Ontem eu chorei.

Ontem eu chorei. Na verdade eu desabei. Pela primeira vez em anos, pela primeira vez desde o começo do meu tratamento, eu desisti! Não, eu não desisti de tentar, mas eu desisti um pouco de mim, eu cheguei no meu limite, eu cheguei no ponto de não me entender mais e de não saber como eu vou sair dessa.

“Dessa”, é estranho dar nome para aquilo que não entendemos, mas a verdade é que parece que ela me entende ainda mais, ela sabe vir quando eu menos espero, quando eu acho que estou evoluindo e quando eu acho que estou mais seguro de mim e pronto pra dar um outro passo. A verdade que ela me mostra que não e que falta tanto pra chegar lá que eu não sei mais o que fazer, ela mostra a minha realidade diária, ela mostra o tamanho do buraco aqui no meu peito e o tamanho da confusão aqui em cima, ela mostra quem eu sou de verdade nesse momento, medroso, triste, ansioso e incapaz.

Ela é a minha depressão. Eu queria conseguir descrever pra você o que é ELA, mas eu não consigo, nem pra mim mesmo eu consigo definir o mínimo possível do que eu estou passando e eu só consigo pensar em algo escuro, pesado e que dói, que dói tanto que me faz querer largar tudo só pra parar de sentir isso. E o que é largar tudo? Eu não tenho mais pra onde ir, eu já tentei esconder ela aqui dentro bem lá no fundo e não funcionou, já tentei mostrar ela pra todo mundo, parece que ela quer se exibir e mostrar o quão forte ela é, ela está ganhando, pq ela é bem mais forte do que eu poderia ser nesse momento.

É bizarro pensar sobre isso e o quanto nós não temos o controle sobre nada. Até porque eu sei o que criou isso dentro de mim, eu realmente sei, mas eu não sei como tirar. Está tão profundo e misturado com os outros sentimentos que eu costumava ter que eu nem sei mais o que é verdadeiro ou invenção dela. Quando eu estou feliz, o que é raro, eu fico duvidando da genuidade dessa felicidade e só esperando passar pra eu voltar a minha realidade escura e pessimista.

E uma frase fica me perseguindo todos os dias: o que eu preciso fazer? Eu assumo que não sei mais, é triste, é pesado você assumir pra você mesmo que está desistindo e só deixando as coisas andarem como elas quiserem, mas eu estou perdido demais pra encontrar qualquer pedacinho de caminho que possa me levar pra algum lugar menos angustiante, eu permaneço na escuridão e ela me abraça todos os dias, faz parecer que gosta de mim, mas na verdade ela está tirando tudo de mim.

Eu tenho trabalho, eu tenho 2 trabalhos, eu não fico em casa de preguiça, eu passeio com meus cachorros, eu socializo, eu vejo pessoas, eu converso com elas, eu finjo que eu sou outro pra elas não me olharem diferente, esse olhar me mata, eu sinto elas pensando, eu sinto elas cochichando sobre mim. “A lá, ele tá diferente de novo”, “Ixi, hoje ele tá emburrado” ou “Tô com medo de falar com ele”. Caceta ou, eu estou péssimo, para de ficar achando que me entende quando nem eu me entendo! Para de achar que você sabe o que tá acontecendo aqui dentro só porque eu tentei conversar com você te dando um boa tarde e um tudo bem, esse meu sorriso é totalmente falso, é só pra parecer que tá tudo bem, tirar essa máscara vai me fazer ser de verdade e ninguém tá preparado pra entender alguém de verdade, ninguém é de verdade nesse mundo de aparências vazias e felicidade comprada em farmácia.

Minha vontade era de sumir, sumir pra um lugar bem longe, sem ninguém, só eu e ela. Talvez assim ela se canse, talvez assim eu consiga fazer uma luta justa somente entre eu e ela, talvez.

Enquanto isso, daqui 30 minutos eu preciso ir trabalhar de novo, coloco minha roupa e minha máscara de que tá tudo bem, finjo meu sorriso, finjo minha força de vontade, finjo minha felicidade, é mais fácil fingir do que ter que responder aquele “Tá tudo bem?” com um “Não, não está!” e ver a pessoa se matando pra não estar ali, nem eu queria estar, nem eu.

Eu só quero terminar meu trabalho hoje, voltar pra casa, dormir e acordar pensando que isso foi um pesadelo que me pegou numa noite e que ao acordar tudo tenha sumido aqui dentro, mesmo que leve várias coisas boas que eu sei que ainda tenho pra mostrar, mas entre sentir o que eu sinto hoje, prefiro não sentir nada.

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