Do nosso preferido:

“ Alguém me conta que chegou o outono, como sempre discretíssimo. Não desembarcou no Galeão nem foi entrevistado e fotografado como vip. Nem dá para perceber que ele está aí. Mas está, e aos que conseguem identificá-lo, esclarece:

— Dizem que sou estação de folhas cadentes, mas também tenho minhas flores abertas. Anêmona, gerânio, ervilha-de-cheiro, amor-perfeito. Preste atenção no amor-perfeito, uma de minhas criações mais refinadas.

— Nosso tempo abomina flores, amigo. Chega a fazer jardim sem elas.

— Eu sei, e isso não será levado a seu crédito no dia em que os tempos forem julgados perante o Eterno. Olhe, o amor-perfeito…

Concordo com o outono, em sua louvação ao amor-perfeito, que não fala apenas a linguagem dos corações, e já seria muito, embora esta linguagem se revele controvertida e feita mais de olhares, gestos e mudez do que de sintagmas. Independente de códigos, o amor-perfeito é expressivo em si. Fala um entendido no assunto, Hermes Moreira de Sousa:

‘Quando bem aberta e de tamanho regular, a flor do amor-perfeito se apresenta como se tivesse um rosto, concorrendo o colorido que possui para exercer efeito apelativo sobre o observador. As flores estão sempre voltadas para a direção de onde provém maior irradiação solar, e o rosto mostra-se como que parado, atento.’

Quem ainda não percebeu a expectativa tensa do amor-perfeito e não lhe captou a atitude moral, não merece cultivá-lo. De resto, poucos o cultivam ainda, como o fazia certa querida parenta minha, em seu jardim de cravos e crisandálias, rosas e flores-de-seda, onde cada pé de flor tinha intimidade com ela, e conversava com a jardineira sem necessidade de recorrer a qualquer linguagem.

Pensée, pansy, heart’s ease, sob esse ou aquele batismo, há sempre o reconhecimento de certa propriedade sensitiva ou reflexiva no amor-perfeito. Não é, não seria nunca simples flor para adorno, anódina, meio boba: tem atitude, comportamento de gente, entre pudico e nobre.

Há quatrocentos anos que se conhece esta flor, e suas representações antigas diferem muito das atuais: tamanho e cor se alteraram pelo trato botânico, que pensa estar modificando a natureza e somente lhe descobre as possibilidades. Receio que as transformações transponham o limite, e alguém venha me pedir que admire o amor-perfeito tamanho gigante, coisa assim na dimensão de página de jornal. Há anos tentava-se produzi-lo na Suíça, como bolo de chocolate. Em 1813, nosso dicionarista Morais registrava “cinco pencas roxas e amarelas”; hoje temos o marrom e o vermelho, e a pauta de tons segue o capricho da arte.

Mas o que me impressiona mesmo no amor-perfeito é o nome. Que responsabilidade, meu filho! Há por aí uma planta chamada amor-de-um-dia, que não carece muito esforço para ser e acontecer, como doidivanas. Outra atende por amor-das-onze-horas, e presume-se como sua vida é folgada. Há também amor-de-vaqueiro, amor-de-hortelão, amor-de-moça, amor-de-negro… muitos amores vegetais, que desempenham função limitada. Mas este aqui não tem área específica, não se dirige a grupo, ocasião, profissão. É absoluto, resume um ideal que vai além do poder das flores e dos seres humanos.

Que sentirá o amor-perfeito, sabendo-se assim nomeado? Que tristeza lhe transfixará o veludo das pétalas, ao sentir que os homens que tal apelação lhe deram não são absolutamente perfeitos em seus amores? Que aquele substantivo, casado a este adjetivo, sugere mais aspiração infrutífera da alma do que modelo identificável no cotidiano? Será talvez por sabê-lo que o amor-perfeito se mostre assim atento e procure obstinadamente, no rumo da claridade, essa perfeição a que se vê compelido e que não consegue ver estampada no coração de homens e mulheres?

A tais perguntas o sóbrio amor-perfeito não responde. O outono, tampouco. Resta o mistério da flor e seu nome, pairando sobre alguns jardins e alguns espíritos preocupados com o lado secreto das coisas. Talvez seja melhor não haver resposta.”

Carlos Drummond de Andrade

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