Os usos políticos dos genocídios

Heitor Loureiro
Dec 18, 2019 · 3 min read

Originalmente publicado em MundoRI

Tipificado como crime por uma convenção aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948, o termo genocídio –inventado poucos anos antes por Raphael Lemkin — rapidamente se espalhou pelo mundo. Diversos grupos reivindicaram para seus casos de massacres o epíteto de genocídio, de forma a angariar atenção mundial para extermínios que aconteceram antes ou durante o Holocausto, caso paradigmático no século XX. Um desses grupos eram os armênios.

Originários da Ásia Menor e Cáucaso, os armênios viveram séculos entre os impérios russo, persa e, principalmente, otomano. Nesse último, turcos, armênios e outros povos viveram em relativa paz até o fim do século XIX, quando a acentuada crise otomana ensejou nacionalismos chauvinistas, culminando na revolução dos chamados “Jovens Turcos” em 1908 e a posterior entrada do Império Otomano na Grande Guerra. A deflagração do conflito mundial era a chance que o governo otomano esperava para lançar um plano de extermínio da sua população armênia, a fim de homogeneizar sua população e impedir qualquer tipo de aspiração nacional por parte dos armênios cristãos concentrados na porção oriental do país. Estima-se que cerca de um milhão de armênios morreram no que depois viria a ser conhecido como o genocídio armênio.

A República da Turquia, proclamada em 1923, negou desde a primeira hora o massacre sistemático dos armênios. Herdeira do Império Otomano, a Turquia consolidou-se como nação a partir de experiências de exclusão de diversos povos da Anatólia. Os armênios que sobreviveram à tentativa de extermínio se refugiaram no que seria a Armênia Soviética e no que hoje chamamos de Oriente Médio, antes de se dirigirem à Europa e América, formando a diáspora armênia.

A diáspora pressiona desde os anos 1950 para que a Turquia reconheça o massacre de armênios iniciado em 1915 como um genocídio, aos moldes do que define a Convenção da ONU. Diante da negativa turca, sempre com o amparo ocidental por ser a Turquia membro da Otan e, portanto, um aliado importante na contenção da URSS, armênios da diáspora pressionam para que seus países reconheçam o genocídio, fechando, assim, o cerco sobre Ancara. Atualmente, o genocídio é reconhecido em cerca de 30 países.

No dia 29 de outubro, a Casa dos Representantes dos EUA aprovou uma resolução que reconhece o genocídio armênio. Apesar de 49 dos 50 estados norte-americanos reconhecerem e algumas resoluções já terem passado em comissões do Legislativo norte-americano anteriormente, nenhuma tinha a força e o impacto desta aprovada em outubro. Contudo, a vitória maior aconteceria algumas semanas depois: no dia 12 de dezembro, os senadores rivais Bob Menendez (Democratas) e Ted Cruz (Republicano, porém adversário de Trump) somaram forças para aprovação unânime no Senado de resolução semelhante àquela aprovada na câmara baixa, provocando assim o reconhecimento do genocídio pela totalidade do Congresso norte-americano.

Os EUA usam o genocídio armênio como ferramenta política. Instrumentalizam esse acontecimento histórico e de memória sensível para ambos os lados para repreender o presidente turco Recep Tayyip Erdogan pela atual invasão da Síria, em uma situação em grande parte provocada pelos próprios norte-americanos com a decisão de Donald Trump em retirar as tropas dos EUA do norte da Síria, abrindo caminho para uma ação violenta de Erdogan contra os curdos sírios.

Os armênios estão, por sua vez, divididos sobre a ação do Congresso norte-americano. Enquanto alguns veem na ação um passo importante para ter algum tipo de justiça para com os seus antepassados, outros veem a atitude como uma instrumentalização das vítimas e da tragédia no tabuleiro da política internacional. Embora assessores de Trump tenham deixado sobre a mesa do presidente a opção do reconhecimento executivo do genocídio, para impor a Erdogan uma importante derrota no campo diplomático, o presidente organizou uma ação no Senado — onde os Republicanos têm maioria — para barrar qualquer tipo de resolução semelhante na câmara alta dos EUA, diminuindo, assim, a tensão com a Turquia. Sem sucesso.

Temos, portanto, uma questão de memória, justiça e direitos humanos sendo usada como ferramenta do grande jogo de xadrez da política internacional. No fundo, o que menos importa é a memória dos mortos no genocídio ou alguma eventual reparação que a República da Armênia possa reivindicar, mas como constranger a Turquia por agir fora da determinação dos EUA.

    Heitor Loureiro

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    Ciclista e professor