O Fundamental na floresta

terceiro relato sobre às escolas que visitei em SP

A terceira escola visitada foi a Ágora. Um lugar no meio da floresta que tem por princípio manter os portões abertos para que todos se sintam convidados a entrar. A Ágora foi criada pela Terê há mais de 30 anos para ser um espaço de educação sem salas de aula fechadas, sem gritaria e com muito tempo de recreio e artes! O que vi foi a prática de um ensino fundamental precioso, onde crianças experimentam a liberdade de brincar entre as árvores e o contato com educadores inspiradores e potentes.

Cheguei com meu grupo de amigos uma hora antes do agendado. Fui caminhar pela floresta, sentir a natureza viva pulsando sob meus pés. O silêncio. O ar fresco e puro. Os galhos no chão, as folhas caídas, formigas, aranhas… Matéria-bruta ao alcance do coração. Meditei. Agradeci. Que privilégio ser aqui e agora.

O tempo passou voando e já era hora de começar a visita. Quem nos recebeu foi a Elis, e a minha xará Helena que estava em sua barriga. Elis nos mostrou as salas de aula da escola — TODAS sem paredes — o refeitório, a quadra… Contou que lá só tem uma turma por idade, com no máximo 15 alunos e que a escola não abre mão dessa quantidade de crianças por acreditar que só assim podem construir um ensino de qualidade de verdade. Como as salas ficam bem próximas e não tem paredes todos precisam falar baixo — professores e alunos — para não atrapalhar a turma ao lado. Bacana, né? Ela contou que se uma criança está precisando caminhar um pouco, ela levanta, passeia e depois volta. Nos disse também que é comum, por exemplo, um pássaro pousar numa árvore e a aula se transformar a partir desse acontecimento. Enquanto Elis nos contava tudo isso, as crianças estavam no intervalo, brincando por todos os cantos da floresta. Aí eu perguntei: “ Quando for a hora de começar a próxima aula vocês vão chamar as crianças? Toca um sino?” e ela com um sorriso no rosto me respondeu “Você vai ver o sino que toca!”. Eram quase 11h quando as crianças começaram a subir para as salas. Uma, duas, três, outra, e mais outra, e mais outra, e pronto! Já estavam todas de volta. Não teve sino, não teve grito, não teve adulto chamando… Só sei que foi assim. Elas voltaram por conta própria. Juro por Deus! De criança de 6 anos até adolescente de 14. Todos voltaram sozinhos! A Elis disse que no primeiro ano é comum um adulto descer e recuperar uma criança na floresta. E que o educador pede pra criança esquecida olhar em volta e procurar as outras crianças. “Quando não tem mais crianças é porque está na hora de retomar as aulas.” E depois de uns meses todos já se acostumam a olhar em volta e subir quando a floresta esvazia de gente.

Outro fator impressionante foi que durante o intervalo não haviam adultos misturados às crianças. Enquanto elas exploravam a natureza e jogavam bola, os adultos estavam reunidos na sala de professores/secretaria, tomando um lanche e conversando entre eles. Silenciosos, sorridentes e muito acolhedores. Entramos e fomos convidados a lanchar com eles, perguntaram de onde vínhamos, se estávamos gostando da visita. Foi mágico presentear meu olhar com a imagem de uma equipe aparentemente feliz, entrosada e acolhedora. Ponto pra Ágora.

No final da manhã fomos recebidos pela Terê. Que sorte! Ela nos encaminhou à biblioteca e nos doou seu tempo, atenção e ouvidos para responder mil perguntas, contar histórias e de quebra, nos inspirar de montão. A Terê falou tantas coisas preciosas que fico até com pena de escrever e diminuir valiosidade do que ouvi. Mas vamos lá. Ela disse que faz questão de pagar bem todos os educadores e de pagar cada minuto a mais que eles ficam para montar festa, feira, projeto… Disse que não gosta desse papo de fazer por amor (ponto!) e que valorizar a reconhecer a doação da equipe é essencial para o fazer um bom trabalho. (ponto, ponto, ponto!). Ela disse também que não abre mão de ter apenas uma turma de cada idade porque é imprescindível conhecer todas as crianças e suas famílias (milhões de pontos!). Agora me diz, tem como não se apaixonar? Terê também contou do desafio de resistir às pressões que vêm de fora. Hoje ela é valorizada por não ter tecnologia e computadores, por exemplo, mas sofreu muita pressão e perdeu matrículas quando o boom da informática aconteceu e ela escolheu não entrar na onda e seguir sua intuição.

Terê é daquelas pessoas que vale a pena conhecer. Que tem tanta força e verdade em sua fala que não dá nem vontade de ir embora. O que surgiu desse encontro foi a vontade de aprender com ela. Crescer com sua guiança. Expandir o olhar. Ela disse que boa aula é aquela que a gente sai com mais perguntas do que respostas (mil sorrisos nessa hora). E foi assim que sai da minha manhã na Escola Ágora. Com poucas certezas e um milhão de idéias!

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