[CENTRAL PINHALENSE] Com, ou sem palavras…

Crônica 7

Cinco pessoas já aguardavam na parada quando cheguei, juntando-me a elas. Em seguida, veio o ônibus. Sentei-me na segunda fileira, sozinha, mas uma das mulheres que embarcara, sentou-se imediatamente ao meu lado. Nunca a vira. Não conversamos.

A cada nova parada, pequenos grupos entravam. Quando me dei conta de que estava demorando mais do que o usual, estiquei-me para ver o motivo. Antes mesmo de vislumbrar D. Maria, vi as pessoas do banco dianteiro deslocarem-se, a fim de lhe oferecer a vacância.

Poucas paradas adiante, mais uma senhora com dificuldades físicas adentrou, provocando nova reacomodação. Duas jovens mulheres que ocupavam um dos pares dos bancos dianteiros, espontaneamente, separaram-se para proporcionar um dos lugares à nova passageira. E uma delas foi sentar, então, com D. Maria, no banco imediatamente à minha frente.

Pude assistir de camarote. Não foi necessário ouvir. Aliás, não havia, no caso particular de D. Maria e sua nova companheira, nada para ouvir, apenas para apreciar. As duas não pronunciaram uma única palavra. As duas, uma de 88 e outra com, provavelmente, metade desta idade, apenas se entreolhavam vez por outra e sorriam. Enquanto uma falaria somente português, a outra, somente alemão.

De onde eu estava, assim, imediatamente atrás, minha visão priorizava D. Maria, a octogenária com aquela ímpar expressividade azul, azul… tão azul! Sua necessidade de falar, podada pela falta de um interlocutor que entendesse seu alemão, parecia fazer crescer ainda mais o tamanho de seus olhos, como se quisesse falar através deles. Naturalmente atenta à paisagem por onde o veículo passava, a cada nova cena que lhe interessasse, procurava olhar para a passageira ao seu lado, perscrutando-a, esperando, igualmente com o olhar da outra, a confirmação de que, telepaticamente, fazia-se entender. Então sorria.

Cerrei meus olhos numa tentativa de escutar o silêncio. Estava envolvida com a magia da cena à minha frente, o que me fez sorrir também. Não foi exatamente silêncio que escutei. Sempre há tanta vida nesse ônibus!

Então entrou uma senhora carregando compridas varas. Eram mudas de aipim. Temi que ao introduzi-las consigo no ônibus, pudesse tocar o teto, fazendo-as quebrar. Vi que, como eu, os outros passageiros acompanhavam preocupados cada manobra, torcendo para que os destroços não lhes caíssem nas vistas. Mal a mulher conseguiu se acomodar, a si e às suas mudas, aproximou-se um rapaz, querendo fazer a cobrança. Lembrei-me imediatamente de ter ouvido minha mãe comentar outro dia, que numa viagem em comum, esta mesma mulher descera do ônibus, simplesmente comunicando ao motorista que pagaria outro dia, quando vendesse o milho, pois hoje não tinha dinheiro. Fiquei na espreita, desconfiada, para ver, se repetiria a façanha. Mas ela surpreendeu, sustentando na mão uma nota de cinquenta reais, solicitando que fosse descontado, também, a dívida de um outro dia.

A viagem de volta foi a oportunidade de intensificar a história. Entrei no ônibus estacionado na rodoviária e, prontamente, percebi as mesmas pessoas. Desta vez, porém, nas poltronas dianteiras estavam, num lado, D. Maria e, no outro lado do corredor, a mulher, ainda com as varas de aipim. Solicitei licença para sentar com a idosa, e ela consentiu, visivelmente satisfeita com meu pedido. Já fomos companheiras de várias viagens e, suponho que haja reciprocidade na minha empatia. Mostrei-lhe fotos de minha falecida avó, as quais recém mandara reproduzir. Esta avó tinha sido importante membro da comunidade, “a Luwis”, prestadora de relevantes serviços à saúde pública, em tempos em que as políticas nesta área também já deixavam a desejar. Enquanto D. Maria ainda tentava reconhecer quem eu lhe mostrava, ouvi várias manifestações de pessoas atrás de nós, entrando na conversa. Também nossa vizinha do aipim ponderou que conhecia muito bem a enfermeira da foto. D. Maria aproveitou o leque para perguntar, se ali onde a “mulher do aipim” morava, ainda havia muito capim-elefante, pois se lembrava de que naquelas bandas sempre houve bastante deste pasto. O desdém da interpelada! Disse nem saber, afinal, nem tinha mais animais. Isto suscitou ainda mais curiosidades nos demais:

- Mas o que tu ainda trabalhas? — perguntou uma senhora mais ao fundo. E a mulher parecia se divertir, dando risadas, piscando o olho para nós, o que os outros, atrás, nem percebiam.

- Não trabalho, não preciso trabalhar mais! — respondeu-lhes.

Num vilarejo intermediário ao nosso destino, tanto meu, quanto da anciã, algumas pessoas desceram, e também a mulher com suas mudas.

D. Maria observou-a e não se conteve. Teve que comentar:

- Onde já se viu? Agora ela desce aqui por causa destas mudas que já viajaram até o centro da cidade. Vai conseguir ir para casa somente com o próximo ônibus, daqui a duas horas!

Quis brincar com D. Maria:

- Acho que não faz mal, afinal, ela disse que não trabalha mais, então, também, não tem mais pressa para chegar!

Então, D. Maria, fitou-me com aqueles olhos azuis, os mesmos que na vinda falaram sem pronunciar palavra:

- Eu não conseguiria ficar sem trabalhar!

Lembrei-me de tê-la encontrado capinando na horta há uma ano. Entrei na sua casa impecavelmente limpa e arrumada. D. Maria, toda envergada, quase com 90 anos. Sim, nunca conseguiria ficar sem trabalhar…