O cafarnaúm libanês

Heitor Loureiro
Oct 20, 2019 · 5 min read

com Zeina Ezzeddine

Grandes protestos tomaram as ruas das principais cidades libanesas na última quinta-feira, dia 17. Originalmente motivados pelo anúncio de medidas de austeridade econômica que envolveriam novas tributações — incluindo uma taxa diária de 0,20 por ligações feitas por meio de aplicativos como o whatsapp e o facetime — os manifestantes foram às ruas de Beirute, Tripoli e vários territórios libaneses pedindo o fim da corrupção e a renúncia do governo. Os protestos se intensificaram após a reação violenta da polícia na tentativa de liberar ruas ocupadas e conter os manifestantes. Alguns grupos seguiam ministros de Estado para pressioná-los quando foram surpreendidos por tiros disparados pelos guarda-costas dos políticos. A resposta das ruas foi ampliar os atos, forçando o Primeiro Ministro Saad Hariri a pedir 72h para apresentar um plano em resposta à insatisfação popular. O prazo acaba na segunda-feira, 21, mas nada indica que será o suficiente para dissipar os descontentes.

O Líbano é um pequeno país, mas que possui um dos mais complexos sistemas políticos do mundo. Por definição, o primeiro ministro deve ser um muçulmano sunita, o presidente do parlamento deve ser um xiita, enquanto o presidente da república um cristão maronita. Hoje, esses cargos são ocupados por Saad Hariri (desde 2016, filho do ex-premier Rafic Hariri), Nabih Berri (desde 1992) e Michel Aoun (desde 2016), respectivamente. Ao mesmo tempo em que o sistema cria certa estabilidade ao complexo país do Levante, ele enseja a formação de oligarquias que se alongam no poder. É justamente contra elas que se volta a ira popular.

A situação libanesa não é simples. Além de todos os traumas e feridas causados por 25 anos de guerra civil (1975–1990), a infraestrutura do país é precária. São comuns os diários apagões, falta de água, eletricidade e problemas com a coleta de lixo. Investimentos em saúde e educação também estão muito aquém da necessidade dos seis milhões de habitantes deste país diminuto territorialmente, cujos seus dois vizinhos (Israel ao Sul e Síria ao Norte e ao Leste) são ameaças. Denúncias e suspeitas de corrupção se acumulam ao longo dos anos, esgotando a paciência dos libaneses e fazendo com que mesmo aqueles que não tem o costume de pressionar publicamente suas lideranças — como os xiitas, base de apoio do Hezbollah, que compõe o governo de Hariri — tenham saído às ruas pedindo a dissolução do governo. A geopolítica não ajuda. Hariri é saudita de nascimento e foi muitas vezes acusado de estar alinhado aos interesses de Riad, enquanto o Hezbollah é próximo à Teerã e Damasco, representa a comunidade xiita libanesa (junto com o Movimento Amal) e é parte do governo Hariri.

Cartoon destaca o caráter multirreligioso das manifestações no Líbano

A economia não vai nada bem. A previsão é que o PIB do Líbano encolha esse ano e o país entre em recessão com um crescimento negativo de 0,2%. A dívida pública alcançará, no final de 2019, um total de 155% do PIB, de acordo com projeção do FMI. O Líbano está entre um dos países mais desiguais do planeta, com uma concentração de renda violentíssima que, juntamente com a sensação generalizada de corrupção do estamento político, aumenta a percepção popular de que a vida não melhora porque há pouquíssimos ganhando muito e o pior: alguns deles roubando do povo.

Mesmo após revogadas algumas das medidas de austeridade anunciadas pelo governo, o povo continua nas ruas da capital e de Trípoli (reduto de Hariri) e não tem intenção de sair até que o governo renuncie. O sentimento que a situação do povo é ruim por conta da corrupção está difundido na sociedade libanesa.

Para os brasileiros, isso pode soar como um filme reprisado. A população que foi às ruas protestar contra o aumento de um serviço essencial agora diz “não é só pelos vinte centavos” que eles estão lá. Em manifestações que ganharam cores, música e alegria, a juventude se reúne diariamente nas praças e ruas das cidades libanesas, levantando seus cartazes e exibindo suas demandas, que incluem o “fim da corrupção” e uma grande dose de uma angústia geracional de jovens que envelhecem sem ver uma perspectiva de melhora na situação político-social de seu país. Não parece que o governo irá ceder mais do que já cedeu e a renúncia está, por ora, fora de cogitação. Hariri descartou a possibilidade e o líder do Hezbollah Sayyed Hassan Nasrallah também é contra. Mas a paciência do povo libanês parece ter chegado ao fim e, contando com a força de sua numerosa comunidade vivendo no exterior, muitos protestos aconteceram no domingo, 20, em apoio às demandas dos manifestantes no Líbano, inclusive em São Paulo.

Apesar dos muitos interesses domésticos e internacionais envolvidos, as manifestações têm tons orgânicos e nenhum grupo ou pessoa apareceu, até o momento, com a pretensão de liderar os movimentos ou catalisar o sentimento popular. Alguns dirão que a primavera árabe chegou, enfim, ao país dos cedros. Outros dirão que o “gigante acordou” (não pelo seu tamanho, certamente, mas pela sua história) após anos de corrupção e más escolhas por parte de sua classe política. O risco para o Líbano é que a sua primavera acabe no inverno egípcio ou o despertar do gigante seja o prenúncio de uma queda vertiginosa em um precipício de violência e autoritarismo onde já estão Brasil e Turquia. O Cafarnaúm (caos) libanês leva o seu povo a uma encruzilhada. Dali, para citar outro filme da excelente cineasta local Nadine Labaki, a pergunta que surge é: “e agora, aonde vamos?”

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Heitor Loureiro

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Ciclista e professor

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