Indelitos

Hei-De.
Hei-De.
Jul 27, 2017 · 15 min read

O som de um rock inglês desconhecido da época dos Beatles dividia as freqüências com os buracos da estrada interestadual.

Com a bagagem em uma pampa antiga e abandonada de seu tio-avô, que a deu na condição de Marcos comprar uma bateria, agora o veículo trafegava com relativa facilidade em meio ao barulho do motor que mais lembrava uma máquina de lavar.
O capô tremia, tremia, tremia, até que o motor morreu. Por sorte, Marcos já podia ver o posto.

Há momentos na vida onde não podemos ficar parados: Quando um cachorro avança com os dentes para fora, quando um carro vem contra nossa direção enquanto estamos caminhando ou quando a pessoa que a gente gosta diz ‘’vem’’.
São inúmeros os casos aonde a ação tem de tomar forma no mesmo instante, mas marcos continuava sentado confortavelmente no carro, trocando olhares entre a fumaça em seu capô e o posto, mas parecia abandonado.

‘’Não acredito que aconteceu isso agora.’’ Foi algo que tomou sua mente, junto de ‘’Não devia ter aceitado essa lata velha’’ e ‘’se eu ligar o motor será que explodo?’’

Seus pensamentos foram interrompidos pelo som ensurdecedor de uma buzina de caminhão de carga transportando duas carretas de cana, seguidos de um grito rouco: ‘’Sai da pista seu louco!’’ ao final do qual, só fez todo o ar virar terra.

Marcos, com o coração na mão. Esperou o caminhão sair de seu campo de visão e começou a empurrar o veiculo. Esqueceu-se de puxar o freio de mão e voltou ao banco do motorista, a tempo de ver um homem acenando do posto, fazendo um sinal que o mundo inteiro conhecia como ‘’Espera aí’’.

Pulando rapidamente em uma Merlinda, o homem acelerou, aos sons de ‘’cuidado’’ de uma voz feminina e apareceu momentos depois na pista contrária, com uma corda logo acima de seu ombro e o rosto avermelhado e suado. Seu queixo era arredondado e parecia não haver pescoço, os braços não muito longe do gordo e do forte denunciavam o que foi confirmado quando saiu do carro, com sua barriga de chopp e um sorriso do qual confirmavam: Essa era uma daquelas pessoas com quem era sempre ótimo beber.

Marcos estava examinando o capô quando o homem, já retirando a agulha que o erguia, quase por pouco não tirou seus dedos fora. Não parava de sorrir:

‘’Isso daí ta fodido já, não adianta checar. Já tive uma dessas.’’ Agora dava tapas no capô da pampa ‘’Isso sim é carro de verdade, os de hoje são carros de brinquedo com carcaça brilhante’’ Jogou a ponta da corda na mão de Marcos enquanto puxava a outra. ‘’Amarra essa corda atrás da sua pampa, vai ser puxado por trás hoje’’. E rindo, fazia sinal para que marcos entrasse em seu carro. O som da placa roçando contra o asfalto era horrível,e foi então que Marcos percebeu que estava sendo puxado por trás por pura sacanagem.

Depois de abrir riscos negros no asfalto e o ouvido zumbir, saiu do carro e o homem já retirava a corda, laçando-a numa mangueira de gasolina abandonada.

O homem então oferece sua mão suada e áspera: ‘’Mais um pouco e seu carro estaria igual uma lata de sardinha. Tem sorte de ter sido o Tião quem estava na estrada. Sou o Luis, mas todo mundo me chama de Guidão.’’

Marcos o cumprimentou, coçando a orelha com rapidez, esperando que assim a lembrança do aço roçando o asfalto desaparecesse, se apresentou e, antes de perguntar quanto ficaria o conserto, indagou:

‘’Sorte? Aquele louco quase me atropelou.’’
‘’Atropelar?’’ O homem não conseguia esconder o riso. ‘’Aquele ali era o Tião, ele é surdo. Queria ver se fosse o Chicão, irmão dele, aquele ali é cego.’’
‘’E pessoas assim podem dirigir?’’
‘’Não, não. É só jeito que a gente diz, o Chicão é só distraído. Toda vez que vê uma mulher na estrada ele olha e buzina. Já quase capotou, no mesmo lugar onde você estava.’’
‘’Que mulher que ele viu?’’ Já ria Marcos, quando se deparou com a mulher logo atrás de Guidão. Calou-se e disse num tom, quase sussurrado: ‘’Entendi’’
Guidão então deu um leve tapa na cintura da mulher e a apresentou:
‘’Essa é minha mulher, Lívia.’’ Marcos conhecia aquele olhar, daquela mulher de cabelos encaracolados, olhos visivelmente claros e corpo de contrabaixo: ‘’Você não merece estar perto de mim…’’
Foi essa a aura que a mulher passava, confirmando na sua próxima fala:
‘’Você quase morreu alí, sabia disso? foi a maior idiotice que eu já vi.’ — ‘’…seu lixo’’

Naquele segundo Marcos percebeu que se, por algum segundo ele tivesse alguma fantasia sexual com aquele mulher, naquele segundo a sua fantasia terminava.

Marcão, dando amigáveis tapas no ombro da mulher, parecia não se importar com a cena, já que se virava e conversava no telefone com o guincho da forma mais camarada possível:
‘’Seu filho de um burro! aparece aqui no posto que um rapaz tá com o motor estourado, quase que o Tião matou um hoje! É, é, sorte dele que não foi o Chicão, da última vez que ele ficou de olhar com a minha mulher, eu já tava com a punheteira na mão, acredita?’’ E ria.

Marcos decidiu que não responderia uma palavra da mulher, preferindo conversar com o chão.

Aguardando o guincho, Marcos não tirava o celular do bolso para ver as horas, o 3G malemá funcionava, não sabia exatamente nem a distância para seu destino final.

Guidão apareceu com uma cadeira de praia, dessas que a gente sempre se machuca. Armou ao lado do tanque de gasolina, ao lado da sua e convidou Marcos com uma pancada na cadeira (O que, obviamente, fez com que ela abocanhasse seu braço.) ‘’Bosta’’. Com essas palavras Guidão chutou a cadeira pro lado e convidou Marcos a sentar no chão.

‘’E ai? o que um moleque de…’’ Esticou a cabeça pro lado para ver se estava certo ‘’Adorinan?’’
Marcos confirmou: ‘’Adoniran’’
Guidão riu ‘’Nome gozado. pra onde cê tá indo, moleque?’’

‘’Faculdade’’ — Marcos respondeu, constatando que o chão do posto estava frio de mais para colocar as mãos.
‘’Ohhh.. vai praquela nova ali? Deve ser esperto ein, moleque?’’ Logo virou a cabeça e berrou como se fosse dar uma ordem: ‘’Ô bem, o menino não é ladrão não! Ele tá fazendo faculdade!’’
Marcos corou.
Ao qual Lívia gritou de volta, de dentro do lava rápido: ‘’Legal’’
Marcos não havia associado ‘’Nova ali’’ como sendo a sua, o que indicava..
‘’Estamos perto de Barão Tomé?’’
‘’Perto? Dá pra ir a pé! só virar essas árvores ai que tu já vai estar de frente com a cidade. Espera só o Guincho chegar que ele te leva.’’
Marcos pela primeira vez no dia, estava aliviado.
‘’Desculpa a gente, tá? É que esses dias chegou um filo de uma puta querendo roubar a gente. Sorte que minha mulher tava com o porrete na mão e afastou o sem vergonha só balançando o bicho.’’ (HAHAHAHHAHA)
‘’Talvez pensassem que aqui não tinha ninguém’’ Marcos engoliu a seco assim que olhou para cima e viu Guidão arregalar os olhos para ele.
‘’É.. É..esse lugar aqui parece que não mora gente. mas você viu que aqui mora.’’
Marcos tentou desviar do assunto da maneira mais sutil possível, então se mexeu desconfortável no chão (de nervoso e por suas chaves estarem no bolso de trás), olhou a volta e perguntou:
‘’Você que é o dono?’’
Guidão apontou o dedo pro lava rápido onde estava a mulher, ao que parecia estar tomando banho (Marcos estava em fortes conflitos internos) ‘’Ela que é a dona. Esse posto aqui era da mãe dela, que deu chá de sumiço. foi pro mundo. ai ficou só a gente, cheio de dívidas.’’
Guidão, mesmo com a fala pessimista, tinha os olhos brilhando:
‘’Agora que vai abrir essa universidade.. faculdade.. nem sei qualé. vai encher de gente aqui. é o que a gente espera, cêis universitários bebem bastante, não bebem?’’ Segurava e chacoalhava os ombros de marcos que, como todo magro, teve o corpo inteiro chacoalhado.
‘’É.. sim..’’ (Ele nunca havia bebido fora o ano novo daquele ano)

O dia ia se pondo, as árvores escondiam o por do sol, mas o céu estava claramente alaranjado.
‘’Como vocês dois se conheceram?’’
Guidão apertou as coxas e bateu com o pé no chão na mesma intensidade que dava um tapa na nuca de Marcos, que sonhava por uma cadeira para ter onde esconder que doia.
‘’AAh.. essa é a melhor história. eu era caminhoneiro, a mãe dela ainda estava aqui. Quando vi essa mulherão… Olha.. como pode ver, hoje em dia eu não sou bonito, mas há uns anos atrás eu era melhorzinho. Eu estacionei aqui num dia de chuva e pedi pra dormir. Como bom caminhoneiro eu sabia que poderia dirigir naquele tempo, mas cê acha que eu ia deixar essa chance escapar?! Fui tocar no quarto dela, que era do lado do nosso de agora. Ela abriu e foi isso.’’

‘’Foi isso?’’
Guidão piscou para Marcos
‘’Foi isso.’’

O Guincho veio buzinando como se tivesse ganhado na loteria, o nome do homem que dirigia era Brito, mas todos o chamavam de Birto. Soube do que estava acontecendo com Marcos e o levou com o guincho puxando a pampa recheada de suas coisas para a pensão onde deveria ficar e, claro, não sem antes fazer uma barulheira logo ao começo do anoitecer. De começo, conseguiu ver alguns rostos aparecendo na janela, que logo fecharam as cortinas. O Guincho parava no meio da rua quando o primeiro jovem abriu a porta, curioso. Reconhecendo como sendo o novo morador da casa, urrou.

‘’Caraca, é o mc’lovin!’’

Marcos encontrou ali aquilo que esperava: um singelo grupo de aparente sedentarismo, caras fechadas para o mundo e de brilho nos olhos para falar sobre as coisas mais absurdas que pensaram durante o banho, intercalados com os desabafos eróticos sentidos nesses mesmos banhos.

Assim que Marcos pisou na calçada, todos já estavam fora da porta, houveram ligeiros cumprimentos, enquanto Birto gritava de dentro da caminhonete: ‘’Toda a tua bagagem tá dentro da Pampa, se não for retirar vai ficar comigo’’

Marcos então se desculpou, cumprimentou o último que faltava e correu para a pampa.

A Fachada da casa lembrava um antigo sobradinho com algum jardim na frente, como se quisesse lembrar de um filme americano. A diferença era a de que, naquele caso, o jardim sempre intercalava entre mato perigosamente alto e um raro matinho que mal estancava a água,formando poças de barro sempre que chovia. Por sua sorte, Marcos e seus novos colegas de quarto não tiveram de empurrar as malas num lamaceiro, a chuva estava prevista apenas para a madrugada.

‘’O Dono dessa pensão me disse que ainda vai queimar esse mato’’, disse o de rabo de cavalo, que mais cedo Marcos cumprimentou. Seu nome era Davi, fazia Mídia e tinha o hábito de andar de chinelo e meia por todo lugar se alguém não o lembrasse desse fato. Mais tarde ele admitiria que lembra sim, mas prefere ficar daquele jeito mesmo. Estava de chinelo e meia naquele momento, e pareceu notar só quando o mato frio molhado subiu pelos seus pés.

‘’Eu acho que a gente quem deveria fazer isso, pelo jeito que ele parece depressivo, vai é acabar jogando fogo nele mesmo’’. — O Mais franzino do grupo tinha dificuldades de levantar uma mala média e não parava de pedir pela mochila do Marcos, querendo sempre ajudar. Seu nome era Elias e estava prestes a começar Engenharia de Alimentos, não sabia ao certo o porque de estar no curso, mas a familia se contentava de como soava o primeiro nome do curso. (Hipercalórico Saudável)

‘’Se a gente ateasse fogo nesse mato, acabaríamos todos presos. vocês sabem disso, não é?’’ O Último dos colegas de classe era o mais parrudo entre os três, um gordinho forte, no pior dos casos. Seu corpo negro era coberto de tatuagens e cursava direito. Seu nome era Leandro e parecia querer aplicar na vida tudo que aprendia em aulas.

Caminhando pela casa, Marcos notou de que se tratava de uma casa onde alguns cantos eram extremamente organizados, já outros beiravam ao caos, cada membro agia de uma forma bem individual e ninguém mexia nas coisas de ninguém.

Elias derrubou a mala no chão com um estrondo e estava prestes a cair sobre ela, quando perguntou, quase implorando como uma despedida dessa para a melhor: ‘’Leand… leva.. a mala até o quarto dele.’’

Marcos até aquele momento não fazia ideia de que teria seu próprio quarto, o que para ele foi uma grata surpresa.

‘’Pensei que fosse dormir em uma beliche ou coisa do tipo, falavam que essa casa tinha três quartos.’’

Leandro, segurando a mala com uma mão, riu. ‘’E tem, você dorme aqui, o Davi dorme aqui do lado’’ Batucou a beirada porta do quarto, que estava aberta. ‘’E eu e o Elias dormimos alí’’ — apontou para o quarto ao final do corredor.
Marcos parecia levemente confuso: ‘’Tem uma beliche alí?’’
Leandro não pode conter o risinho, colocou a mala de Marcos em cima da cama e deu um leve toque em seu ombro, dando-lhe as costas: ‘’A gente dorme junto.’’

Não era a primeira vez que Marcos convivia com homossexuais, mas era a primeira vez em que percebia que teria de conviver diariamente com eles. Marcos então percebeu do que se tratava estar na faculdade
Naquele momento, sua única resposta que conseguiu dar foi ‘’Ó…’’

Elias fuçava no netflix, rachado em conjunto por todos os moradores da república (era uma das regras), quando perguntou para cada um o que queriam assistir, Elias sempre queria agradar a todos.

‘’Marcos, decide aí’’ — Davi disse, naquela hora estava apenas de chinelo, seu último par de meias estava para lavar e Marcos soube ali quem era o criador do caos nos outros cômodos.

‘’Ahnn.. não sei do que vocês gostam.’’ — Marcos então foi pegar o celular de Elias como controle do chromecast quando Leandro avisou: ‘’Nem pensar, pareie seu celular também. Você é morador da casa, já vai acostumando.’’
E então Marcos entendeu quem era o mais severo, e a quem deve ter sido responsável pela parte limpa da casa.

Marcos pareou o bluetoofh e foi direto para as comédias, até que Davi deu uma chinelada com tudo no chão e gritou: — ‘’Mano, bora assistir Superbad! O Marcos já é nosso Maclovin! E eu já disse para vocês dois assistirem antes, agora é a hora! Melhor filme do mundo.’’

Ao final de várias risadas e alguns beijos entre Elias e Leandro que Marcos parecia cada vez menos prestando atenção, foi declarado que MacLovin seria seu apelido.

Ao final, virou seu nome.


Marcos dormiu numa cama mais dura que a sua, olhou para uma parede com outra cor, pisou num chão gelado que tinha uma textura diferente do seu chão, foi durante a madruga a um banheiro que tinha uma direção diferente que a da sua casa, viu um cenário que não era a sua rua.

Foi ai que se tocou que não estava na casa de algum amigo ou parente distante. Era a sua nova casa.

E isso fazia tudo parecer ainda mais solitário.
Tinha acabado de conhecer gente com quem, quiçá, conviveria dia-a-dia nos próximos 4 à 5 anos, dependendo de quantas Dp’s cada um ali tivesse. Ele sabia que não poderia se atrasar, não poderia pegar nenhuma, mas não fazia ideia do que era para esperar da própria vida.

Prefiriu dormir após um longo tempo encarando um teto que sabia que nunca mais prestaria atenção, acordou olhando as malas que mal havia aberto.

Respirou fundo e se levantou. Olhou para o próprio corpo sem camisa no espelho que já havia ali. apertou a barriga que começava a crescer.
‘’Cresce mesmo.’’ Pensou.

Abriu a porta do quarto, abriu a geladeira e viu nomes em cada pote. Do feijão congelado no pote de sorvete ao sorvete congelado na panela. Os dois, inclusive, com o nome de ‘’Leandro’’, deve ter sido propositalmente alguma piada.

Estava exausto demais para rir, demorava algo em torno de uma hora e meia para se sentir bem após acordar, e lembrar que nada naquela geladeira lhe pertencia não o fazia se sentir melhor.

‘’Belo tanquinho de chopp, marcoslovin.’’ Leandro já se encontrava acordado assistindo youtube na TV e, pelo que Marcos conseguia ouvir, parecia alguém ensinando como sobreviver numa floresta com uma faca e um isqueiro.
Marcos esperava que universitários acordassem mais tarde e não estava nem um pouco confortável com aquela situação.

Leandro notou a forma como Marcos comprimia os lábios, parecia um sinal de vergonha. Nítido. — Relaxa, aqui é sua casa, é normal não se sentir confortável confortável no começo. mas ai você uma hora tem que mostrar quem você é queiram nós ou não.

‘’Quando foi que você começou a usar meia com chinelos?’’ — Marcos retrucou, um pouco rabugento, com a cara contra a parede, escondendo metade do torso.

‘’Eu já desci para essa casa assim.’’ — Leandro riu e sinalizou para que Marcos sentasse no outro sofá, o de dois lugares. Assim que se sentou, Leandro questionou: — Já conversou com o proprietário, frente-a-frente?

Só por face. Marcos olhou para os próprios pés e notou que as unhas estavam enormes. retirou um cortador de unhas do bolso e começou a cortar

-Você anda com um cortador de unhas no bolso, cara? — Leandro começou a falar com uma espécie de sorriso.

‘’É, eu falei para meus pais que iria cortar antes de vir para cá, mas esqueci’’ — Deu um riso forçado e começou a cortar do dedão ao mindinho.

Leandro girou com o quadril no sofá, sentando firme e encarando Marcos frente à frente: ‘’Sabe que ninguém vai limpar essas unhas caídas para você, não é? E que ninguém vai querer pisar nisso sem querer, não é?’’ Leandro sorria de uma forma rígida.

Marcos se tocou e gelou. Percebeu que não estava dando nem de longe a melhor das impressões e começou a recolher a unha rapidamente, todas as que caíram, procurando para ver se não havia nenhuma debaixo do sofá.

‘’Naaaah.. você pode, aqui é sua casa agora.’’ Leandro riu e voltou a deitar-se no sofá. Marcos sabia que havia falhado no teste.

Se ergueu com as unhas dentro da palma, jogou no lixo da cozinha e foi direto para seu quarto. abriu a mala e uma sensação de repulsa passou pelo seu corpo. Ele não queria levar uma bronca, não tão cedo. havia falhado, queria pegar as suas coisas e sair. Abriu a mala, pegou o primeiro par de meias que sua mão mão alcançava e calçou. usou os mesmos sapatos do dia anterior e vestiu a camisa que mais gostava. uma de listras azuis e brancas.

Se olhou no espelho por uma ultima vez e saiu. Sem as malas. Foi comprar comida. Sua comida.

Aquilo havia sido um soco, e ele se sentia envergonhado a cada vez que lembrava. Estava num mundo diferente onde poderia fazer tudo, contanto que não fizesse nada que fosse prejudicial para outros, e ele poderia nunca saber até errar. Era completamente fora da sua zona de conforto, e aquilo o corroía.

Foi até a padaria mais próxima, checou se havia doces metade branco metade preto, com o formato da cabeça do mickey. Pediu duzentas gramas, sentou-se numa das poucas cadeiras que havia para sentar, bem aos fundos, abriu o pacote de papel daqueles que se tocado por gordura, furam e começou a comer, quieto.

Observou três jovens que pareciam exaustos, dois tinham a proximdade de um casal e a outra, uma garota, tinha longos cabelos castanhos claros, três chupões no pescoço e Marcos não conseguiu prestar atenção nos outros dois.

Um pediu pão na chapa, a que parecia sua namorada pediu um sonho e ela pegou um gatorade. De repente, risadas vieram:
‘’Precisa se hidratar agora, Mel?’’ — o cara ao seu lado soltava risinhos furtivos
‘’OOOooh.. depois de hoje vou me tornar uma pessoa bem hidratada, estou precisando!’’

Marcos puxou o ar para fora, como se tivesse se decepcionado.

Melissa estava incomodada com o jeito que aquele cara a olhava como se estivesse esperando algo. Detestava aquele tipo.

‘’Gente.. to querendo muito ir pro conforto da minha cama, podemos ir comendo no caminho?’’ — Ela o olhava e ele a olhava de volta, foi ele quem vacilou o olhar primeiro, olhando para baixo, comendo olhando para baixo.

‘’Vamos?’’ O casal se entreolhou, Patricia girava as chaves nos dedos e deu um tapa na bunda de Carlos assim que ele andou em sua frente: ‘’Ladies first.’’ Os três se entreolharam, riram e Patrícia deu uma leve arrancada, arrancando gritos.

Melissa estava feliz. tinha ficado com um cara que desde o começo do semestre anterior era afim, um bixo que parecia nunca estar nas mesmas festas, cursava um curso que ela não tinha o mínimo de interesse em saber e ele era, afinal, ótimo.

Parecia tudo bem, mas logo após alguns minutos no carro, quando se aproximava de casa, sua cara se fechou. Parecia ausente de tudo. Sua amiga, Patrícia já estava acostumada com isso, rolava toda vez que havia brechas para tal momento, e ela só voltava ao mundo real quando quisesse. Seu namorado Carlos cutucava-a toda vez que aquilo acontecia, para ele ainda era meio incomum: -‘’Ela tá bem?’’ perguntava todas as vezes

Deixada em casa, não sem o som de duas ou três buzinadas para irritar os vizinhos, Melissa se despediu com um pouco de vergonha e abriu a porta de casa, dando uma respirada aliviada. ‘’Enfim, sozinha.’’ Ligou o ar-condicionado, colocou um cachecol e ligou o computador.

…………….

Marcos voltou para casa derrotado. Estava sem ânimo só de olhar para aquele rosto de negação da garota, sabia que jamais haveria chances e parecia querer e não querer ter fantasias com a tal. Tudo aquilo parecia estranho e amedrontador, o ritmo das coisas eram um tanto mais velozes, os preços das coisas, mais caros e aquela sensação extenuante de voltar para uma casa que não se sentia completamente sua parecia fazer seu passo tomar um ritmo cada vez mais lento.

Encontrou com Elias, na porta. ele parecia um tanto irritado e o cumprimentou da forma mais simpática que encontrou.

‘’Eae, Mac! Acorda cedo?’’ — Marcos cumprimentou-o com um tímido balançar de mãos e não sabia como responder aquela pergunta sem um leve desconforto.

‘’Acho que só não consigo dormir muito’’ — forçou um riso, Elias parecia olhá-lo de uma forma como se estranhasse e aquilo fez Marcos se reter ainda mais um pouco. Não estava nem um pouco relaxado, não estava nem um pouco bem. ele estava farto de pessoas e só queria ir para casa se isolar.

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