Há esperança para o ensino público
segundo relato sobre minha visita às escolas de São Paulo
Para quem chegou agora, no mês de agosto visitei sete projetos educacionais no estado de São Paulo e estou escrevendo relatos sobre meu encontro com cada um deles. O primeiro está aqui e fala sobre a Te-Arte. Esse é o segundo relato e vou falar sobre o meu encontro com a EMEF Desembargador Amorim Lima. Vamos a ele!
Cheguei na Amorim Lima sem saber muito o que esperar. Já conhecia sua fama em ter se inspirado na Escola da Ponte e conseguido transformar a prática pedagógica da escola, mas não sabia nada além disso. Fomos recebidos por Lucas, um menino de 11 anos que se pôs a conversar conosco de forma acelerada e atenda. Enquanto esperávamos Ana Elisa, diretora da Amorim, nos atender fiquei a observar o movimento dos alunos: no pátio rolava uma oficina de música, na biblioteca e em outros espaços reuniões dos grupos de responsabilidade, ali, no hall em que estava com meu grupo de amigos, passavam crianças e adolescentes de diversas idades, alguns nos olhavam e seguiam, outros iam direto para seus ofícios. Lucas pediu para ser o nosso guia na visita, mas foi Tábata a escolhida pelo adulto responsável. Lucas poderia nos acompanhar se assim fosse o seu desejo. Tábata está no 5º ano e caminhou conosco por toda escola nos contando um pouquinho do que acontecia em cada espaço. Ao final de sua narrativa ela respondeu nossas perguntas com toda paciência e cuidado. “São quantas crianças por tutor?”, “você gosta da fazer assembléia?”, “quem escolhe os temas da assembléia?”, “você gosta de estudar aqui?”. Foram inúmeras as perguntas que brotaram de dentro de nós durante a apresentação da escola.
A Amorim recebe crianças do 1º ao 9º ano. Todos passam pela Iniciação antes de seguirem para o ciclo I. A iniciação é o momento em que a criança conhece a logística da escola, como funcionam os roteiros de estudos, as tutorias, as oficinas… Após ser alfabetizada nas práticas da escola ele pode seguir sendo protagonista de seu aprendizado. Lá na Amorim cada criança recebe o roteiro de estudos no início do ano e ela tem o ano inteiro para ir completando. São apostilas com temas e perguntas indicando páginas de livros para consulta, textos e materiais que podem auxilia-la a aprender sobre o tema. Quando a criança termina de estudar um tema ela pinta em sua apostila. No fim do ano a meta é ter a apostila toda pintada. Uma vez por semana as crianças se encontram com seus tutores para receberem a ajuda necessária em seus estudos. Além disso as crianças tem os horários das oficinas presos num mural para checar a programação do seu grupo. Ao invés de salas de aula por turma, a escola tem dois salões com muitas carteiras que possibilitam várias rodas de estudo. Andar com a mochila nas costas me pareceu uma rotina da escola. Vi muitas crianças levando o material de uma sala para outra. Tábata nos contou sobre as festas na escola, os grupos de responsabilidade, as votações para temas de projeto e festa e até sobre o incidente com a Oca de índios que havia no quintal. Parece que uns meninos botaram fogo pra chamar atenção dos adultos. O melhor de tudo foi ouvir da direção que menino nessa idade transgride mesmo, que é até sinal de saúde! Nessa hora me deu uma alegria no coração que nem sei explicar. “Eu tô ouvindo isso mesmo ou tô sonhando?”.

Quase no finzinho da nossa visita .. BUM!!! Uma bombinha foi estourada no corredor! E agora? Passa o grupo de meninos e vai conversar com a Ana. Eu e meus amigos nos olhamos e pensamos: adolescente transgride mesmo numa escola tão bacana, né? faz parte! Todos nós já tivemos 13 anos.
Tábata precisou se despedir e seguir para sua oficina. Agradecemos o cuidado e o carinho que ela teve conosco e ficamos sentadinhos bem em frente a secretaria esperado a Ana chamar a gente. Papo vai, papo vem e... podem entrar!! E lá fomos nós rumo a sala da diretora. Pelo corredor espiei as pinturas das crianças com os tipos de flores da nossa fauna.
A Ana Elisa é uma mulher tão simpática, mas tão simpática, que até biscoito maria arranjou pra gente quando percebeu a nossa fome! Ana nos contou como a escola fez a mudança. Descobrimos que sem a ajuda dos pais nada teria sido possível. Que foi o engajamento das famílias que deu a escola o apoio e a força de viver os 7 anos (!!!) de transformação do modelo antigo para o que eles vivem hoje. Ainda hoje muitas famílias atuam de forma direta nas atividades da escola. A secretaria de educação do estado de SP topou o desafio na época e ajudou a financiar todo o projeto de mudança. Foi um trabalho de equipe: Docente da escola + comunidade de pais + secretaria de educação + consultoria da equipe da Ponte + crianças da escola +…. Não foi fácil, mas aconteceu! Ainda bem! E agora está aí para nos inspirar a nos mostrar que é possível.
Me marcou na visita a força e a determinação da Ana Elisa, a graciosidade da Tábata e a inclusão de Lucas. A escola tem mais de 30 alunos de inclusão e eles estão totalmente misturados! Não tem facilitador do lado, não tem turma separada, está junto! Lindo de ver.
Como nem tudo na vida são flores, pudemos ver o quanto é desafiador manter um projeto público com todas as mudanças de governo. A escola já passou por corte de verbas de oficinas, corte de verba de projeto e me parece que a entrega e a confiança da Ana não deixam a peteca cair. Me parece. Talvez esteja sendo absolutamente leviana frente as extremas complexidades de uma gestão escolar municipal.
Me despedi da Amorim com o coração cheio de coragem. Vi que não foi e não é fácil. Mas também vi o olhar da Ana Elisa brilhando ao contar sua história. Vi a liberdade do Lucas. Vi a espontaneidade da Tábata. E tudo isso marcou minha alma. Renovou. Fez valer.