A dor do fracasso

Desde quando somos apenas crianças, nosso sucesso é medido, avaliado, analisado e colocado em grupos. Se você não tirou uma boa nota na prova de matemática, a professora escreve com caneta vermelha bem grande pra você saber em qual grupo você faz parte. Em casa seus pais querem saber o porque disso, não aceitam nota baixa e acabam te forçando a fazer melhor. Quando isso não acontece, você vai até a diretoria da escola, onde um monte de gente vai te dizer a mesma coisa: sua nota está baixa e precisa melhorar! Poucos são os que conseguem tirar algo de bom nisso, na nota baixa com caneta vermelha, afinal, é proibido não tirar 10.

Certo, mas e daí? E daí que a gente cresce aprendendo a não aprender. A gente não aprende que podemos errar e aprender com isso, aprendemos que errar é errado, passamos a temer nossos próprios erros. Logo eles, que deveriam ser nossa maior fonte de aprendizagem. Passamos a ter medo de errar, passamos a focar somente em acertar, qualquer coisa menor que isso não vale, é uma vergonha.

Quando foi a última vez que você tentou uma coisa nova, diferente? Quando foi a última vez que você fracassou em algo que tentou criar? Seja uma nova empresa, um novo projeto pessoal, aquele prato italiano que você quis tentar cozinhar e assim por diante, quando foi?

E principalmente, quando foi que você parou de verdade pra refletir nas vezes que você pôde aprender com seus erros e aceitar que eles fizeram parte da sua construção?

No meu caso: nunca.

E assim eu chego aos meus 31 anos, despedaçado por dentro, um vazio que é inexplicável e que dói tanto que eu não consigo nem expressar, nem explicar, nem dimensionar.

O resultado dessa falta de entendimento sobre fracassos e erros é um quadro de depressão que se arrasta por um tempinho, eu não aprendi a errar, eu aprendi a nunca errar e isso me destruiu por dentro.

Veja, meu ponto aqui não é criticar instituições de ensino, pais e etc, é mostrar que é possível fazer a jornada por diferentes caminhos, que mesmo errando você estará seguindo em frente. O problema é que isso nunca foi mostrado pra mim, eu tentei muita coisa na minha vida, tentei mesmo, mas o cerne é que eu não aprendi a aceitar os erros e os fracassos que cometi, e acabei aqui, doente e sem saber o que fazer.

Eu disse que já fiz muita coisa, na verdade eu tentei muita coisa. Desde abrir minha primeira empresa com 18 anos, morar em São Paulo, ir morar na praia do Ceará, investir em franquia que eu fali em 8 meses, decidir voltar pra minha cidade e aceitar que algo está errado. Tentar nunca foi o problema, o problema está sendo agora que eu não consigo fazer mais nada, tudo parece difícil, engasgado, sufocante, não consigo dar um passo sem achar que vai dar tudo errado, ou pior, que eu não sou bom o bastante para aquilo. E quando eu parei realmente pra refletir eu vi que nos últimos 5 anos foram dessa forma, mas eu mascarava esse sentimento como se fosse algo passageiro ou momentâneo.

E o engraçado é que eu tenho noção disso tudo, eu sei de tudo isso, mas não adianta, é um negócio muito louco, eu disse que não consigo explicar. Eu decidi voltar pra minha cidade pra me tratar, pra melhorar, acho que o principal foi ter aceito meu quadro depressivo e procurar ajuda, mas não está sendo suficiente, é um trabalho diário exaustivo e de paciência.

E por que eu decidi escrever sobre isso? Porque assim como várias pessoas que eu conheci durante minha jornada, eu imagino que devem existir milhares que passam pela mesma situação e não conseguem dar outro primeiro passo. Eu tô aqui pra dizer que vai ficar tudo bem e que você não está sozinho. Eu sei que o sentimento é totalmente o oposto disso, mas se algo me fez continuar foi a vontade de me ver como eu me via lá trás, feliz e determinado.

Durante esse processo que eu estou, de tratamento, e porque não, de cura, eu ouvi muita coisa complicada de ouvir e aceitar. Eu ouvi de pessoas próximas que eu sou um fracassado mesmo, que eu nunca conquistei nada, que eu não tenho nada, falaram pra mim que eu era um bosta, que eu sou uma vergonha pra minha família. Cara, isso acabou com o que ainda tinha aqui dentro! Mas na boa, eu sou isso tudo mesmo, a diferença é como você olha pra tudo isso, hoje eu consigo olhar para os meus fracassos e entender que valeram a pena porque eu tentei e eu acabei aprendendo sim com eles. Claro que eles deixaram uma marca que está me acompanhando a bastante tempo, mas estou ciente que preciso continuar tentando e trabalhando aqui dentro pra melhorar, mesmo que em vários momentos pareça que eu tô sozinho e nada vai mudar, mas eu continuo.

Então o foco aqui não é apenas pra quem se vê um pouquinho no que eu descrevi, mas também pra quem está ao redor. Ninguém tem o poder de curar alguém da depressão, a não ser nós mesmos, mas precisamos de ajuda de um profissional. Mas tem uma ajuda que não dá pra dimensionar, da empatia.

Preste mais atenção ao seu redor, sinta como as pessoas que você gosta estão, talvez elas não estejam simplesmente diferentes, talvez elas estejam com um problema que sozinhas elas não consigam resolver, talvez tá tudo tão escuro que uma palavra, um convite, uma lembrança sirva pra iluminar nem que seja o próximo passo dela, sabe?

Nossos dias são tão corridos que acabamos esquecendo nossa essência na maior parte do tempo, por isso, olhe para o lado e tente enxergar se aquele seu amigo, companheiro ou parente precisa de um apoio, por mais simples que ele seja.

Com certeza isso vai aliviar pelo menos um pouquinho a dor dela e trazer perspectiva, os erros, os fracassos nunca irão embora, mas a forma que você lida com eles pode mudar, e quem sabe eles não se tornem um motivo de orgulho na sua próxima conquista, assim como eu estou tentando alcançar a minha.

Como o pessoal lindo do Ceará sempre diz: “vai dar certo”.