Primeiro Sonho

Mais um estudante que reclama da vida. E o pior, mal tem seus dezenove anos de idade.

Mas tudo começou quando eu tinha dezessete. Minha mãe sempre dizia que estudar em uma universidade pública era uma péssima ideia. Apesar de fazer parte da classe quase-média, minha família acredita que não existe gasto com estudos. Existe investimento. Com este pensamento, minha patrocinadora (dispensadas quaisquer reuniões acerca do assunto) já garantia:

"Você vai estudar engenharia civil na faculdade X"

Obviamente, a faculdade X tratava-se de uma instituição privada. Na época, eu não via problemas com isso. Até chegar o ENEM daquele ano.

O que mexeu com a minha cabeça foi a decisão ilógica dos colegas de ensino médio. Os repetentes, os medianos e os "cabeças" da turma foram parar todos no mesmo lugar: engenharia civil na faculdade X. Eles sequer consideraram fazer a prova do ENEM. Me incomodava a ideia de que os alunos "cabeças" desperdiçariam seu potencial em uma instituição medíocre.

Apesar do incômodo, não era o suficiente para mudar minha decisão de obedecer à minha mãe e me matricular na faculdade X.

E então, a nota do ENEM foi divulgada. Para a escola interiorana onde estudei, era uma das melhores notas. Mas de nada servia se minha nota era insuficiente para qualquer curso superior na Universidade de Brasília. Foi daí que minha vida tomou um outro rumo (relendo esta frase em voz alta, percebo que soa bastante clichê).

Chegou uma noite que, na minha memória, parece que foi há algumas semanas. Depois do jantar em família, meu irmão subiu para o quarto, deixando a mim, meu pai e minha mãe sozinhos com uma pilha de louça suja. Era hora da conversa.

Os dois foram bem diretos comigo, diretos até demais pro gosto da maioria.

"Eaí, o que vai ser?" meu pai soltou.

Depois de elegermos vários prós e contras de cada opção, chegamos a um consenso. Daquele dia em diante, eu seria um vestibulando em tempo integral. Como eu tinha dito, investimento em educação nunca é demais para a minha família. Minha mãe foi direto para o melhor (e mais caro) curso preparatório do DF, e sem muita cerimônia na hora da matrícula.

Ainda que tivesse a mais cara de todas as mensalidades da região, era significativamente mais barata do que a mensalidade da faculdade X. E a faculdade X são cinco anos de mensalidades, com vários reajustes pelo caminho. Novamente, era um investimento.

Começadas as aulas, veio o choque: eu era bem mais estúpido do que já imaginava ser. E colocava toda a culpa na minha antiga escola, que "pulou" várias coisas importantes de ensino médio. Ao fim do semestre, depois do vestibular, sem muitas surpresas. Eu não passei, e foi por três pessoas que estavam à minha frente na lista de espera.

“Eaí, o que vai ser?” meu pai soltou de novo.

Eu não estava pronto pra desistir, então tive de implorar para que me deixassem tentar de novo. Dessa vez, sem ter de fazer viagens diárias de quase cem quilômetros, um alívio. Resolvemos alugar um quarto simples quase de frente ao curso, e isso foi essencial.

Então chegou o ENEM. Eu estava preparado e confiante nos dias que antecediam a prova. Eu e a ansiedade nunca fomos bons amigos, então ela me tirou o sono na noite anterior. Fiz a prova sem ter dormido absolutamente nada, e isso também foi decisivo pro meu futuro. Veio a nota, e era o bastante para quase todos os cursos. As únicas exceções eram Medicina — como sempre — e Engenharia Civil, que era meu objetivo.

Esse detalhe final não me deixou abalado, então resolvi escolher minha segunda opção (pensada de última hora) e arrisquei a Engenharia Elétrica. Eu sou meio cético para acreditar em destino, mas com mais duas questões acertadas — provavelmente eu teria as acertado com aquela noite de sono perdida - eu estaria cursando algo que não tem nada a ver comigo só para o agrado dos patrocinadores. Então, sim, errar aquelas duas questões e tirar uma nota um pouco menor provavelmente era o meu destino.

Segundo sonho

Pulando um grande pedaço, chegamos a uma história bem menor. Desde o começo da adolescência, minha vontade era de percorrer o mundo até achar um lugar melhor de se morar. Além de três paredes cinza, meu quarto tem uma parede coberta por um papel prateado com o nome de vários países. Depois de ingressar na universidade, surgiu uma oportunidade de satisfazer essa minha vontade.

O programa Ciência sem Fronteiras (CsF, para os íntimos) permite que o estudante universitário more em algum país durante o período de um ano (podendo ser extendido ou reduzido em alguns casos). O programa foi efetivado durante o primeiro governo Dilma, em meados de 2010. Pesquisei bastante e concluí que o Canadá era o país ideal para o meu perfil.

Mas como eu disse, era uma história curta.

Apenas 4 meses na faculdade e a verba do CsF foi cortada. O dinheiro ia ser destinado só a quem já estava no exterior, ou seja, ninguém mais ia ser mandado. Como a situação econômica do país não mudou, só me resta acreditar de que o programa vai continuar sem verba até eu deixar de ser universitário. Além de curta, a história não tem final feliz.

Terceiro Sonho

A crise estava se estabelecendo no país. Eu já sintia no bolso — mesmo que o bolso dos meus pais — até quando precisava pedir o dinheiro do almoço. Estava na hora de arrumar um emprego. Mas o que eu teria tempo de fazer, saberia fazer e que me pagariam para fazer? Prostituição nunca foi meu forte.

Virei professor de inglês.

E caramba, como eu era bom. E isso não de acordo comigo, mas dos meus próprios chefes.

Meu inglês não era impecável, mas eu tinha uma didática que, com certeza, eu herdei da minha mãe. Enquanto eu era tímido em outros lugares, eu sabia vestir a máscara de professor alegre e energético em sala de aula. Eu tinha poucas turmas, para não atrapalhar a faculdade. O primeiro emprego em que eu pensei acabou sendo o emprego ideal pra mim. Mas esse momento da minha vida também não durou muito.

Há algumas semanas, as aulas de um novo semestre começariam e eu iria conhecer mais novas cinco turmas. Meu chefe já me dizia que a situação financeira não estava sustentável para a escola de inglês. Eu só não esperava chegar para trabalhar e ser demitido antes mesmo de começarem as aulas. Voltei tremendo para o carro. Estava com medo de dirigir e cometer um erro.

Aquilo era a única coisa que eu tinha certeza de que era bom. No resto da minha vida, eu era só mais um.

Quarto Sonho

Há menos de uma semana, minha mãe leu para mim uma notícia que viu no Facebook:

"Concurso do senado para nível médio paga uma baita grana"

Não estava escrito "uma baita grana", mas acredite em mim quando digo que era bastante dinheiro. Comecei a estudar para o concurso e entrei num mundo confuso. Mas por onde começar? O peso da parte de língua portuguesa era enorme. Então comecei a praticar a escrita.

Adivinha, esse texto inteiro foi a minha prática. Legal, né?

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