Miríade

Neste mundo as pessoas são como as coisas numa grande máquina. Quando alguma coisa sai do lugar, os indivíduos sentem uma alteração na órbita de conformismo em que estão suspensos.

Os papéis sociais são as células organizadas dessa coisa viva, que chamo de corpo social.

Nem tão incrível, ou fascinante, quanto a mente humana acredita-se capaz de ser, mas uma estrutura de normalidade medíocre e monotemática que domina os indivíduos de uma maneira em que a mera menção da mudança gera confusão e respostas agressivas.

E não vou utilizar esse tal “Conecta Recife” que sugará as informações pessoais contidas neste aparelho compacto e high tech. Fiquem com meu IP e deem-se por satisfeitos.

Percebi que detestava aquele ônibus coletivo com ar condicionado e cadeiras acolchoadas. Para mim era uma sauna fria com vapor de suor no lugar do vapor d’água, pior porque vivia lotado, e assentos no maldito ângulo de 90º, um desconforto que me faz refletir sobre o objetivo dos designers quando se debruçaram sobre a ergonomia dessas cadeiras.

Dois PMs subiram no ônibus e conversaram com alguns passageiros sobre o perigo e sobre um assalto acontecido, num ônibus dessa linha, há pouco.

O controle social não pode parar.

Vão farejar meu cheiro, notar nos meus gestos a clareza dos meus sinais, e dos signos em que estão imbuídos. Vão encontrar e decifrar o conteúdo da caixa que carrego comigo.

Miríade, minha nave filosófica.

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