Não matem o mensageiro
Há mais de 40 anos empunhando o microfone para cobrir guerras, o tráfico nas favelas e a rotina de violência e injustiças sociais no país, o jornalista Caco Barcellos não volta para casa com meias verdades
Por Heitor Flumian / Fotos Pedro Dimitrow

Caco Barcellos gosta de lembrar uma história pouco comentada, mas que acontece com frequência nas grandes cidades: a do ônibus e do incêndio. A notícia é dada assim: “Vândalos põe fogo em ônibus causando enorme prejuízo público para os trabalhadores que tanto precisam desse transporte”, com imagens mostrando o ônibus em chamas. No futuro, quando o historiador contar quais foram os acontecimentos na cidade naquele período, dirá: “Havia um tempo em que bandidos armados e cruéis com os trabalhadores botavam fogo contra a iniciativa privada”. “Isso é uma meia verdade”, diz Caco. “Se algum repórter fizesse a pergunta básica, ‘Por que botaram fogo no ônibus?’, e andasse alguns quarteirões adiante, encontraria o corpo de um negro pobre fuzilado pela polícia. Ele entenderia que o ônibus foi incendiado para chamar a atenção para o corpo, porque a imprensa não aparece só por um pobre morto pela polícia. E a história seria outra.”
Há mais de 40 anos, Caco é o repórter que anda aquele meio quarteirão. Desde o início da carreira, entendeu que mais do que contar boas histórias, sua missão é mostrar a verdade por trás delas. Já fez isso ao retratar crianças morrendo na guerra da Angola, ao acordar com o terremoto mais devastador da Guatemala e, na contramão do fluxo, correr para o centro de um desastre nuclear nos Estados Unidos. No Brasil, encontrou os corpos de desaparecidos políticos e subiu o morro para dar voz ao morador da favela.
Com os livros Rota 66 (1992) e Abusado (2003), vencedores do Prêmio Jabuti e presença constante na bibliografia de cursos de jornalismo, obteve o reconhecimento literário pelo público e crítica. No primeiro, virou noites em delegacias e em cemitérios clandestinos para denunciar com detalhes a ação e as vítimas de um esquadrão da morte da Polícia Militar de São Paulo. Já no segundo, viveu a rotina do Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, para contar a história do Comando Vermelho pelo ponto de vista do traficante Marcinho VP.
Foi na Globo, emissora que entrou em 1985, que o repórter atingiu o panteão do jornalismo. Caco passou por programas como Globo Repórter, Jornal Nacional e Fantástico, e foi correspondente em Londres e Paris. Em 2006, de
volta ao país, o jornalista botou em prática um projeto antigo de programa em que pudesse contar uma mesma história por diferentes ângulos. O Profissão Repórter surgia com jornalistas recém-formados assumindo todas as funções que envolvem a produção de uma reportagem e mostrando os seus bastidores.
Leia a seguir a entrevista com o jornalista que deu origem à matéria publicada na capa da edição de agosto da Revista da GOL.
Caco, para começar, queria que você me falasse das memórias mais fortes que tem da sua infância.
A lembrança que tenho da minha infância em Porto Alegre é dos meus pais trabalhando muito. Meu pai era frentista de posto de gasolina e sempre teve dois ou três bicos para reforçar a renda. Minha mãe lavava roupa para eventuais vizinhos, costurava para pessoas de fora do nosso bairro e ajudava a garantir uma alta qualidade de vida para mim e para minha irmã, com alimentação de primeira linha, com proteína da criação de frango caipira e de alimentos orgânicos que tínhamos no nosso quintal. E desde muito cedo eu achava que tinha o dever de ajudá-los. Com menos de 10 anos, fazia trabalhinhos pelo bairro, como catar com um carrinho de mão ossos de gado que sobravam de churrascos que as pessoas faziam e vidro quebrado. Tinha um intermediário que passava pelo bairro gritando aquelas músicas de comprador e eu corria para fazer minha entrega para poder comprar as pequenas coisas que desejava, fosse um doce ou um sorvete. Também levava os ossos para uma fábrica que fazia botões para roupas e jogadores de futebol de mesa. Eu era um super-jogador, treinava oito horas por dia e disputava campeonatos com adultos. E também ganhava dinheiro nesses torneios, porque transformava os ossos que tinha catado pela cidade em goleadores.
Quando o instinto jornalístico deu os primeiros sinais?
Talvez o primeiro indício de que um dia me tornaria um contador de histórias era a enorme necessidade que tinha de saber o que existia além da minha rua e do meu bairro. Quando eu tinha uns 13 anos, era dono de um cachorro vira-lata que era muito preguiçoso durante o dia e se ligava muito à noite. Também sou assim, me ligo ao entardecer. Eu tinha um certo medo de entrar nas favelas e em áreas desconhecidas onde já havia tráfico, mas com o cachorro eu tinha coragem e saíamos caminhando até longe. Lembro de acompanhar as obras do estádio Beira-Rio, do Internacional, que ficava a uns 10 km de casa. No caminho, eu contava e ouvia histórias, mas geralmente quem parava para conversar eram pessoas com doença mental — tínhamos altas conversas! — e tenho uma antena muito grande para atraí-los até hoje. Eu voltava para casa muito tarde e escrevia crônicas, sem saber que eram crônicas, sobre o que tinha visto na rua ou sobre as loucuras que esses personagens da noite me falavam. E me emocionava muito, eu chorava escrevendo.
A segunda influência vem do meu avô materno, Horácio, que era carroceiro e vendia frutas e legumes no bairro. Eu era seu auxiliar e rodava com ele. Os seus seis filhos homens faziam algo parecido e à medida em que foram ganhando dinheiro passaram a circular com caminhões. Eles me ensinaram a dirigir e acabaram tendo uma influência muito grande na minha vida, como a de despertar um sentimento de justiça. Um deles, se saísse pela cidade e visse uma cena de cinco homens batendo em um, descia do caminhão já soltando a porrada para defender o que apanhava. Outra coisa interessante é que eles eram trovadores. As trovas aconteciam aos sábados pela manhã, na casa da minha avó, cujas portas eram uma extensão da rua. Era muito divertido. As conversas, amenas no início da trova, iam esquentando conforme as pessoas bebiam. Começavam com curiosidades que tinham observado durante a semana e acabavam em umas encrencas de quem estava pegando quem, quem estava traindo quem, e às vezes dava confusão. Alguns narravam dramaticamente a cena e para minha ela tinha sido engraçadíssima, ou o contrário. Coisas que me faziam sofrer, eles contavam com um humor incrível — e isso é o que eu mais gostava. As outras pessoas também reagiam de maneira muito diferente de mim. Acho que esse é o princípio da reportagem. Tem mil maneiras de se contar uma história, depende do olhar e da sensibilidade de quem a vê.

A noção de desigualdade social e da violência apareceu cedo na sua vida, não?
Graças à Igreja Progressista do meu bairro, que ficava na frente de casa e tinha uns padres muito bacanas. Lembro que eu ficava muito indignado quando um dos meus tios apanhava da polícia sem motivo ou quando via a polícia subindo as ruas do meu bairro, que era um bairro de trabalhadores, de terra de chão batido e esgoto a céu aberto, como se todos fossem bandidos. E toda a garotada tinha que sair correndo. E por qual motivo? Achava que era uma perseguição a nós. Até que chegou a igreja e mostrou que aquilo não era “privilégio’’ nosso e me ensinou a interpretar a realidade: era assim em todas as ruas onde vivem trabalhadores de baixa renda. Um dia os padres propuseram que nos reuníssemos em grupo, convocássemos os pais, e em vez de esperar os delegados virem ao bairro que fôssemos até eles e disséssemos “O que foi? Qual é?”. Uma vez fomos num grupo grande e não deu outra. Quando chegamos para exigir respeito, os mesmos arrogantes que nos prendiam e nos hostilizavam afinaram e tremeram com medo de que fizéssemos algo. Os padres diziam “Vocês pagam o salário deles e eles tem que respeitar vocês!”. Foi uma grande descoberta, porque eu morria de medo e culpa e, então, entendi que eles estavam errados. Só que as coisas continuaram assim e violência foi se radicalizando. Mas aí eu já sabia interpretá-la, e tudo ficou mais fácil.
Em uma entrevista para a Revista Trip, em 2009, você retoma esse tema, que define como “preconceito de classe” por parte da polícia. Ele aumentou ao longo dos anos?
Continua tão forte como era e como sempre foi. E não é só entre a polícia. Também parte da sociedade mais conservadora, ou de pessoas desinformadas, que repetem pelas ruas aquele discurso dos coronéis de que “Bandido bom é bandido morto’’. Por que o discurso não se aplica quando o bandido é de alta renda? Digamos, alguém envolvido na Lava Jato? Ou o dono de uma empreiteira? Porque eles são de outra classe social. Nenhum desses caras que desviam 500 milhões foi torturado ou sofreu um arranhão, o que é ótimo, imagina, então, levar um tiro nas costas, como acontece três vezes por dia com os negros e pobres favelados do Rio de Janeiro. Em São Paulo já chegou a ser quatro mortes por dia, hoje é um pouco menos. Sempre trabalhador, pobre e suspeito, nem sequer uma prova de que poderia ser um criminoso. Acho que é um exemplo forte de que o preconceito de classe é muito forte. Quando eu escrevi o Rota 66, a polícia matava 1500 por ano na capital paulista. Hoje é por volta de 900. A polícia do Rio matou 8 mil pessoas nos últimos 10 anos. É gente pra caramba. Não tem polícia no mundo que cometa isso, e não tem um indivíduo de classe média entre os mortos. No Brasil, o pior de tudo é ser pobre, e, em segundo lugar, pobre e negro. E não o inverso. O negro rico dificilmente vai ser morto. Nosso querido Pelé, por exemplo, jamais deve ter sofrido sequer uma blitz.
Se houvesse um dia de mortes como acontece nas favelas em qualquer bairro habitado por pessoas mais bem situadas economicamente, você acha que existiria a polícia que está aí? Se fossem mortos três indivíduos de uma família poderosa essa polícia não existiria no dia seguinte. Nem o governador.
Imagino que nem seja preciso perguntar sobre o sistema prisional.
Pessoas erradas estão sendo presas. Não tem porque prender gente que é usuária de droga, por exemplo. É uma fobia americana que a gente absorveu de maneira estúpida. Se é para prender alguém que se altere por consumir alguma coisa que pegue quem também bebe cachaça e whisky. Por que uma pode e a outra não? Não vejo sentido. Novamente, nesse caso, também só vai para a cadeia se o usuário for pobre. A polícia nem sequer chega perto das festas dos ricos.
As pessoas hoje vivem com mais medo do que nos anos 70, quando você começou no jornalismo? Se sim, elas têm mais motivos para isso?
As duas coisas são verdadeiras. Pelo fato de as pessoas estarem muito mais bem informadas, elas sabem o risco que estão correndo em cada curva e, naturalmente, se espantam mais dado ao volume imenso de informação e da velocidade com que os acontecimentos chegam ao seus conhecimentos. Havia um tempo em que as pessoas esperavam o repórter chegar em um lugar para três meses depois saber como tinha sido o início da guerra. Hoje, antes do repórter ligar a câmera, todos já estão registrando a guerra e o susto é maior. Como o volume de informação sem filtro é muito grande, o susto das 9h da manhã às vezes se mostra não tão relevante às 9h10. As pessoas não são avisadas disso, porque não é possível acompanhar esse tanto de informação sem causar o impacto. O que diferencia o sensacionalismo do não sensacionalismo é a relevância. Se tem relevância, as pessoas precisam saber. Se não tem, nem deveriam. E, às vezes, a informação só tem o impacto negativo que é assustar para nada.

Com a evolução tecnológica e a dos meios de comunicação ficou mais fácil ou mais difícil encontrar a verdade dos fatos?
Muito mais fácil. Sobretudo porque não temos o poder de convencer as pessoas a falarem a verdade. Elas falam se confiarem em você. Antigamente, se eu fosse contar uma história de injustiça, chegava numa comunidade pobre gritando “Quem viu? Quem quer contar a história aí?”, e as pessoas apareciam e aos poucos começavam a contar. Hoje eu pergunto “Quem fotografou? Quem filmou?’’, e, além do depoimento, levo comigo a prova incontestável. Em uma fala cabem todas as verdades do mundo, mas também todas as mentiras. Se você é criterioso e responsável, tem que provar que cada palavra dita é verdadeira. Provar como? Com a tecnologia disponível que há.
Você já disse algumas vezes que se informar é o melhor meio de prevenir uma situação de perigo. Mas o quão perigoso é quando há uma crise de informação, como a que se tem em tempos de pós-verdade, e qual é a importância do ofício do repórter nesse contexto?
Sem dúvida há um crise de informação, de excesso de informação e de informações falsas, e muita gente absorve qualquer tipo de notícia sem questionar sua procedência e aceita opinião como se fosse verdade. Por mais paradoxal que possa parecer, acho que nunca o repórter foi tão necessário quanto hoje porque estamos longe dessa tendência a dar opinião, que virou modismo com o fácil acesso às plataformas de comunicação. Nossa função é justamente diferenciar verdade e opinião. E se a gente erra na nossa tarefa de apurar com rigor um acontecimento, muitos erros se multiplicam em cadeia. O primeiro que vai errar é o jornalista de opinião, que faz o jornalismo analítico — e está na moda, acho que 90% dos veículos são ocupados por jornalismo declaratório que acha que basta uma declaração para fazer uma notícia. Na sequência, vêm os sociólogos, que supostamente vão se basear nos acontecimentos narrados pelos repórteres para fazer o seu trabalho. Por fim, a história, que daqui a certo tempo vai levar em conta o que registramos no dia a dia.
Eu tenho um exemplo de um erro que acontece todo dia e ninguém dá a mínima, que é ao noticiarem o incêndio a ônibus. A notícia é dada assim: “Vândalos põe fogo em ônibus causando enorme prejuízo público para os trabalhadores que tanto precisam desse transporte”, com imagens mostrando o ônibus em chamas. No futuro, quando o historiador contar quais
foram os acontecimentos na cidade naquele período, dirá: “Havia um tempo em que bandidos armados e cruéis com os trabalhadores botavam fogo contra a iniciativa privada”. Isso é uma meia verdade. Se algum repórter fizesse a pergunta básica, “Por que botaram fogo no ônibus?”, e andasse alguns quarteirões adiante, encontraria o corpo de um negro pobre fuzilado pela
polícia. Ele entenderia que o ônibus foi incendiado para chamar a atenção para o corpo, porque a imprensa não aparece só por um pobre morto pela polícia. Agora volte para o historiador. Se todos os repórteres tivessem contado a história completa, ele a reproduziria assim: “Havia uma época em São Paulo que trabalhadores de baixa renda sob a suspeita de serem criminosos eram fuzilados pela polícia causando revolta nos seus familiares pela injustiça cometida e a revolta gerava o incêndio nos ônibus para chamar a atenção da imprensa’’. Olha a diferença de visão que a sociedade teria desses episódios: o que era vandalismo, se torna revolta. E uso o termo “vandalismo’’ para não usar troco à violência sofrida. Então, se isso não for contado direito, como não está sendo, a história vai ser narrada de outra maneira.
O repórter Geneton Moraes [1956–2016], seu colega de TV Globo, falava que “Fazer jornalismo é desconfiar sempre’’. Como funciona para você?
Sou ruim em desconfiar, a princípio confio em todo mundo. É uma coisa genuína minha e acho que me ajuda muito as pessoas acreditarem que eu estou acreditando nelas. Tenho a impressão que ajuda a abrir essa relação de confiança e as pessoas acabam naturalmente contando coisas de suas vidas. Dependendo do nível de formação da pessoa, eu costumo alertá-la, “Cuidado, eu sou repórter e vou tornar isso público’’. Quando passei anos no morro para escrever o Abusado, era muito comum as pessoas falarem de seus crimes como se estivessem contando uma história para a avó. E eu colocava um gravador entre eu e a pessoa justamente para ela entender que aquilo estava sendo gravado, mas para eles não significava nada. Se eu tivesse colocado um revólver, aí sim [risos]. Mas as pessoas virem falar de suas vidas para mim é comum até hoje. Eu ando muito de metrô e de trem e saio deles com várias histórias para contar.

Em um papo com o jornalista Hélio Campos Mello, diretor de redação da Revista Brasileiros e seu colega nos tempos da Revista IstoÉ, ele disse que você é um caso raro de jornalista que está “além do bem e do mal, seja o mal a direita ou a esquerda”. Concorda?
Não posso ser falso modesto. Recebo carinho para caramba por onde ando, mas também já levei porradas, sempre de minorias, e só não dancei mais feio porque a multidão me protegeu. Mas, na rua, sinto que as pessoas gostam de mim, em todos os segmentos e áreas. É um grande privilégio. Acho que talvez seja porque percebem que sou apaixonado pelo que eu faço e muito dedicado.
Como jornalista, respeito muito quem eu denuncio, e é raro eu denunciar. Costumo mostrar mais quem sofre algo injusto do que quem cometeu a injustiça, isso também faz com que eu não tenha tanto inimigo, né? As pessoas querem muito que contemos as histórias que elas sofrem, e quando tem que denunciar há um respeito radical com o acusado para não enganá-lo e para dar a chance e todo tempo do mundo dele se defender. Então, até o acusado na história não fica com raiva. No fundo as pessoas sabem quando pisam na bola. Mesmo que elas se ferrem com uma divulgação sua, se um dia acontecer algo de errado contra a família delas, elas pensarão em você para contar a história, porque sabem que foi correto. Às vezes, sinto isso até com a polícia, sabia? No primeiro momento eles se incomodam muito, preferem o jornalista puxa-saco ali. Mas quando passa o tempo, se tem uma situação que exige rigor, ele chama você, mesmo que não goste. A postura, afinal, é a mesma seja com quem for, né? Isso me ajuda até a não sofrer represália e perseguição. Eu falo muito para os mais jovens tomarem cuidado com as pessoas que acusam. Não tenham pressa. De preferência, só denunciem em último caso. É ruim acusar os outros, né? Defender é melhor.
Recentemente, você protagonizou cenas raras ao ser hostilizado nas manifestações de junho de 2013, contra o aumento da tarifa dos ônibus, e no protesto dos servidores públicos do Rio de Janeiro, no final de 2016. Como absorveu essas agressões?
No protesto do ano passado, eu já tinha trabalhado umas 10 horas com todo mundo me puxando para mostrar algo, os médicos de um lado, os bombeiros do outro, além dos servidores da justiça. Eu estava fazendo aquilo que temos obrigação de fazer, cobrindo a manifestação na boa, e volta e meia vinha um querendo botar a mão na câmera enquanto alguém dava entrevista. Aí o próprio entrevistado ou os amigos dele tiravam quem tentava impedir a gravação. Sem dúvida, a imensa maioria queria a imprensa divulgando. Mas acho que me excedi um pouco, porque fiquei muito tempo ali. Quando a polícia começa a jogar bomba, sobretudo de gás pimenta, quem não está acostumado com a rua sai correndo e só para dentro de casa tomado pelo pânico. Mas os mais descolados, sobretudo a esquerda que está há mais tempo na rua e os mais militantes mesmo, não vão embora com a primeira bomba. Então, naquele momento da manifestação, além desses grupos, havia também profissionais da segurança pública, PMs, bombeiros, carcereiros, policial civil e me pegaram por trás, sem me dar chance de defesa. Normalmente, quando isso acontece, eu vou para cima e não saio, porque se você sai eles acham que se sentiu culpado. Mas aí veio um grupo e me tirou dali para me defender e, claro, salvar minha vida, mas despertou mais agressão e deu coragem para quem tava agredindo. Na verdade, eu já espero essa reação, até porque em uma multidão, ainda mais num país que está vivendo uma radical polarização, o contraditório está em cada esquina, em cada atitude. Mas faz parte do ofício. Acho que você tem o dever de ir para o front.
Já em 2013 foram outras porradas que levei, as primeiras. Eu estava com chance de dialogar e falava “Ei, qual é a sua, cara? Primeiro, te pergunto: você é de extrema direita? A gente está acostumado a apanhar da extrema direita. Isso porque na ditadura a extrema direita não só batia, como torturava e matava e nem por isso deixamos de trabalhar. Tem colegas que morreram com toda repressão e faziam seu trabalho. Então, você tem que me matar, porque eu não vou sair daqui. Você vai me matar?”, eu tentava conversar dessa maneira quando permitiam. Outra coisa que dizia para muitos deles era “Vem cá, cara, faça melhor que eu o meu trabalho. Por que você não quer deixar eu fazer o meu trabalho? Você é livre, tem as redes sociais, as plataformas, faça melhor”. Sempre gostei de ver o povo na rua, mas não batendo em mim [risos]. Nem batendo em ninguém. Sou um defensor das ideias, não dos músculos.

Alguma vez você achou, de fato, que fosse morrer durante uma reportagem?
Nessas manifestações, quando tem alguém te chutando, se você cai… eu não posso cair. Toda multidão quando perde o controle é sempre um perigo. Já aconteceu em estádio de futebol, num Flamengo x Fluminense, a polícia batendo e o movimento da massa quase me prensou na barra de ferro com o meu filho Ian, na época uma criança. Na Guerra na Nicarágua, fique na mira de franco atirador. Você se arrastando em silêncio de repente, pow, sai uma lasca do muro, e não tem como saber onde está esse cara. E, também, em tiroteio no morro, de onde está vindo o tiro? Fora as rebeliões em cadeias.
Voltando rapidamente às manifestações recentes, você acha que de alguma forma elas mudaram o DNA do povo brasileiro, conhecido por uma relativa passividade quando o assunto é política?
Me impressiona até hoje saber que a gente não acabou com a escravidão e o seu fim partiu de um ato de quem não sofria com ela. No Brasil nunca houve um rompimento radical das coisas essenciais, sempre foi passivamente que as coisas se decidiram. Agora que a denúncia de corrupção chega a outras esferas, não tem a mesma reação. Ninguém vai para a rua, com um milhão de pessoas, para falar dos que estão sendo acusados agora, que fazem parte do sistema mais tradicional e economicamente poderoso, das pessoas influentes. São os intocáveis. Quando envolveu gente não tão tradicionalmente poderosa, todo mundo estava indignado na rua, não vejo a mesma reação agora que o nosso presidente atual vem sendo atacado. Não sei dizer porque o brasileiro é assim.
Que reportagens suas você considera mais marcantes?
A que deu origem ao livro Rota 66, sem dúvida, é uma delas. Outra é quando cobri o acidente nuclear de Three Mile Island nos Estados Unidos, em 1979, e dirigi na contramão do fluxo rumo ao epicentro do desastre. E a guerra na Angola, na qual morriam 500 crianças por dia devido ao conflito e à subnutrição. Minha equipe conseguiu acesso ao front mais violento da guerra graças à confiança que conquistamos dos Médicos Sem Fronteiras e acompanhamos o trabalho deles. Na televisão não dá para mostrar 500 casos em um dia, a gente vê muita coisa e conta meia dúzia de histórias que sintetize o contexto. Nesse caso, eu via crianças subnutridas e os médicos apontavam para elas no chão e falavam “Essas estão condenadas”. E não há o que fazer! E elas, com o fiozinho de energia que tinham, querendo brincar com a gente, estavam lá, ainda crianças. E nós com aquela sensação de impotência, é muito difícil absorver. Fiquei um ano inteiro mal, com dificuldade para dormir.
Que grupo seria a Rota dos dias de hoje e que traficante seria o Marcinho VP, sobre os quais valeriam novos livros?
A Rota de hoje seriam várias unidades de elite do Rio de Janeiro. Virou uma praga nacional, vários estados brasileiros tem, como Bahia, Goiás. Basta ver onde acontecem execuções e um número muito grande de mortes de civis enquanto do outro lado não há nenhuma morte. Tomara que outros autores escrevam porque isso tem que ser escrito todo dia. Já o novo Abusado é difícil dizer, mas como o livro foi feito numa comunidade e hoje as pessoas têm mais condição de escrever e de registrar do que tinham no passado, os moradores da comunidade deveriam fazê-lo. Seria um livro muito melhor do que o meu. Nesses últimos anos, houve uma grande transformação. Muita gente está mais informada e com acesso às universidades via Fies [Financiamento Estudantil], mesmo o Bolsa Família levou muita gente pobre para as escolas. O próprio rap não deixa de ser um registro da realidade dessas comunidades, um outro tipo de mídia, mas está fazendo algo tão importante quanto um livro.

Em uma entrevista ao ator e diretor Antônio Abujamra em 2011, você diz que vai ao cinema para chorar. A realidade que encara no dia a dia não basta para te comover?
É a dificuldade de chorar que me leva ao cinema. Eu fico sempre muito emocionado no trabalho, mas não choro. Não sei se por algum tipo de opressão, autocontrole ou vergonha, coisa de gaúcho xucro. No cinema, apagam a luz eu começo a chorar. Tem um filme chamado Midnight Cowboy [Perdidos na noite] que assisti mais de 30 vezes. Esse eu começava chorando e acabava chorando. Se não tem futebol, vou desabafar no cinema.
E esse futebol continua? Ouvi falar que você escapou da maternidade no dia do nascimento de um de seus filhos para bater uma bolinha.
A torcida não me deixa parar [risos]. Jogo futebol de campo até duas vezes por semana, como falso ponta esquerda. Eu acompanhei o nascimento dos meus três filhos [Ian, 40, Iuri, 26, e Alice, 19]. Acontece que no dia do nascimento do Iuri tinha um jogo super legal. O parto foi cedo, às 11h, e o jogo era às 18h. Às 17h minha mulher me pediu pra buscar algo em casa e eu disse “Lóooogico’’ [risos]. No caminho, fui jogar, fiz dois gols em homenagem ao meu filho e voltei. Só contei para ela meses depois.
Como você encara o envelhecer?
Quem disse que eu estou envelhecendo [risos]? Sinto a idade que tenho, mas imaginei que fosse senti-la muito mais. Quem me ensinou a interpretar o que sinto foi o Chico Anysio, com um depoimento que deu. O que eu sinto é pena de deixar o mundo que está aí, deixar as pessoas que eu curto, os acontecimentos e essa coisa de todo dia conhecer gente nova. Aaah, eu vou sentir uma inveja de quem ficar [risos]! E nem é tanto medo de morrer, assim, até tenho, mas é saber que vai tudo isso vai acabar. Quando eu sei que está perto, começo a ficar meio mal. Sempre acho que alguém ainda vai inventar a vida eterna.
O que falta fazer, em qualquer esfera?
Vou dizer uma coisa que não é nada original, mas é muito verdadeira: a matéria de amanhã. Todo dia.
