Promessas de Ano Novo

Todo fim de ano era a mesma coisa, dia 31 de dezembro era dia de faxina na casa e na vida. Débora gostava de pensar que eliminava as coisas ruins e dava espaço para o novo, no guarda-roupa e no coração.
Sempre acreditou em energia e gostava de seu ritual. Mais do que uma tradição obrigatória, aquilo lhe fazia bem.
Aproveitava esse dia para tirar roupas que não usava mais dos armários, jogar fora papéis inúteis que estavam empilhados, limpar gavetas e prateleiras. Terminada a limpeza e organização da casa, Débora fazia listas sobre o ano que chegava ao fim: fatos memoráveis, amigos que fez ou manteve, lições aprendidas, sonhos realizados,…
A última lista era a mais difícil: “Promessas para o ano que vem”. Nessa hora sempre empacava. Não queria colocar objetivos muito difíceis de atingir para não desanimar e nem muito fáceis para não desvalorizar as conquistas. Mas nesse ano estava particularmente mais difícil.
“Da lista do ano passado, não consegui cumprir quase nada. Não sei porque insisto em fazer isso. Vem ano e vai ano e continua tudo igual. Não viajei. Não comecei nenhum trabalho voluntário. Nem plantar uma árvore, plantei. Mas também a culpa não é minha. Trabalho demais, mal sobra tempo para dormir e comer. É isso, devia colocar como meta do ano que vem dormir e comer, pelo menos conseguiria cumpri-las.”
Desistiu da lista. Esse ano ficaria sem. Mudaria essa parte de sua tradição. Foi tomar um banho. Era hora da limpeza do corpo e de se arrumar para o Réveillon.
Passaria a comemoração de Ano Novo na casa de sua avó, como todo ano. Uma casa simples, mas aconchegante. Dona Estela morava no interior. O cheiro de frutas do pomar que ficava no fundo e as estrelas que encobriam o céu durante a noite resumia bem o que Débora adorava encontrar por lá.
Além disso, reunir a família na casa da avó era sinônimo de boas histórias e boas comidas.
Em determinado momento, Dona Estela chamou a neta para ajudá-la a lavar as frutas que seriam servidas próximo à meia-noite. Assim, quem precisasse de sementes de romã ou uva para fazer simpatias, não ficaria desesperado. Quem não precisasse, podia comer mesmo assim.
- Cadê sua lista para o ano que vem, querida. Adoro ver suas promessas!
- Ah, vó. Nem me fale disso. Acho que esse é o primeiro ano que não consegui fazer uma.
- Por quê?
- Nunca consigo cumprir nada mesmo. Desse jeito não me decepciono depois. Além disso, a vida é o que é. Amanhã é outro dia como qualquer outro. Nada vai mudar só porque o ano mudou.
- Concordo!
- Como assim? — essa era a última resposta que Débora esperava.
- Você tá certa, ué. Nada vai mudar.
- Se até a senhora concorda…
- Nada vai mudar só porque o ano mudou. Nem sei se o mundo sabe que isso acontece a cada 365 dias. Nada vai piorar.Nada vai se resolver. Nada. A não ser… — Dona Estela parou de falar e comeu um pedaço da ameixa recém lavada, estava bem vermelhinha por dentro o que garantiu um sabor muito adocicado.
- A não ser o que, vó?
- A não ser que a gente considere a passagem de ano como um oportunidade de a gente mudar.
- Não entendi.
- Oras, o dinheiro, o trabalho, a natureza, o carro, as contas, as viagens podem não saber que o ano está mudando, mas você sabe! Quer dizer que você tem uma chance que nada disso tem. Acreditar que tudo pode mudar. Ao menos tudo o que depender exclusivamente de você. Débora, concordo que não é preciso fazer uma lista gigantesca de promessas para se decepcionar quando não conseguir cumpri-las. Por outro lado, acho esse um momento excelente de você se olhar, se ouvir e pensar o que realmente você gostaria de realizar ano que vem. O que você está disposta a fazer por você mesma.
- Nossa, vó. Por que a senhora nunca me disse isso antes? Por que me deixou fazer aquelas listas de planos?
- Porque naquela época, aquilo era suficiente para você. Mas quem disse que você não mudou no último ano? Agora vai fazer sua lista e deixa que eu termino aqui.
Ainda faltava uma hora para a contagem regressiva. Débora revirou as duas gavetas da estante do escritório em busca de uma folha de papel limpa e uma caneta que funcionasse. Após alguns minutos de muita procura, encontrou os dois e correu para a rede que ficava no fundo da casa, no quintal próximo ao pomar. Adorava estar ali! Adorava aquele lugar! Queria poder guardar aquela sensação de paz e plenitude para o ano que ia começar.
Pensou por um tempo. Ainda não sabia exatamente quais palavras usar. Decidiu ser o mais objetiva possível, algo que a fizesse se sentir corajosa ao longo do ano e forte o suficiente para cumprir o prometido dessa vez. Resolveu que se comprometeria com apenas duas coisas e escreveu:
“Promessas para o Ano Novo:
1. Estar em lugares que me façam feliz
2. Me lembrar que há coisas que só dependem de mim para serem mudadas e mudá-las quando necessário”
Com aquela pequena lista no bolso, Débora correu para a garagem que ficava na frente da casa fazer a contagem regressiva. A família toda estava lá, com garrafas de champagne e taças para o brinde. À meia-noite, Débora abraçou a todos e olhou os fogos que brilhavam no céu. Sabia que aquele ano seria diferente. Seria melhor. Ao menos no que dependesse dela.
“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”
(Carlos Drummond de Andrade)
[Quem lê, também escreve é uma coluna na qual posto textos de minha autoria. Qualquer tipo de texto. Afinal, quando escrevo é por uma decisão das palavras, não minha. Eu só sigo o caminho pelo qual elas me levam.]