Localizador de cultura
Por Aline Bravo, Daniel Veloso, Helena Leite, Isabela Barreiros e Thamirys Alano
Andar pela cidade é sempre um processo diferente para cada um de seus ocupantes. Pode-se andar com mira, ou errar intencionalmente o passo. No segundo caso, flanar a caminhada rotineira, descobrindo coisas que sempre estiveram lá e você apenas não percebeu. O conceito de “flâneur” surge no período entre os séculos XVIII e XIX, enquanto borbulhava a industrialização europeia. Na vida urbana parisiense, nasce a figura que anda pela cidade e observa os detalhes absorvidos pela pressa cotidiana — o flâneur ou a flaneuse do poeta Charles Baudelaire e do filósofo Walter Benjamin. Esse passeio observatório procura uma nova percepção dos centros urbanos que se tornam fonte de inspiração para o andarilho, como arte para um artista.
No entanto, o perfil desse personagem muda conforme analisamos as diferenças políticas que dizem respeito a ele. Por exemplo, pelo fato do conceito estar ligado à França industrial, o flâneur é homem, branco, aristocrático e, normalmente, de posição econômica diferenciada. Seu andar está ligado aos locais mais amenos e abastados da cidade, o que representa uma maior facilidade no caminho, além disso, ele dispõe de tempo — essencial para o processo. Quando fazemos um recorte de gênero, contudo, a movimentação de um corpo feminino é dificultada e, normalmente, muito mais pensada. A situação da comunidade LGBTQ+ também representa uma mudança no conceito de “andar sem rumo” pela cidade porque, nesses casos, o medo se faz muito mais presente. O medo da intolerância, da agressão, do que pode acontecer por simplesmente ser o que se é nos ambientes públicos.
No contexto de ressignificação do espaço público, surge, no mundo contemporâneo tecnológico, o conceito de “mídia locativa”. Segundo o pesquisador André Lemos, ela é “um conjunto de tecnologias e processos info-comunicacionais cujo conteúdo informacional vincula-se a um lugar específico”. A partir disso, podemos relacionar a experiência de estar nas cidades, hoje, com a realidade aumentada apresentada pelas tecnologias. As informações ubíquas dessas mídias são passadas ao seu utilizador a partir de funções como monitoramento, geoprocessamento, vigilância e mapeamento, entre outras. Com isso, os espaços tornam-se híbridos, ou seja, são tanto de presença física quanto tecnológica e permitem que conteúdos digitais sejam agregados às localidades. Desse modo, podemos entender que a tendência é que os dois mundos sejam cada vez mais coligados e as experiências mais híbridas, com o avanço das tecnologias e desenvolvimento de diversas ferramentas.
Aplicativos
Waze: O aplicativo, lançado em 2006, é um software de localização espacial via GPS usado em smartphones e tablets. Utiliza os dados gerados pelas viagens de outros usuários para estimar com maior precisão a duração de viagens. Além disso, é dada a liberdade dos próprios usuários fazerem detalhamentos (existência de radar de velocidade ou de blitz policiais) e comentários sobre a situação do trânsito nas rotas pelas quais estão dirigindo. Por tais motivos o aplicativo é definido como um GPS gerido pela comunidade.
Ingresso Rápido: A Ingresso Rápido é uma das plataformas mais completas no Brasil para venda de ingressos e gestão de diversos tipos de eventos. Caracteriza-se por conseguir juntar os dois lados da relação de entretenimento: o produtor do evento e o consumidor. Apresenta, pelos motivos citados acima, uma vasta gama de opções de espetáculos para serem escolhidos tornando-se, assim, um aplicativo que engloba diferentes gostos culturais.
Ao analisarmos os aplicativos “Waze” e “Ingresso Rápido” notamos que suas funções de localização/atualização de informações e facilidade ao para acessar distintos espaços, respectivamente, quando unidas e atreladas a cultura (no caso do nosso aplicativo, espetáculos de teatro) trazem grande benefícios e de certa forma se completam. Nosso grupo criou um aplicativos unindo as referidas funções a fim de facilitar a vida cotidiana de quem frequenta teatro, o Wazecult. Em pesquisa, nota-se certa falta de opções de aplicativos para os amantes das peças teatrais. Nenhum aplicativo leva de maneira clara e simples todas as necessidades possuídas pelos espectadores. Nosso projeto tem o objetivo de deixar a experiência, de assistir tais peças, fácil e dinâmica além de contar com interatividade e links de intertexto.
Nosso projeto

A partir dos aplicativos citados acima, chegamos ao nosso projeto. Nossa ideia seria montar um localizador de teatro: acompanhando a localização do usuário em background, o aplicativo mostraria os teatros mais próximos, com suas respectivas programações e histórias.
Ao selecionar o teatro que gostaria de ir, o cliente poderá ler um pouco sobre a história do prédio, verificar sua programação e escolher a peça que tenha interesse. Optando por uma peça, poderá conferir a avaliação dos que assistiram, ler uma resenha feita pela equipe de jornalistas responsáveis pelo aplicativo e comprar seu ingresso. Quanto mais ingressos o usuário comprar pelo aplicativo, mais pontos ele(a) ganhará — eles poderão ser trocados por descontos nas próximas peças, incentivando, assim, a ida ao teatro.
Além disso, o aplicativo visa a integração. Ao final de cada peça, o usuário poderá avaliá-la e entrar, caso queira, em uma sala de bate papo com pessoas que também a assistiram, estimulando, assim, o debate e a interpretação posterior ao espetáculo.
Abaixo, exemplos de resenha e história do teatro que estarão presentes no aplicativo, escritas a partir de uma linguagem jornalística para melhor entendimento do público.

RESENHA: “Comitiva Esperança — Um Musical Regional”
“Comitiva Esperança — Um Musical Regional” é um musical dirigido por Guilherme Leal e com texto de Vitor Rocha, de cunho bastante emocional e que deixa lições para todas as famílias. Está em cartaz no Espaço Cia. da Revista por tempo limitado, dos dias 05 a 08 de Julho. Classificação livre.
O espetáculo musical “Comitiva Esperança” começa contando a história de quatro crianças que são amigas e moram em uma cidade fictícia chamada Rancho Fundo, localizada em uma Zona Rural no interior do Brasil. A peça traz mensagens importantes, principalmente com relação aos desafios que as personagens enfrentam por conta de suas origens.
A abordagem de assuntos do cotidiano presentes nas diferentes histórias não é a única razão que faz com que o público se envolva tanto, mas a naturalidade presente na interação entre ambos, bem como nas falas dos personagens, em conjunto com o cenário extremamente simples, composto somente pelo palco decorado com alguns adereços de época remetendo às festas Juninas que permitiam aos espectadores imaginarem seus próprios “Rancho Fundo”, tendo a sensação de fazer parte da história.
Sobre o Espaço Cia. Da Revista
O Espaço Cia. da Revista fica na Alameda Nothman, 1135, no Bairro de Santa Cecília em São Paulo. Foi inaugurado no dia 14 de Novembro de 2014 e tem capacidade para 99 pessoas, acessibilidade para pessoas com necessidades especiais e um pequeno bar.
O teatro independente começou a ser erguido a partir de doações de materiais usados em uma exposição do Stanley Kubrick realizada no MIS, mão de obra de amigos e o restante veio de parceiros. Consultar o horário de funcionamento da bilheteria pelo telefone (11) 3791–5200.
Originally published at sociolab.lira.blog.br on September 6, 2018.
