el jardín de al lado
sabia que iria acontecer
eu no chão do trem, mochila no colo
em mãos o livro usado de donoso
que comprei ao acaso na cumming
publicado em 81 pela espanhola seix
a capa, cópia estranha dos amantes
de magritte, sem o beijo
— debaixo do pano, no fundo, era eu.
aquele era o único papel disponível
e no entanto nenhum glamour envolvido:
só queria pingar as saudades
como a epígrafe de constantino cavafis.
quem parte sempre deixa escondido um bilhete
mesmo que não haja nada escrito.
“la ciudad irá en ti siempre”, me consola
e depois atira, certeiro. na minha cara.
desconheço o preciso momento
de sua urgência por regresso.
depois descubro do poeta
sua família grega e morada em istambul.
o mundo não cabe no mundo.
sessenta anos depois de chegar,
foi meu avô quem retornou à baía do egeu
em busca de sobrenomes e pessoas
que estampassem suas largas feições.
até as infelizes coincidências
são melhores que o desencontro, difícil antônimo.
precisar anotar um verso
também não tenho lápis — parece que não tenho nada
me empresta um desconhecido.
o fim da timidez é o começo da estrangeira.
preciso pensar para escutar cada palavra.
não posso perder o verso
não é tudo que tenho, mas parece
parece que registrar é uma via para poder voltar.
