Notas sobre Platoon

No começo de Platoon, somos introduzidos ao protagonista Taylor, um universitário que se alistou voluntariamente para ir ao Vietnã lutar a guerra de sua época, durante sua chegada ao país. A porta traseira do avião se abre e os novatos se deparam com cadáveres de soldados que voarão de volta aos Estados Unidos em lonas plásticas.
Essa falta de sutileza ao lidar com o próprio ponto de vista nos acompanhará por todo o filme, até seu previsível desfecho.
Nos deparamos então com o antagonismo que ilustra esse olhar humanista que a obra pretende lançar sobre a guerra. Tomando como referência o combate cruel que nos é mostrado é conveniente que o humanismo do Sargento Elias tenha sobrevivido a três anos na linha de frente contra os vietcongs. Já o Sargento Barnes é um vilão mau e psicopata que a narrativa falha em desenhar como um homem endurecido pela guerra, mas se torna crível pelo charme arrebatador de Tom Berenger. O embate entre os dois beira a telenovela de tão previsível e carente de escopo para abordar a complexidade da crítica política e ideológica do estado que envia os jovens pobres para a morte num inferno do outro lado do mundo. Colocar os soldados estuprando as meninas vietnamitas no extracampo não diminui o absurdo de fazê-las serem salvas por um dos molestadores. Uma crítica requentada e que foi melhor executado por filmes anteriores que também tocam na guerra perdida, um assunto sensível para o povo estadosunidense.
No que diz respeito a produção, Platoon é um bom exemplo de muito feito com pouco. A selva e os figurinos bastam para nos situar e guiar nossa crença no palco da narrativa, mas o orçamento modesto fica explícito na maquiagem pobre e frágil diante de uma exposição prolongada à câmera, como nos closes do massacre causado pelo ataque maciço dos vietcongs nos momentos finais do filme. É nesse momento que as limitações da obra se expõe com maior evidência. O problema do custo de produção poderia ser solucionado com a composição dos planos, mas o que vemos são enquadramentos professorais e pouco criativos. Não obstante, o descuido com o desenho de som pode ser exemplificado no tiroteio da invasão final, quando Bunny dispara sua espingarda e ela faz o som de um revólver com o volume alterado.
Totalizando, após a destruição física e moral, a ‘transformação’ de Taylor em Chris se completa com a vingança pelo assassinato do adversário ideológico, a etapa ética nesse processo a que o filme o submete. Previsível e sem as sutilezas de um Apocalipse Now, este sim poderoso demais para hollywood e feroz demais para a Academia, Platoon envelheceu bem, mas corre o risco de ser lembrado como a fetichização da mea culpa humanista pela repugnância de uma guerra meramente política.
- Assistido no cinenetflix em 8/out/2016, notas do fluxo de 10/out/2016