Lolita ou “Como Ser Um Belo Livro Sobre Coisas Terríveis”

Lolita, 1997

Lolita tornou-se um dos meus livros favoritos — se não o próprio. Nabokov é, sem dúvida, um dos maiores escritores que já pisaram em solo terrestre. As descrições são muito precisas e facilmente imagináveis, com várias cenas escritas de modo deliberadamente elusivo, que o leitor precisa montar mentalmente para entender o que acontece. O Humbert é uma das personagens mais bem construídas que eu já li, e a Dolores é uma criança brilhantemente concebida. Desde o começo, e de modo irônico, o livro vai deixando pistas de várias coisas que só acontecerão mais para o final.

Dito isso da parte mais “técnica” do livro, que é encantadora e um dos motivos pelos quais esse livro é sensacional, posso começar a falar da história em si. Esse esse texto não tem a intenção de ser uma resenha, então vou partir da suposição de que o leitor já sabe o que acontece. Assim, quem não quer nenhum spoiler, guarda o texto pra depois.

O maior problema de Lolita não é o livro em si, mas sim as muitas interpretações que causou, pois tudo no livro é exposto de forma mais ou menos clara, coisa que não acontece nas adaptações cinematográficas. O foco do Lolita de Kubrick, por exemplo, mesmo tendo a mesma história, é outro, além de reduzir a carga dramática dos personagens, e Kubrick causaria um escândalo se mostrasse as partes mais emocionais e sexuais em 1962. A adaptação do Adrian Lyne, de 1997, deixa as coisas mais claras, mostra a problemática da história, mas grande parte do que é dito por Humbert e, mais importante, o próprio lado nojento dele, não é mostrado, dando a brecha para a romantização. O filme é ostensivamente do ponto de vista dele, assim como o livro, mas o filme é mais acessível que o livro, o que pode ter causado a grande onda da má interpretação que forma, tristemente, boa parte da discussão sobre Lolita.

Humbert

Seria fácil eu chegar e só soltar as características básicas dele — como pedófilo — , iniciar um tribunal e ser “as pessoas do juri” — que é como ele chama os leitores . O próprio Humbert sabe que se dirige a um juri formado por leitores que irão julgar cada ato dele. Farei diferente.

Quando Humbert tinha 12 anos, conheceu Annabel, da mesma idade que ele, e se apaixonou. A menina morreu pouco tempo depois, causando um trauma no narrador, e ele trata essa menina como a precursora de Lolita, como dito no trecho abaixo:

“Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial.”

Obs.: A história de Humbert com Annabel foi inspirada no poema Annabel Lee de Edgar Allan Poe.

Esse trauma pode ser uma explicação para a natureza de Humbert, que o Nabokov teve a atenção de colocar na história em vez de simplesmente jogar um pedófilo descontrolado para o leitor. Esse trauma é um elemento essencial, muitas vezes esquecido, para dar um ponto de origem, mostrando que ele nunca a superou e achou em Dolores a própria Annabel.

Ao falar dos sentimentos do Humbert em relação à Dolores, seria preciso questionar muitos pontos. Por exemplo: Humbert só ama Dolores dependendo de qual o significado que se dá para o sentimento amor. Não quero abordar essa discussão porque ela tomaria metade do texto, mas eu, após ler Lolita, acho que Humbert ama Dolores porque Humbert viu em Dolores a Annabel que ele perdeu. Isso pode ter sido o que “transformou” ele em um pedófilo, porém, claro, não justifica nada do que ele fez à Dolores — no caso, acabar com a vida da menina — , mas o sentimento existe, mesmo que doentio, psicótico e obsessivo, mesmo que errado, mesmo que abusivo. O sentimento não é exatamente por Lolita, mas foi nela que ele depositou esse amor antigo.

Eu te amei. Era um monstruoso pentápode, mas como te amava. Era desprezível, brutal, torpe — tudo isso e muito mais, mais je t’aimais, je t’aimais! E houve momentos em que sabia como você se sentia, e era um inferno sabê-lo, minha menina querida. Minha pequena Lolita, minha corajosa Dolly Schiller!

Dolores

Dolores, não Lolita. Talvez Dolly, talvez Lo, talvez Lola, mas nunca Lolita.

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

Lolita é a Dolores que a mente insana de Humbert Humbert projetou. O fato de o livro ser escrito numa primeira pessoa tão obsessiva contribui para a dificuldade do leitor de saber exatamente aquilo que se passa com as personagens que não são o narrador, então não há como saber os verdadeiros sentimentos e o que se passou na cabeça de Dolores Haze enquanto foi Lolita. Em alguns momentos, Humbert relatou algumas insatisfações de Lolita, mas, na maior parte do tempo, o leitor é apresentado a uma menina que corresponde às investidas de Humbert e que o provoca. Essa escolha é uma das grandes culpadas pelo grande mal entendimento da história, e abre a brecha para a influência do narrador sobre o leitor.

A Lolita de Humbert não parece ligar muito para a morte da mãe, provoca e trata de forma sensual atitudes que poderiam facilmente ser brincadeiras de uma criança. Essa aparente reciprocidade de Lolita faz com que o leitor muitas vezes esqueça que a menina tem 12 anos. Mas não pode nunca ser esquecido que Lolita é a imagem de Dolores vista e transmitida por Humbert.

Ponto de Vista

Um dos pontos mais comentados sobre o livro é o fato de ele ser em primeira pessoa e narrado por Humbert Humbert. Isso torna os fatos questionáveis? Sim. Isso abre espaço para a má interpretação? Não muito. Muitas vezes o livro é comparado com Dom Casmurro por conta da primeira pessoa e do narrador suspeito, mas, diferente de Bento Santiago, H. H. não tenta convencer o leitor de que estava certo. Mesmo que o livro seja narrado pelo próprio Humbert, o narrador não tenta esconder ou amenizar a sua natureza. Em vários trechos, Humbert comenta o fato de ter plena e sarcástica consciência de que é um pedófilo, e relata momentos em que a Dolores chorou após abusos e é nojento o suficiente para que o bom senso não permita que a história seja romantizada. Humbert, no final do livro, arrepende-se do que fez com Dolores e fica claro que, não, Lolita não é um romance.

Narrativa

[Vladimir Nabokov cries in interpretation language]

“A sinceridade desesperada que permeia sua confissão não o absolve dos pecados de uma astúcia diabólica. É um ser anormal, nada tem de gentleman. Mas com que acordes mágicos seu violino evoca uma ternura, uma compaixão por Lolita que faz com que nos sintamos fascinados pelo livro embora abominando seu autor!”

O trecho acima pertence ao prefácio de Lolita, escrito por um doutor fictício que leu os escritos de Humbert após sua morte. É o que a maioria dos leitores pensa durante e após a leitura de Lolita. Como pode uma história narrada por uma pessoa horrível conseguir fazer o leitor sentir raiva, pena, dor e tristeza, tudo ao mesmo tempo? Ou, às vezes, perceber que sente empatia? O ponto forte de Lolita é esse: fazer o leitor sentir coisas que ele não deveria sentir.

A narrativa do Nabokov não é apenas boa. Ela consegue fazer com que os sentimentos do leitor mudem sem que ele perceba, induzindo-o a ir de encontro à moral e aos bons costumes.

Claire Quilty

Claire Quilty é nada mais e nada menos que a versão exposta de Humbert Humbert. Humbert mata Claire pelo que ele fez à Dolores e por tirá-la dele, sem perceber que, no fundo, são iguais. Ambos pedófilos, com os mesmos desejos, porém um contrapondo o outro: Claire com suas atitudes extrovertidas e Humbert em sua própria cabeça.

Humbert vê Claire da mesma forma que a sociedade vê o próprio Humbert.

Lolita não é uma história sobre pedofilia ou uma crítica social, muito menos um livro erótico. O livro não justifica e nem crucifica a pedofilia. Lolita relata a vida de um homem insano, perturbado, vivendo em sua própria gaiola. Lolita traz o leitor a esse mundo a tal ponto que ele acaba questionando as próprias concepções e ri das piadas de um ser desprezível.

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