Era uma vez na América

Heitor Flumian
Feb 13 · 8 min read

Para muito além do Capitólio e da Casa Branca, Washington tem uma cena cultural vibrante, com espaços para shows intimistas, bons restaurantes e ótimos museus que preservam parte da história do país

Por Heitor Flumian / Fotos Jorge Lepesteur

O movimento em frente ao Capitólio

Bob Boilen é um cara de sorte. Não só por ir a mais de 400 shows por ano como parte do ofício ou por colecionar boas histórias com músicos do mundo todo que, não raro, se tornam amigos — o carioca Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, é um dos que Bob já recebeu em casa para uma apresentação especial. Mas também por seu ambiente de trabalho, em um prédio no centro de Washington, nos Estados Unidos. Aos 65 anos, Bob é criador e apresentador de dois programas de rádio do grupo de mídia National Public Radio (NPR). Em um deles, o cultuado Tiny desk concerts, sua baia é ocupada por músicos de gêneros distintos — do hip-hop ao jazz, passando pelo indie rock e o folk — que fazem shows para lá de intimistas durante o expediente, em plena redação, em um cenário formado por estantes abarrotadas com seus livros, LPs, pôsteres e tralhas. As sessões duram 20 minutos e têm milhões de views no YouTube. “Em Washington, há pessoas que apreciam demais a música e, durante os shows, prestam atenção de verdade. Isso não acontece em outras partes do país, em que é comum ver gente conversando e sendo um tanto mal-educada”, conta Bob. Para acompanhar a apresentação na NPR in loco, a dica é participar de eventuais tours pela empresa e tentar a sorte de estar ali na hora certa. Já para uma experiência musical certeira, o ex-engenheiro de som recomenda assistir a um show no lendário 9:30 Club, lugar em que o áudio melhor reverbera na região. “Estamos em uma cidade vibrante, que tem um pouco de tudo, mas as atrações estão espalhadas. Por isso, é importante saber onde as coisas estão acontecendo; se conhecer alguém daqui, fica mais fácil”, diz.

Bob Boilen em seu escritório, cenário do Tiny Desk Concerts; ao lado, show no 9:30 Club

INSIDE(R)

Uma boa maneira de ficar por dentro da programação da capital norte-americana é acompanhar a newsletter semanal do The Pink Line Project (), com dicas preciosas do circuito alternativo de eventos de arte, música, teatro e dança. A curadoria é feita pela produtora cultural Philippa Hughes, 50, que promove projetos e intervenções artísticas ao longo da cidade. Um deles é o Dupont Underground, que abriga, em uma estação de bonde subterrânea abandonada, construída em 1949, sessões de cinema, mostras de arte e de fotografia, shows e até baladas — no fim do ano passado, o lugar sediou uma festa da embaixada alemã. “Busco fazer da cidade um espaço criativo. Acredito que se você não está feliz no lugar em que vive, a solução é transformá-lo em algo melhor”, diz Philippa. A discreta entrada do Dupont Underground fica na saída da New Hampshire Avenue, na ampla rotatória Dupont Circle, que dá nome ao bairro, localizado no noroeste de Washington. A região concentra atrações como a livraria e cafeteria Kramerbooks & Afterwords, onde acontecem leituras de livros infantis para os pequenos às quartas-feiras e encontros de mulheres empreendedoras aos domingos.

Philippa Hughes, the coolest girl in town; o ambiente do Dupont Underground; e o valente vendedor de jornais
Por dentro do museu The Phillips Collection

Neste mesmo dia, pela manhã, a rua da frente, a 20th street, é tomada por mais de 50 produtores locais que vendem de frutas e vegetais orgânicos a queijos e geleias artesanais na feira Fresh Farm. À noite, o agito segue em pontos como o Eighteenth Street Lounge, um casarão com luz baixa e espaços para salsa ao vivo e música eletrônica, e o Decades, um clube noturno de cinco andares e quatro ambientes cujos sábados são embalados por hits da pop e da black music dos anos 1980 até os mais atuais. Por aqui, ainda fica o museu de arte moderna The Phillips Collection, com obras de Van Gogh, Renoir e Edward Hopper no acervo. O destaque, porém, é a exposição The migration series, do norte-americano Jacob Lawrence, que ilustra o movimento em massa de mais de um 1 milhão de afro-americanos do sul rural para o norte urbano nos primeiros anos do século 1920.

É o museu preferido de Philippa, para quem esse tema é bastante conhecido. Filha de pai irlandês e mãe vietnamita, ela nasceu nas Filipinas e veio criança para os Estados Unidos. Há alguns anos, se mudou para um apartamento na 14th street, uma das ruas mais badaladas da cidade. Além de restaurantes com cozinhas de diversas nacionalidades e bares com propostas distintas — o Pilar combina no menu boas opções veganas e ótimos drinks, como o Breakfast of Champions (US$ 13) — , a via é lugar de cafés charmosinhos, como o Busboy and Poets, que se torna ainda mais aconchegante no inverno e em noites de saraus de poesia. Em uma das avenidas que a cruzam, a extensa U street, a rima rola na calçada com rappers cantando sobre Deus, (des)esperança e resiliência, e a beleza se espalha pelos becos coloridos com grafites de ícones negros, como Muhammad Ali, Prince e lendas do jazz, como Duke Ellington.

Para apreciar o gênero, aliás, vá ao bar Brixton no domingo ao entardecer, ou perca algum tempo nas lojas de discos de vinil Red Onion Records e Joint Custody. Quando a fome apertar, não hesite em provar o chili half-smoke (US$ 5,95), um dos tradicionais hot-dogs do Ben’s Chili Bowl, aberto em 1958 e frequentado por celebridades do porte de Barack Obama. O mural do ex-presidente com a esposa Michelle, pintado ao lado da fachada, não está lá à toa.

A vibe do Ben’s Chili Bowl

“Washington é uma cidade cultural, sim, com vários artistas fazendo as coisas acontecerem, mas ao mesmo tempo é uma cidade política. E eu gosto disso, de estar perto da ação”, diz Philippa. Desde que Donald Trump foi eleito, em 2016 — teve apenas 4,18% dos votos na cidade — , Philippa passou a convidar grupos em igual número de republicanos e democratas para jantar em sua casa. Em uma dessas ocasiões, um artista fazia desenhos enquanto o papo rolava, criando uma charge de cada pessoa com uma fala que captava a essência de seu discurso. “Isso, de alguma maneira, tirou o clima de confrontamento e fez com que a conversa se aprofundasse”, lembra. “A arte é um meio de promover diálogos difíceis e estimular as pessoas a agirem. Se falarmos apenas com quem pensa da mesma forma, vamos concordar, ficar indignados e aí? Nada acontece.”

Cenas da U Street

GREAT AGAIN

Na hora de conhecer os pontos mais tradicionais da capital, que celebram parte da história do país, é bom saber: os principais ficam ao redor do imenso parque National Mall. Vale começar o trajeto até lá cruzando o bairro de Georgetown, mais antigo do que a própria cidade, fundada em 1790, e marcado por duas vias repletas de lojas — a M street e Wisconsin avenue — e centenas de edificações em tijolo geminadas. Amantes da arquitetura não podem deixar de dar uma voltinha no campus da Georgetown University, aberta em 1789.

Ao chegar à margem do rio Potomac, tomada por cerejeiras que proporcionam um espetáculo visual quando afloram na primavera (de março a junho), caminhe em direção ao Georgetown Waterfront Park. No verão, além de passeios de barco, é comum topar com locais praticando esportes aquáticos, como stand-up paddle e caiaque, e crianças alimentando patos e gaivotas. Em qualquer época do ano, contudo, há pessoas correndo ou pedalando em um calçadão e em uma ciclovia que se estendem até uma das extremidades do National Mall, onde fica o Lincoln Memorial, que preserva a imponente estátua do ex-presidente Abraham Lincoln (1809–1865). Entre os seus degraus, sobre os quais Martin Luther King fez seu célebre discurso contra a segregação racial no país em 1963, e o Capitólio, na outra ponta do parque, há ainda a Reflecting Pool — eternizada em uma cena do clássico Forrest Gump: O contador de histórias (1994) –, um monumento em homenagem aos soldados da Segunda Guerra Mundial e o maior obelisco do mundo, dedicado a George Washington, o primeiro presidente norte-americano.

Reflecting Pool vista desde o Lincoln Memorial; e a música das ruas

“Talvez seja a cidade mais ‘americana’, no sentido de exaltar seus feitos, seus valores e sua história, que ainda é curta como nação. E eles sabem muito bem construir a ideologia que vem propagando nesse tempo”, analisa o professor de história espanhol Israel Peralta, 39, em visita à cidade. Essas e outras facetas norte-americanas estão retratadas na National Gallery of Art, no National Museum of American History, no Newseum, no National Museum of Women in the Arts e nos diversos bons museus da região, a maioria com entrada gratuita. Voltando os olhos para o presente, se ainda restar tempo, estique a caminhada até o The Wharf, o point do momento, um antigo cais no qual foram investidos mais de U$S 2 bilhões em revitalização, traduzidos em descolados bares, restaurantes e lojas. Às margens do rio Potomac, fica a alguns passos do suntuoso hotel Mandarin Oriental, que tem vista privilegiada da área, além de acesso direto ao Thomas Jefferson Memorial, outro importante monumento. Fica a (última) dica.

[matéria publicada na edição nº 203/fevereiro 2019 da ]