as pernas de Kenza estavam deslizando pelo piso, atravessando-os lentamente, suas canelas estavam roxas e depois das pernas desaparecerem, não se ouviu nem ao menos o barulho na queda d’água.

Um silêncio sinistro tomou conta do navio pelo resto da viagem, com a praia já despontando à vista de todos. Tudo estava envolvido num grande mistério, e a perspectiva de voltar à normalidade sem nunca mais tocar no assunto parecia o ideal. Assim que chegaram, os refugiados se dispersaram em grupos de quatro ou cinco enquanto Sieg seguiu carreira solo. Marnie se despediu de Michou e seguiu acompanhando o cunhado por mais algumas viagens. Michou ficou na cidade por alguns dias, quando nunca mais deu notícias.

Parecia que a todos aquilo mais parecia uma parte do passado que deveriam, a exceção era o capitão Dinnas.

Meses depois, instalou uma barraquinha de souvenirs de artigos alienígenas itinerante que fez um sucesso considerável aonde passava, menos com Marnie, que não concordou com a ideia e, no término das férias, retornou para o curso de jornalismo já com um trabalho pronto. 
Os souvenirs fizeram sucesso, principalmente seu carro chefe era um material que havia ficado preso na proa do navio e ninguém sabia identificar o que era.
Numa praia em Marrocos, o objeto era exposto no interior da loja: Leve, brilhante e extremamente cobiçado por uma mulher que ia à sua loja todos os dias e encarava esse objeto durante um longo tempo. enquanto Dinnas permanecia de olho nela.


‘’Consegue acordar?’’

Seu nariz parecia entupido, seu corpo parecia estar sendo constantemente cortado pelo vento até mesmo respirar pela boca parecia agoniante.
Quando abriu os olhos, puxou o ar suficiente, mas engasgou com a sujeira. Quando respirava pela boca, poeira saia da sua boca e logo começou a tossir, os olhos ardendo. os lábios estavam secos e os ouvidos turvos.

‘’Você é bem frágil, mesmo tendo tanta carne’’
‘’Poderíamos comê-lo’’
‘’Se comêssemos, não existiríamos’’
‘’Nossa existência é necessária?’’
‘’Nem um pouco’’
‘’Então o comeremos.’’

Uma dor como nunca sentiu antes tomou conta do corpo de Kenza, que urrava de dor, urrava, urrava.
E então percebeu que agora conseguia entendê-lo. Desmaiou.
Quando acordou, sentia suas pernas mas não as via.
Apenas um coto, cobrindo toda a parte abaixo de seu peito.
Tudo estava envolto de uma poeira espessa e cada vez que tentava olhar o que sobrava do seu corpo, uma onda de poeira o cegava.

Não tinha campo de visão ao redor dele, mas conseguia sentir uma espécie de cama de ferro abaixo. segurou com as duas mãos que ainda tinha, aproximou da própria face e ficou feliz por ainda tê-las, por ainda vê-las.

Ergueu o próprio corpo com as mãos e conseguiu discernir as escuridão dos pontos ainda mais escuros. ‘’Estou numa sala abandonada’’ pensou.
Tentou chamar por ajuda, mas a língua estava seca e apenas conseguiu urrar.


‘’Anjo, talvez demônio vindo do espaço’’ Era como Dinnas chamava Miguel para os curiosos que iam ver sua vendinha à beira-mar. Como haviam já alguns anos do ocorrido, seguindo a fama de ‘’história de pescador’’, Dinnas alterava algumas partes.
Os refugiados se transformaram em ‘’descendentes da tribo perdida de Israel’’, Miguel se transformou em ‘’Um autômato da época grega’’, todas transformações que se alteravam conforme o local onde ancorava e ia atribuindo a cultura que os cercava. 
Marrocos,Xangai, Singapura, Egito. Com o tempo, a sua vendinha parecia fazer mais dinheiro que a pesca em si, mas não era de toda verdade.
O que se mostrava no íntimo é que Dinnas tinha um interesse particular naquela história, e dentro de seu barco, acumulavam recortes e arquivos de supostas visitas daqueles estranhos seres.
Comprava de tudo: desde avistamento de óvnis à todo o tipo de material de cor roxa.
Vez ou outra curiosos passavam suspeitos longos tempos observando aquele material exposto, a maioria eram crianças curiosas como são de natureza ou apenas turistas que pareciam tentados a gastar o dinheiro com qualquer futilidade, ao qual Dinnas, identificando, logo respondia: ‘’Não está a venda’’
‘’Não está à venda’’, aliás, era o que mais se ouvia de Dinnas daquela loja, o que levantava a suspeita de parte da sua família, incluindo Marnie, de que estivesse falido.

Naquele dia treze de janeiro de dois mil e vinte, Dinnas estava dentro de sua vendinha e comparava os novos materiais roxos que comprara, fazendo sempre o mesmo teste:
Uma bacia d’água debaixo de uma mesa de madeira.
Simulava assim os materiais de seu barco e, caso o material seguisse as leis da física e não conseguisse atravessar a mesa e a água, estava diante de mais um fracasso.

Frustrado, bateu a pedra na mesa repetidas vezes até sair lascas em sua borda, puxou o balde para entre as pernas e deixou a pedra cair, o que logo se fez uma reação: a tinta se soltou e a pedra era só uma pedra normal.

Nervoso, Dinnas chutou o balde e a água deslizou por todo o perímetro do lugar, serpenteando até a porta, onde, ao se aproximar dos pés de uma garota que estava na porta, mudou seu curso e desviou de qualquer contato.

Dinnas se levantou de súbito, observando a garota que, surpresa, colocava as mãos nos bolsos.

-Tem interesse em alguns dos meus itens? — Dinnas perguntava enquanto se aproximava, com um copo de água na mão.

Tímida, a garota respondia com certa dificuldade: -N-não, só esta… va, olhanbro. Se afastava da vez mais, de forma desengonçada até conseguir firmar os pés com força nas areias da praia.

-Não fique com medo, olhe. — Dinnas lentamente bebeu o copo d’agua, virando, virando, até as bochechas ficarem cheias.

Se aproximou da garota, que, curiosa, se aproximou. Retirou uma das mãos do bolso para cutucá-lo no rosto.

Uma pequena baba transbordou de seus lábios, para logo após, um jato de água sair de sua boca, atingindo diretamente no rosto da garota que, se protegendo com a mão, não se molhou.
A água se esparramou pelas bordas da porta aberta e atrás dela, que, girando o corpo, corria pela praia em uma velocidade que Dinnas não conseguia alcançar.
Não haviam marcas na areia por onde ela passava e parecia mais rápida onde a areia era mais grossa.
Dinnas já mal conseguia vê-la quando por sua cabeça passaram imagens de sua namorada com vestido de noiva e a sua volta, dos vitrais quebrados de uma igreja abandonada via o que parecia ser um prédio em ruínas recheado de criaturas que não paravam de se jogar de cima.

Abrindo os olhos de novo, olhou à sua volta e estava na mesma igreja, agora intacta. sua namorada estava com vestido de noiva e surpresa, chorava. Sua face estava mais rígida, mesmo que os olhos estivessem como o dia em que havia reencontrado o pai desaparecido, na época de quando eram apenas amigos na adolescência. À sua frente estava um homem. Estava se casando com outro. Ela o olhava querendo fazer milhares de coisas, mas não conseguindo sair de onde estava. Apenas o olhava, enquanto os vitrais se desmanchavam, os convidados presentes gritavam e centenas de pessoas caiam daquele prédio recentemente inaugurado.


Urros foram ouvidos por toda a avenida. Naquele momento, um arrepio tomava conta dos Europeus como se presenciassem o retorno das épocas bárbaras.
Seres estranhos, com pernas endurecidas corriam e olhavam ao redor, parando o trânsito. Muitos abrindo os braços e girando, pulando, tocando em tudo que parecesse estranho.
Naquele momento, qualquer ser humano conseguiria identificar aqueles urros: Eram de pura alegria.

E nada fazia sentido.


Houve apenas um momento em que Marnie tivesse questionado a sua crença de não haver crenças: foi a chegada de Miguel. Vez ou outra vinha em sua mente vários questionamentos sobre aquilo. Não havia passado nada daquela experiência à limpo em suas pesquisas, pois pareceria uma piada de mal gosto para a academia. Mas agora era hora de encontrar aquela primeira versão, sem cortes que havia documentado na viagem.
Vários ‘’Miguels’’ haviam entrado em contato com outras pessoas. Centenas, até milhares. E era hora de se falar sobre esses seres.
Naqueles dias que se passaram à bordo do Navio, Marnie pensou sobre ter ou não religião. Naqueles dias sem sinal, tendo conversas honestas com um cristianismo visto de uma forma tão autêntica, parecia tudo fazer sentido.

Miguel era uma nova vida Lúcifer, Sim, um Anjo, mas expulso do paraíso. Vindo para ser um mensageiro do fim dos tempos, trazendo a chamada do nosso juízo final.
Foi tragado pelas águas. Soube depois por meio de um artigo publicado por outro aluno de sua universidade que havia encontrado com aquele singelo grupo de que haviam construido toda uma retórica bíblica para aquela revelação:
As águas simbolizavam o dilúvio e, por isso, deveriam construir uma nova arca de Noé.
Daqueles que ficaram em campos de refugiados, juntaram forças com Muçulmanos também temente ao dilúvio e construiram uma grande arca que, com o tempo, serviu como uma embarcação de resgate de outros refugiados. Naufragou em sua primeira viagem, bombardeada por forças da OTAN que suspeitavam de um grande esquema de passagem de terroristas para o ocidente.
O incidente levou a uma comoção internacional que durou entre um à três meses, logo esquecido pela grande maioria das pessoas. Naquela embarcação, estavam grande parte daqueles que haviam presenciado a vinda de Miguel, tendo como últimos sobreviventes Marnie, que continuava a trabalhar com jornalismo especulativo, Dinnas, antigo desaparecido que recentemente fora encontrado desnutrido dentro de uma igreja onde estava sendo celebrado o casamento de sua ex namorada, Sieg que recentemente havia se encontrado com Michou e Michou, que havia recentemente se encontrando com Sieg. Mas isso Marnie só foi descobrir depois.

Naquele momento, ela presenciava pela timeline o avistamento de pessoas caindo do céu em todo o mundo. As vezes, pessoas vinham sozinhas em alguma região aleatória do globo.

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