Não acredite em nada do que vê: A falsificação dos documentários televisivos

Há tempos selecionei meus canais de TV a cabo preferidos: Discovery Channel, National Geographics e Animal Planet. Sou fã de documentários sobre vida selvagem e ciências. Esse gosto vem de menino. Lembro-me, quando criança, de adorar quando meu pai alugava fita VHS dos documentários da National Geographics na locadora.

Nos últimos tempos, poucos documentários tem atraído minha atenção. Quando algum se destaca, gosto de ver, rever e de buscar mais informações sobre as histórias. Aqui entra meu lado cientista que gosta de conhecer as entrelinhas das histórias, ler os artigos científicos originais e avaliar a confiabilidade das informações que vejo. O que descobri fazendo isso? Que não se pode confiar em nada do que vemos na TV, mesmo que seja em um documentário.

Semana passada assisti um documentário no Animal Planet. Uma história absolutamente incrível: Na década de 1970, uma dupla de cientistas americanos, Timothy Darrow e um colega, acompanhados por um guia foram para a Ilha de Flores, na Indonésia, para tentar encontrar uma espécie de coruja suspeita de extinção. Em meio a uma incrível viagem, começam a notar certos acontecimentos estranhos.

Documentário: Cannibal in the Jungle — Animal Planet.

Marcas recentes em árvores e carcaças de bichos… barulhos desconhecidos… Até que se deparam com uma grande símio, bípede como nós humanos. Vendo o tamanho da descoberta, o grupo muda sua busca tentando registrar a nova espécie. Resultado da história: um dos cientistas e o guia foram brutalmente assassinados pelos símios, apenas Timothy Darrow sobreviveu. Filmes e aúdio disso foram perdidos pelo caminho…

A história era tão absurda que as autoridades na Indonésia e nem mesmo a embaixada americana acreditaram na história relatada pelo cientista sobrevivente. Ele foi condenado pela morte dos outros dois e diagnosticado com esquizofrenia pelos peritos na época. E isso tudo ficou como uma história de um maluco assassino que inventou uma história doida tentando se safar.

Quase 30 anos depois, em 2004 uma equipe de antropólogos faz uma descoberta incrível na Ilha de Flores: encontram esqueletos do que foi batizado como Homo floresiensis, e apelidados como Hobbits, por sua estrutura corporal. É estimado que os "Hobbits" tenham sido extintos há 15000 anos.

O documentário Cannibal in the Jungle apresenta um dos pesquisadores responsáveis pela descoberta do homo floresiensis revisitando a história maluca de Timothy Darrow e a hipótese de que os hobbits ainda existam pela ilha. Com uma longa investigação, revisitando policiais, embaixadores, familiares e investigadores da época, o cientista consegue obter aúdios e vídeos da década de 1970 até então não examinados e passa a acreditar na versão de Darrow aos acontecimentos.

Munidos com equipamentos de última geração uma equipe de especialistas vai em 2013 à Ilha das Flores em busca de respostas. E consegue dados incríveis: registros de aúdios iguais ao de Darrow na década de 1970, identificando uma espécie de primata desconhecida e algo que remove as câmeras filmadoras da floresta com violência, sem se deixar filmar. As novas evidencias sugerem que Darrow não era louco, nem mentiroso. Infelizmente, Darrow morreu na prisão da Indonésia antes de que as novas evidências tenham sido reveladas. Mas seu nome entrou para a história da antropologia.

Para os amantes de ciência e suspense, que história, não? O único problema é que essa história nunca existiu. O programa simplesmente utiliza uma narrativa de documentário, apoiando-se em alguns fatos reais (como a descoberta do homo floresiensis), misturando com lendas (conheça o Ebu gogo) e criando personagens (cientista investigador, embaixador, chefe de polícia…).

Não vejo problema nenhum em filmes de ficção científica. Mas vejo em programas que usam da formalidade de uma comunicação tipicamente científica, como documentários, desacompanhados de qualquer advertência de que não são histórias reais. O que me chateia é ter que desmentir histórias que as pessoas viram e que passam a acreditar, por ter sido em um documentário que mostrou os cientistas falando de suas descobertas. O ponto é que quase que a totalidade da audiência desses programas não tem condições (e, talvez, nem interesse) em avaliar a confiabilidade das informações. E, com isso, passamos a criar uma falsa realidade na qual ficção científica deixa de ser ficção aos olhos da população.

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