Carta-testamento de Heitor Loureiro

Heitor Loureiro
Oct 31, 2017 · 8 min read

Se você está lendo essa carta é porque eu estou morto. Ou talvez ainda não. Mas é questão de tempo. “É a única certeza que temos na vida”, dizem alguns. “Para morrer, basta estar vivo”, dizem outros. Mas eu não era um doente terminal. Não estava no leito de morte, esperando o inevitável, enquanto escrevia essas linhas. Eu era uma pessoa normal, por volta dos 30 anos, saudável, praticante de esportes, não fumava e bebia com menos frequência que eu gostaria. Passei por um câncer quando era criança e essas coisas não me assustavam. A minha causa mortis foi o trânsito.

Morri enquanto pedalava. Morri enquanto me deslocava na cidade de São Paulo com a minha bicicleta. Acidente de trânsito? Não, não foi acidente… Fui vítima de um motorista imprudente, irresponsável e violento. Foi crime. Assassinato. Doloso. Como aconteceu? Não sei muito bem. Foi tudo muito rápido. Só senti o impacto das toneladas de metal e vidro contra os meus 65 kg de carne e osso.

Se eu pudesse apostar meu descanso eterno, eu diria que o motorista (ou a motorista, ainda que seja menos provável) estava embriagado. Afinal de contas, ele sempre bebeu e dirigiu e nunca aconteceu nada. Ele tem total condições de assumir o volante. Sabe perfeitamente o caminho de casa. Conhece seu carro como ninguém… Uns choppinhos não fazem diferença alguma… A caipirinha estava fraquinha… ele dirige melhor bêbado do que sóbrio!

Ou quem sabe não foi um condutor que usava o celular enquanto dirigia? A ansiedade de checar o whatsapp ou as stories do instagram, ou até mesmo aquela entrada no waze que ele não previu e daí tudo que lhe restou fazer foi dar uma guinada forte para a direita para não perder a rua. Afinal, o que é a vida de um ciclista perto da urgência em responder uma mensagem ou de ter que andar alguns metros a mais para refazer uma rota perdida? “Aquela mensagem era uma questão de vida ou morte”, pensaria o motorista. “Vida para ele, morte para mim”, diria eu, se estivesse vivo para contar a história.

Mas eu não me espantaria se o meu algoz tiver sido um motorista sóbrio, focado, cidadão de bem, que só quis mostrar para mim que a rua é de quem paga IPVA, de quem venceu na vida, de quem tem um carro potente para acelerar em São Paulo, em ruas onde ele sabe que estão livres de radares ou fiscalização (obrigado waze!). Aí ele resolveu tirar uma “fina educativa”, mostrar quem está no topo da cadeia alimentar do trânsito. Resolveu passar com suas duas toneladas de metal a poucos centímetros do meu ombro. Manobra friamente calculada, pensou. Afinal, ele dirige desde os 12, com o pai no banco do carona. Aos 16, ficou de castigo por um final de semana quando pegou o carro da família sem autorização para dar um rolê com os amigos (o castigo, importante dizer, não foi por pegar o carro, mas por ter arranhado o veículo ao tentar colocá-lo de volta na garagem, de madrugada, bêbado). Aos 18, ele ganhou um carro dos pais, prêmio por ter entrado na faculdade. Esse ás do volante, esse filho perfeito de uma família exemplar (ou, quem sabe, já nessa altura, ele mesmo não fosse um pai de família?) resolveu mostrar para mim, um derrotado que pedala, que transpira, que eu não tinha o direito de atrasá-lo por dois segundos sequer e jogou seu carro contra mim. Obviamente ele não queria me acertar. E estragar a pintura de seu carro comigo? O ódio que ele tinha de mim não era maior do que o amor que ele sente por sua máquina de destruição em massa. O fato é que no exato momento que ele quis exercer seu papel de educador das ruas, eu tive que desviar de um bueiro sem tampa, perto da guia. Ou de um dos muitos buracos do pavimento. Ou de vidro estilhaçado de algum para-brisa de um acidente anterior naquele mesmo trecho. Vai saber… Precisei, quem sabe, mudar minha trajetória em 20 cm, o suficiente para ser acertado em cheio pelo piloto. “Uma tragédia!” diriam muitos aos meus amigos e familiares durante meu enterro. Tragédia evitável, se o motorista estivesse mantendo de mim o 1,5m de distância que o Código de Trânsito Brasileiro determina. Se o “mais forte” estivesse cuidado do “mais frágil”, como prega a máxima da convivência no trânsito. Pena que ele não conhecia nada disso. Sua habilitação possivelmente foi adquirida honestamente por um preço camarada nas mãos de uma autoescola que tinha um contato com o despachante que conhecia alguém no Detran.

Talvez os médicos tenham declarado minha morte cerebral, o que é bom! Doem meus órgãos! Meu coração estava em bom estado, pelo menos. Num mundo cada vez mais sedentário e doente, eu era considerado um “atleta”. Numa sociedade cada vez mais depressiva e solitária, eu amava minha companheira, minha família e meu trabalho. Ah, se você não me conhecia, muito prazer, meu nome é Heitor e eu era professor de História. Deixo família, amigos e centenas de estudantes. “Mas como assim morte cerebral? Ele não usava capacete?”, podem perguntar alguns, a boca pequena, no meu velório. Eu usava capacete, luzes, tinha um equipamento de qualidade razoável… Mas não fez a menor diferença contra aquela montanha de aço em alta velocidade. Se você não percebeu até agora, eu fui a vítima! Pare de pensar no que eu fiz de errado e entenda de uma vez por todas que eu morri enquanto exercia meu direito de ir e vir com o veículo que eu escolhi, pelas vias que eu tinha legitimidade para utilizar. Meu único crime foi não me render ao deus-motor e a minha pena foi a capital.

Em um dos meus primeiros dias como professor de escola pública, um aluno de 12 ou 13 anos me disse, quando descobriu que eu não tinha carro: “Tenha fé, professor! Deus vai te ajudar e você vai ter um carro!”. Esbocei um sorriso amarelo como resposta. Se eu tivesse ouvido essa frase em outro contexto social, eu teria respondido: “você tem um minutinho para ouvir a palavra da Nossa Senhora da Carrocracia?”. Mas ali isso não fazia sentido. Para um jovem da periferia, o auge do sucesso é ter um carro ou uma moto importada, como seus ídolos do futebol, da música ou do tráfico. Basta observar os vídeos que assistem nos celulares, as músicas que ouvem ou simplesmente conversar com eles. O automóvel é o ápice da conquista em uma vida sofrida e com centenas de revezes, um pingo de dignidade conquistada em um cotidiano repleto de humilhações. “Que Deus te ajude para que você tenha condições de ter um carro e opte por não ter”, eu deveria ter respondido, sabendo eu que morar perto do trabalho é uma realidade de poucos e que poder usufruir da estrutura de mobilidade urbana (metrô, trem, terminais de ônibus e ciclovias) da cidade ainda é exclusividade dos moradores de bairros mais centrais. “O metrô fica pronto no final deste ano”, mente anualmente o governo do estado. “Vai ter ciclovia na Paulista e na periferia”, grita o cicloativismo na bicicletada/massa crítica mensal. Mas enquanto não tiver nem uma coisa nem outra, exigir que o trabalhador abandone seu carro soa elitismo de uma classe média tacanha que chegou em um determinado patamar e quer chutar a escada para que ninguém mais suba aquele degrau social.

Pouco tempo antes de “vir a óbito”, como disse o Corpo dos Bombeiros no twitter, que noticiou meu falecimento em tempo real, pedalei com dezenas de amigos desde a Paulista até a Avenida Nossa Senhora de Sabará, na zona sul, onde dois jovens de 17 anos foram assassinados por um motorista, enquanto voltavam da escola de bicicleta. Deixamos uma ghost bike lá, pregada no poste, pintada de branco e cravada de flores. Na mesma semana, Raul morreu em Brasília, também assassinado. Na volta de seu funeral, alguns de seus amigos sofreram uma tentativa de homicídio por parte de um motorista, que chegou a sair do carro com uma faca para tentar fazer o que as quatro rodas não conseguiram. Sobreviveram, por sorte. Raul era Bike Anjo, voluntário no ensinar pessoas a pedalar. Poderia ter sido eu. Seus amigos poderiam ser meus amigos. Os meninos da zona sul (ambos chamavam-se Vitor) eram estudantes, poderiam ser meus alunos. Mas nada disso era sobre mim. Eu ainda tinha alguns dias a mais sobre a Terra.

Pedalei naquele final de semana com medo. Cada carro que me ultrapassava era como se fosse um disparo de uma arma em uma roleta russa. “Ainda não foi a minha vez, mas o próximo vai me matar”, pensava. Sobrevivi. Outros tantos, não. Toda vez que eu checava as redes sociais, lia alguma história macabra de algum companheiro que ousou sair do ponto A para o ponto B usando a forma mais rápida, saudável, econômica e sustentável que existe e sofreu uma experiência horripilante. De qualquer forma, usar a bicicleta é um ato político, uma escolha. Eu poderia ter escolhido não usá-la e me locomover de outras formas. Assim, eu evitaria a sensação de andar com um alvo pregado nas costas, prestes a ser acertado por um míssil. Mas por que eu abriria mão de algo que eu gostava, de algo que eu tinha direito de fazer, por conta do mau comportamento dos outros? Sempre pensei em todas as pessoas que tinham alvos nas costas e sequer tinham a chance de desistir de ser quem eram… jovens negros alvejados aos milhões todos os anos… mulheres assediadas diariamente em cada metro quadrado deste país. Desistir não era uma opção.

Morri fazendo algo que eu gostava e acreditava. “Escolha o que você gosta e deixe que isso te mate. Tudo vai te matar, melhor morrer de amor”, já diria a canção. Assim foi. Não chore mãe, nos braços do meu pai, enquanto você repete “eu avisei pra ele que era perigoso!”. Eu sempre fui um camarada cuidadoso e responsável, apesar de você não acreditar muito nisso quando eu era mais novo. Não chore, Nica, minha irmãzinha, e não ache que a bicicleta vai te matar também. Bicicletas não matam ninguém. Carros também não. São máquinas. O que mata o ser humano é o ser humano, não por sobrevivência, mas por ignorância. Pedale como uma menina! Quem sabe você conseguirá fazer a mudança no mundo que eu não consegui fazer. Não chore Tati, kyanqs (“minha vida”, em armênio, como eu sempre te chamei.. o que soa meio irônico agora que eu estou morto) e não tenha raiva do mundo, nem do assassino que me arrancou de perto de você. Você sempre viu o melhor de tudo e de todos e viver com ódio e amargura não combinam contigo. A tristeza não te cai bem. Não encoste sua bicicleta num canto da garagem, com medo. Ela nos deu tantas alegrias nos últimos anos e sabe-se lá quantas mais nos daria, se a gente pudesse ter feito aquela cicloviagem que a gente tanto pensou em fazer e não conseguiu… Ocupe a rua, convença as pessoas com a sua doçura e gentileza que a convivência pacífica no trânsito (e no mundo) é possível e dê a minha bicicleta a quem precisa. Eu gostava muito de pedalar para deixar que ela fique enferrujando no bicicletário do prédio.

Se você está lendo essa carta é porque eu estou morto. Ou talvez ainda não. Mas é questão de tempo. Não sei quanto. Enquanto espero meu dia chegar, eu estarei em cima de uma bicicleta, pedalando por aí…

Outubro de 2017

Heitor de Andrade Carvalho Loureiro ( ⋆1988 ✞ 20??)

Ciclista e professor

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