Quem liga para os curdos? A ofensiva turca sobre Rojava

Heitor Loureiro
Oct 10 · 4 min read

A retirada de forças americanas do norte da Síria anunciada no último domingo (06/10) deixou os grupos curdos locais vulneráveis a uma ofensiva há muito planejada por Recep Tayyip Erdoğan a fim de debelar as forças curdas de perto de suas fronteiras e, no limite, por fim a experiência de Rojava.

Conforme esperado por todos e com a aquiescência de Trump e Putin, a Turquia — com a ajuda em solo de rebeldes sírios que se autointitulam “exército nacional” — iniciou bombardeios em uma área que se estende entre as cidades de Tell Abyad e Ras al-Ain, essa última que foi tomada do Estado Islâmico pelos curdos do YPG. A expectativa turca, especulam alguns, seria tomar a cidade de Kobani — cidade a poucos quilômetros da fronteira sírio-turca, controlada pelos curdos e avançar cerca de 30 km até a rodovia M4, importante artéria latitudinal no norte da Síria, pondo termo à autonomia curda na região.

Edited: adicionei esse mapa alguns dias depois da publicação do texto. Retirado do post: https://www.linkedin.com/pulse/trump-turkey-kurds-study-perfidy-rick-francona/

Erdoğan alega que há uma ameaça às suas fronteiras se a situação no norte da Síria permanecer como está. Ademais, ele utiliza-se dos milhões de refugiados sírios que estão na Turquia para dizer que caso a área-alvo seja liberada, os sírios poderiam voltar ao seu país, aliviando a pressão que ele mesmo sente em seu território e que já repercute em derrotas eleitorais nas principais cidades turcas. Enquanto isso, Trump — com uma grande dose de fanfarronice — ameaça a economia turca caso Erdoğan passe dos limites nos ataques e os emissários do Kremlin não pretendem interferir na questão e respeitam o direito de seu aliado euroasiático de se defender, utilizando, inclusive, o recém-adquirido sistema russo de mísseis S-400.

A questão é que a autonomia curda não interessa a ninguém. Não interessa à Turquia, que teme uma região autônoma curda na Síria se juntando ao Curdistão iraquiano, o que poderia dar novo gás aos curdos na Turquia. Rojava é também uma pedra no sapato de Putin, que tenta a todo custo manter a integridade territorial síria e não prejudicar o frágil equilíbrio de poder entre as potências regionais e os seus próprios interesses naquela área do globo. Trump, por sua vez, afaga Erdoğan — não é demais lembrar que a Turquia é membro da OTAN, cujo secretário-geral afirmou que as preocupações de Ancara com a sua segurança são “legítimas” — buscando trazê-lo para mais perto de si; agrada seu público doméstico ao dar um recado de que tropas norte-americanas estão saindo de uma região problemática — ainda que permaneçam na Síria — e não entra em rota de colisão com o Kremlin; além de prevenir uma possível — apesar de pouco provável — união dos curdos iraquianos e sírios e a fragmentação do vizinho mesopotâmico cujo governo em Bagdá é outra bola de fogo no ar no arriscado malabarismo norte-americano.

Os que mostram apreensão com a ofensiva turca, o fazem com receio de que os ataques ensejem um ressurgimento do Estado Islâmico, organização que os curdos foram parte fundamental na sua derrocada. O fantasma do ISIS é mais merecedor de preocupação do que a vida de milhares de curdos.

Erdoğan ganha com a ofensiva, enquanto Putin e Trump, ao menos, não perdem. Quem perde mesmo nessa sequência de jogadas feitas no Oriente Médio são, mais uma vez, os curdos.

É fácil encontrar curdos no interior da Turquia que fazem mea-culpa sobre outro momento da história no qual eles foram instrumentalizados por forças mais poderosas e, em seguida, preteridos: a I Guerra Mundial. Na ocasião, grupos curdos foram utilizados pelo governo otomano para executar o genocídio dos armênios. Há alguns anos, um amigo armênio ouviu um pedido de desculpa de uma liderança curda, acompanhada da seguinte provocação: “vocês foram o café da manhã da Turquia, nós somos o almoço”. A mesa está posta.

Para saber mais:

Heitor Loureiro

Written by

Ciclista e professor

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade