Eu dormi em um show dos Rolling Stones

Quando os Rolling Stones vieram ao Brasil em 2006 para realizar aquela apresentação gratuita em Copacabana, estava no último ano da faculdade de Jornalismo e trabalhava no centro de São Paulo, como estagiário de uma autarquia municipal.

Um dia, no meu horário de almoço, passei em uma agência de viagem da rua Xavier de Toledo que promoveria excursões para o show. O preço? R$ 70. Era uma pechincha. Bom demais para ser verdade. Mas era. E o melhor: um dos ônibus sairia do metrô Artur Alvim, bem próximo da minha casa à época.

Depois do expediente, cheguei ao bar em que me reunia com os amigos antes das aulas e contei sobre essa oportunidade de irmos ver o show da banda. Imediatamente, todos concordaram. Em uma semana, compramos nossas passagens.

À época, a gente bebia um pouco demais. Não que hoje seja diferente, mas é que a galera exagerava mesmo. E já que o ônibus sairia próximo da minha casa às 6h da manhã, resolvemos fazer um esquenta num bar do bairro que eu morava. Um esquenta que varou a madrugada. E ninguém dormiu.

Durante essa noite, lembro que nem tudo foi tranquilo. Como estávamos em um grupo de umas dez pessoas, é normal que nem todos se suportem. Lembro que rolou uma treta patética na madrugada, quando o Gustavo Godinho jogou um pão duro na cara de um dos caras que estudava com nós. E o rapaz chorou por causa disso. Mas isso não ia estragar a viagem.

Quando chegou a hora de partir, embarcamos em uma lotação até o metrô. Ainda embriagados, os caras acenderam cigarros dentro da van e foram fumando com o braço para fora como se estivessem em um carro de passeio. Minha mãe, que estava indo para o trabalho no mesmo horário, precisou pedir educadamente para que os caras parassem de tumultuar.

Antes de embarcar, compramos uma garrafa de vodca e outra de refrigerante, porque o que bebemos durante doze horas não havia sido suficiente. O ônibus saiu no horário marcado e partiu em direção ao Tatuapé, de onde sairia outra turma. Antes de chegar lá, um dos meus amigos acendeu um beck no busão. E ele nem era de fumar maconha. Porém, naquele dia em específico, achou que seria uma boa ideia. O organizador da viagem olhou com cara de ódio para a nossa turma durante as seis horas que separam São Paulo do Rio.

Eu não aguentava mais. Dormi antes do ônibus sair de São Paulo. Os caras que não tinham dormido transformaram o veículo em um verdadeiro cortiço. No corredor, maços de cigarro, restos de fruta, pacotes de bolacha e latinhas de cerveja eram mais visíveis do que o próprio assoalho. Isso em apenas duas horas de estrada.

Finalmente chegamos ao Rio. Mas não sem antes ganhar a antipatia de todos os outros passageiros do ônibus (que inclusive foram provocados pelos meus amigos e também ganharam apelidos pouco amigáveis).

A primeira imagem que tenho da cidade não é o Corcovado ou a Baía de Guanabara. E sim do Vitão abaixando as calças e colocando a bunda suada na janela, o que deixou uma marca nojenta no vidro. Do outro lado da rua, estava uma colega de trabalho dele. Não sei se isso efetivamente foi um problema quando precisou voltar ao escritório. Mas todos poderíamos ter vivido até hoje sem essa cena.

Quando chegamos em Copacabana, nos dividimos em dois grupos. Um foi tentar ver o show bem de pertinho. Pastel, Bitor, Gustavo, Ana Rita e eu preferimos ficar em uma área mais confortável, no fundo.

Apesar de ter dormido um pouco durante a viagem, admito que estava extremamente cansado e antes do show começar, eu já tinha voltado a ficar bêbado com as cervejas e vodcas que bebemos na praia. O que me lembro efetivamente é do Titãs tocando antes dos Rolling Stones. Quando a banda inglesa entrou no palco, eu passei por um estado de Ensaio Sobre a Cegueira e só me lembro de flashes da apresentação, como quando eles tocaram Sympath For The Devil e Wild Horse. Mas posso estar enganado quanto à presença dessas no repertório.

E eu não tive um apagão alcoólico convencional. Eu dormi de pé durante quase todo o show. E de vez em quando ainda inclinava para a frente e era amparado pelo Gustavo. Por pouco, não caí de cara na areia.

Não fiquei arrependido de ter perdido o show, porque definitivamente não sou um fã da banda. Até acho os caras meio ridículos. Eles têm 90 anos e até hoje fazem pose de bad boy e de sex symbol em calças de couro. Fora que o repertório é sempre igual e já está pra lá de batido. Me poupe. Eu fui para essa viagem só pela diversão. Eu nem gosto de shows e multidões. Mas tinha certeza que essa experiência seria inesquecível. E foi.

Na volta para o ônibus, que estava estacionado no Aterro do Flamengo, me perdi de todos. Claro que meus amigos ficaram preocupados, porque meu estado era lamentável. Mas o cochilo que tirei durante o show havia me recuperado — novamente. E como eu conheço relativamente o Rio por ter passado quase todas minhas férias escolares lá, não foi um problema encontrar o ônibus.

Cheguei até antes que o resto dos meus amigos, que tiveram dificuldade para lembrar o local onde o busão estava. Quando eles chegaram, trataram de perguntar se eu havia aparecido. Constatando que já estava dormindo na poltrona, ficaram aliviados.

Na volta, ninguém bebeu. Apenas água. Olhando a cara de todos, o que eu enxergava era apenas derrota. Sujos, despenteados, suados, sem banho há quase 48 horas e ainda com alguns litros de alcool no organismo. Quando chegaram na minha casa para pegar seus carros, fomos recebidos pela minha mãe, que havia preparado café da manhã para nós e separado toalhas para quem quisesse tomar banho. Quem tem amigos assim e uma mãe como essa, não precisa do Mick Jagger. E não, não temos uma foto dessa viagem. Ainda bem, isso aconteceu antes da era dos celulares com câmera.