Sobre ir e voltar no tempo

Estava eu em um cine-debate do filme She’s beautiful when she’s angry, o documentário sobre o feminismo dos anos 60 nos EUA, que está agora no (na?) Netflix. Em um determinado momento, o filme fala sobre os debates da época sobre sexualidade, que renderam um livro chamado Our bodies, ouselves. O livro (ou o movimento por trás do livro) foi um marco mesmo, dessas coisas que mostram que tudo mudou ou pode mudar. E então o doc, ao exemplificar o alcance do livro, mostra uma cena de Anos Incríveis com Kevin Arnold e Paul Pfeiffer fuçando escondidos um exemplar (da Karen, a irmã mais velha hippie ativista, é claro), ansiosos por saber mais sobre sexo, corpo e esse frisson todo de garotos pré-adolescentes nos anos 60 sem internet (ainda bem).

Eu me lembrava muito bem desta cena, uma das primeiras que me vêm à cabeça quando penso em Anos Incríveis. O coração ficou quentinho dessa nostalgia estranha (eu que nem sonhava em nascer quando a série foi lançada), junto com um sentimento de descoberta ao saber mais sobre as feministas de antes. Minha ansiedade com o filme, pensando agora, era muito próxima à de Kevin e Paul, todos nós muito novos, querendo descobrir o mundo.

Voltei para casa e demorei uma semana para sacar que a nostalgia me pedia para reassistir a série que me entretia nas tardes que passava naquele apartamento antigo da vovó, quando eu tinha a idade de Winnie Cooper na primeira temporada — os mesmos óculos, aliás.

Achei os episódios e chamei mamãe e Ruli para ver junto comigo. A primeira temporada é muito preciosa. Só tem seis episódios, e assistimos todos de uma vez. Cada um deles mereceu uma breve choradinha, em silêncio. Tem coisa que mexe com a gente. Junta a narração do Kevin adulto, as questãs do Kevin criança, as câmeras que se aproximam e distanciam, o passarinho da introdução de blackbird… pronto. Eu nem gosto tanto assim de narração ou dos Beatles, mas ali se encaixava como uma luva.

Os tempos são muito loucos, os caminhos são vários, crescem o tempo todo, e as dúvidas seguem o crescimento. Whaaaat would you do if i sang out of tune? Quando morre o irmão da Winnie na guerra do Vietnã e todo mundo sente o baque, porque diz respeito a todo aquele subúrbio e a toda a geração. “Winnie não seria mais a mesma, e todos nós também não”, diz algo parecido o Kevin adulto.

Essa semana, muita gente escreveu tópicos para aquela corrente de facebook que pergunta o que você diria se pudesse conversar com você mesma mais nova. Algumas amigas de vinte e poucos anos como eu fizeram da corrente um momento de auto conhecimento e escreveram textos bonitos, fazendo as pazes consigo mesmas. Bom isso, relembrar e se permitir olhar pra trás com os olhos de agora. É praticamente o que acompanhamos na narração de Anos Incríveis. A gente se apega e entende Kevin Arnold e toda a sua família porque já o vemos com toda a nostalgia dele próprio crescido, que é tambem a nostalgia de uma época.

Vi quem pedisse à sua eu do passado que não fizesse alguma coisa, não se apaixonasse por alguém, não bebesse muito e por aí vai. Não consegui recomendar algo do tipo para a minha eu jovem. Não porque eu não me arrependa de nada, porque sou bem insegura, e portanto me arrependo fácil. Mas, nesses casos, não me arrepeeeeendo. Acho que as burradas são parte e que a adolescência é, também, pra ser meio imbecil. Não queria chegar pra mim mesma adolescente e pedisse que não fizesse alguma coisa. Eu adolescente talvez nem quisesse ouvir mesmo, na verdade.

Também vi quem desse os spoilers da vida pro eu adolescente: fulana, você vai em breve encontrar o amor da sua vida durante a graduação; fulana, você vai achar um emprego inusitado e vai trabalhar com jornalismo pra sempre. Até parece. Como se não houvesse toda uma vida pela frente, pra gente preencher com rupturas, surpresas, novas ideias, falhas, tretas y otras cositas más.

Eu não faço a menor ideia de quem seja o amor da minha vida. Não sei de nada sobre meus cinquenta anos. Meus pais só se conheceram aos trinta, não me planejaram com muita antecedência, hoje não dormem mais juntos mas convivem com muto companheirismo. Além disso (já que é o momento dos exemplos), mamãe começou estudando física, largou, se tornou radialista, daí diretora do sindicato, daí tretas mil e aos cinquenta terminou sua segunda graduação em pedagogia. Hoje, dá aulas na rede pública para crianças de seis anos. E papai, até os trinta e tantos, trabalhava em bares e restaurantes em um cargo que ele mesmo inventou. Hoje, aos cinquenta e poucos, trabalha nos fundos de casa, faz reuniões e viaja por aí para fazer os acervos serem acessíveis e a memória ter sentido. De novo, um cargo que ele mesmo inventou. O que faziam aos vinte anos fez parte do processo e foi determinante, mas não foi nenhum ponto final.

Entende? Ainda falta tanto nessa vida. Daqui a vinte anos, nós que temos vinte anos estaremos escrevendo para nossas eus de 2016 e diremos “fulana, lembra aquilo que eu te disse que aconteceria e seria definitivo? então, não me leva a sério no que eu disse não, rolou uma reviravolta aqui e tá tudo diferente do que você achou que era certeza. mas tá tudo bem, juro! segura as pontas por aí!”