As multidões de mim.

E os subsistemas das camadas da cebola.


Acordo um sambinha e durmo meio blues.

Um pouco depois do derradeiro piar do último bem-te-vi e, um pouco antes da metade da rota maçante dessa bola, tento expulsar o sono dos meus ossos. Bem simples, tem dias que é fácil esticar as pernas pra fora da cama, mas, olha, como é difícil quando os olhos estão um pouquinho mais pesados.

Até pensar nos ladrilhos frios do banheiro é complicado. E por mais que eu esteja implorando pra levantar e fechar a brecha da janela que joga um raio de luz massivo no meu rosto, há algo dentro de mim que se opõe a qualquer movimento, me puxa as pálpebras como persianas.

Depois duma árdua batalha, ambos saem perdendo, há um outro eu sentado à mesa da sala que já está sentindo o cheiro dos grãos do café. Com o olhar, devora a manteiga no pão fresco. Ah, tão tentador quanto consegue ser, esse eu é apagado da existência pela urgência que alguém, ou melhor, eu mesmo, tenho de desligar o alarme do celular. Som infernal!

Por fim, ignoro todos os ‘eus’ e sigo os instintos que me carregam pelos braços e puxam meus pés até o meu merecido trono. Ora essa, onde está o ‘eu’ responsável por mim? Imbecil, fica criando poesias e fantasias e se esquece das limitações da carne! Sempre eu, sempre eu.


Simplesmente como a crisálida e a larva.

Os dias e dias que convivo com vários ‘eus’ são um inferno. Se não sei nem quem é aquele no reflexo do espelho, quem dirá o que jaz por trás da íris escura que me observa!?

É ridículo, é infame e baixo, além de ter as feições estranhas. Mas é a minha crisálida. O eu que vive o toque frio das mãos alheias, dos olhares pesados dos outros e sente a dor das terminações nervosas.

É aquele que sente inveja dos outros. Outros que aprisiona dentro de si — ou de mim, como seja. Aqueles ‘eus’ que amam com clamor incessante, que com estrondo pedem atenção, os que como um carrapato velho, se segura à uma árvore enquanto espera uma vítima que caia logo abaixo de seu galho.

E não ouse me chamar de consciência! Que afronta! Não sou parte de sua cabeça, pelo contrário — sou a sua cabeça. Quais das cabeças? Oh carcaça, você é um monstro mitológico com mais de uma!? Porquê eu só vejo uma. E adivinhe: eu sou ela.


Eu ou mim?

Numa xícara de café pode encontrar o tímido eu que fala de contos de terror do século passado, assim como consegue facilmente esquece-lo ao encontrar o eu filósofo de mesa de bar.

Qual é aquele que repete os ecos do crânio? Sei que a preferência geral é suprimir o eu mais genuíno. Que atrás da cabeça exala um cheiro de doce de leite e frutas frescas, mas que, vomita reclamações sobre política, educação, relação e o tempo.

Ora, que infortúnio é ter um visual externo tão díspar da criatura escondida por entre os ossos!

As tímidas coisas se unem num complô que difamam qualquer um que possa tentar afirmar a possibilidade de unidades dentro da crisálida. Greves barulhentas como buzinas reverberam ao sinal do primeiro buraco entre o lado de fora e o de dentro.

Não é que eu seja uma metamorfose ambulante, mas veja, sou tantos ‘eus’, como podem afirmar se mudei ou se sempre fui assim? Nem todas as larvas que encontram abrigo na carne são receosas. Na verdade, muitas sonham com o estrelato e até tentar achar caminho para outro perspectiva.

Ó que deleite seria abrir os portões da carne — ou se esgueirar por entre as barras e encontrar um mesmo e único destino. Ou não?