Algumas palavras sobre dogmas, individualismo e justiça social

Então pessoal, esse é um assunto bem delicado. Quando não concordo com alguma colocação do feminismo, dos movimentos de esquerda em geral, silencio a minha vontade de manifestar opinião e obter doses gratuitas de estresse com o que chamo de “licença humana”; ora, toda corrente de pensamento é feita por pessoas. Estas, independente de etnias e orientações sexuais, tem o direito a não serem perfeitas, mas contraditórias e, inevitavelmente, falarem groselha em algum momento. Não é algo ruim achar a hipocrisia, mas um atestado de que ainda há certa “alma” em meio ao discurso.

O problema começa no instante em que as próprias se engessam, recusando qualquer evidência capaz de questionar seus ideais. Quer uma prova? Você provavelmente está de nariz torcido desde que leu o termo “feminismo”, e agora segue com a periculosidade de dez Sherlocks, em busca de qualquer coisa, um grão de areia fora do monte, para ativar a enzima do “tinha que ser omi chorando mesmo” (termo hilário, diga-se de passagem. Dá vontade de chamar pro Duelo Xiaolin).

Vamos a um exemplo simples, enquanto minha cova está rasa. Vejo o reforço de frases como “não existe mulher machista, apenas as oprimidas pelo sistema”; sempre que leio, imagino a metáfora do rato. O animal está acuado em um canto, com um gato a poucos centímetros de seu rosto, aparentemente sem saída. Sua solução? Fechar os olhos, pois se ele não enxerga o gato, então o gato não existe. Em outras palavras, cria-se um dogma, uma crença inabalável que nega qualquer princípio de lógica, mesmo que seja matemática e socialmente impossível ter metades exatas de opressores e oprimidos. De todas as mulheres no mundo, então não existe uma que não se sinta pressionada pelo “sistema”, que “o propague” por livre vontade? Tanto se fala em diversidade, mas esta diversidade, necessariamente, segue apenas uma linha, a sua linha de pensamento? Me chama de Sr. Spock, pois isto é ilógico.

Tomemos uma família patriarcal clássica. Nela, o homem provedor se ausenta da casa. Quem, então, ensina pra filha como ser “menina direita”, cozinhar, passar? Quem é que não cobra as mesmas coisas de seu irmão, pelo simples fato entre suas pernas? “Ah, mas essa senhora foi oprimida pelo sistema…”. Então, ela também veio de uma família patriarcal clássica. Quem é que lhe ensinou?

Antes de continuar, quero dizer que entendo a aversão a argumentos que apelam ao senso comum, ignorando o fator “vivência” e todos os outros termos de novilíngua criados pela internet. Afinal, pelo senso comum os problemas da esquerda se resolvem com carteira de trabalho e fim do bolsa-mortadela, as feminazis só precisam de uma surra de pau mole pra pararem de bancar as mal comidas, dentre outros besteróis universais. Não é a intenção desse texto reforçar a ignorância: se você procura alguém que vá contra todos os princípios de justiça social, é melhor dar meia-volta. Na verdade, o autor aqui assinou um manifesto a favor da diversidade na literatura, então é meio que seu dever produzir conteúdo a respeito.

Prosseguindo, há a maior taxa de mortalidade entre os homens, o que não só desconstrói essa redução 50% A e 50% B, como expõe um backlash do próprio “sistema” contra seus supostos senhores. A mídia, a todo momento, nos incentiva a beber como um sinal de virilidade, a destruir os pulmões com classe, dirigir em alta velocidade com o carro que baterá virilhas tão fácil quanto as portas. Desqualifica o choro, demonstrações de dor, coloca sua masculinidade em cheque pelo simples fato de assumir um abuso. Afinal, macho nenhum deixa lhe encostar sem partir pra porrada. Ele tem que se garantir. E, mesmo com esses fatos dançando o passinho do moleque transante na sua frente, uzomi são todos opressores resistindo para não perderem seus privilégios. O feminismo não se trata deles, então quem caralhos liga para exceções?

Mas por que isso acontece? Por qual motivo essas evidências, mesmo que tivessem uma tese de doutorado com toda a bibliografia disponível, ainda soam como “male tears”? A explicação se encontra em nosso Zeitgeist: nunca, em toda a História, houve um culto tão grande ao indivíduo quanto nestes anos. Todos se julgam especiais demais, evidentes em meio a uma massa cinzenta. Fala-se em “sororidade”, mas o um sobrepõe ao todo. Reclama-se da arbitrariedade do Estado, dos linchamentos, mas nosso desejo por justiça atribui “inimigos” por questões de vírgulas, e pobre daquele que ficar no caminho da turba virtual. Trabalhos como o de Joss Whedon, conhecido por promover a diversidade em seriados como Buffy e Dollhouse, transformados em nada por conta de uma personagem mostrando fragilidade em um filme de super-heróis. O “não me senti representada e vou reclamar disso”, convertido em “todas não se sentiram representadas e devem reclamar, de preferência ameaçando a vida do infeliz”.

Se, por um lado, essa pressão acarreta em resultados maravilhosos, vide o novo Mad Max e Star Wars VII, por outro engessa completamente os enredos, obrigando o autor a pisar em ovos para não desagradar o individual/coletivo. Este vídeo sobre o tema (assistir até o fim), é certeiro ao afirmar que dificilmente a Warner vai se arriscar com mais heroínas. A única que passou do pente já provocou essa publicidade negativa só de mostrar algo além de roupas colantes e chuva de morte, imagina se tiver mais? O anúncio de uma série protagonizada pela Supergirl, se provocou hype de um lado, logo foi abafado por acusações de “fazê-la submissa” pela contraparte. Como arriscar fora do padrão caucasiano e heteronormativo, se nada agrada? Deste modo, em defesa à diversidade e representação igualitária, impede-se a mesma de acontecer.

O ódio que motiva as pessoas a lutarem com seus textões de facebook é compreensível, mas não justificável. Nada justifica o ódio.

Há problemas sérios com o mundo? Sim. Porém, não importa quanto o espírito do tempo insista em nos segregar “do resto”, não se elimina o fato de sermos parte “disso tudo aí”. E pelo amor dos filhinhos que nunca terei, não se deve parar com o barulho. A pressão por igualdade, fazer qualquer um pensar duas vezes antes de atirar sua pedra, é absolutamente necessária. O problema é quando lançamos as nossas sem esperar nenhum pio. Se até os dogmas da Igreja, senhora de milênios, foram questionados, melhor se acostumar com a idéia de que alguém lhe lembrará do gato. Que pode ser uma gata. Ou um gatx.

Abra os olhos e encare o problema de uma vez.