O mais chato de viver.

O mais chato de estar vivo não é os outros caras vivos em volta, que são sempre muitos, confusos, vai entender esse bando.

O mais chato de estar vivo não é saber que ser solitário é inevitável, mesmo com esses outros caras em volta, chatos e confusos.

O mais chato de estar vivo não é não estar morto, no céu com os anjos, cantando louvores pra um deus de quem você não vê a cara, não sabe quem é, nem se está ouvindo alguma merda de louvor.

O mais chato de estar vivo não é não saber se você está vivo mesmo, se esse negócio de vida não é uma puta enganação que algum filho da puta todo-poderoso enfiou na sua cabeça só pra você sair andando por aí e dar bom dia e boa tarde e boa noite pra esse bando de caras em volta que também acham que estão vivos e que são tão confusos e tão muitos.

O mais chato de estar vivo não é ter que ir pra lá e pra cá, responder a perguntas, preencher formulários, molhar as plantas, fazer comida, dar a descarga, não mijar na borda, mijar na borda e depois limpar, ter dentes, não ser um tubarão, caminhar só pra frente, esquecer que pode ser bom caminhar pra trás, lembrar que caminhos têm ida e volta, e que isso é mentira, tanto faz ir ou voltar, sempre se chega em algum lugar (isso deve ser uma bobagem, mas soou bem).

O mais chato da vida não é não saber a hora do fim. Isso é o menos chato. É emocionante. Tipo uma novela sem autor.

O mais chato da vida não é ficar velho, só inevitável.
Nem ver gatos com fome e não ter comida pra dar pra eles.
Nem ver crianças morrendo e não poder fazer nada, e nem saber onde estão as covas delas, ou se vão subir como anjinhos cheios de asas para o céu (e se as asas são ou não de penas, ou de pele, como a dos morcegos).

O mais chato da vida não é não ter controle das cores que entram nos seus olhos, dos cheiros que invadem o seu nariz, dos sons que enchem os ouvidos e te deixam louco, das coisas que podem estar entre suas mãos e deixá-las pegajosas, melecadas, limpas, nojentas, lindas, branquinhas; dos salgados, doces, podres, amargos e azedos na sua língua, do travo no céu da sua boca, uvas verdes de tantos tempos, de velhos tempos, não foram nunca vinho.

O mais chato de viver não é saber que vai acabar.

O mais chato de viver é não saber como um dia pôde começar.

Maurício Leal.

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