como não ganhar dinheiro fazendo o que dava pra ganhar dinheiro

[uma história baseada em fatos ancestrais]

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E você pode ser Deus. Não, você não é artista, não se isolou no Tibet para conceber algo grandioso, não existe grandiosidade em você. Você é uma pessoa normal que conserta coisas com facas porque não tem chave estrela; faz caixas de papel porque embalagens são vendidas no centro da cidade e você não tem muito tempo para ir até o centro da cidade e o aniversário da sua amiga é hoje e seria massa embrulhar umas coisinhas numa embalagem pelo menos ok; escreve em bloquinhos pedaços de poesia, trechos de música e complementos de observação; faz mapas para que outras pessoas entendam como chega naquele bar de esquina lá na rua das veredas; transforma restos de geladeira em gratinado; ou seja, você cria. Você faz coisas que tem valor, ainda que valor comercial não tenha.

Eu gosto do modo como Austin Kleon estreita o limite conceitual entre fazer, produzir e criar. Fazer é cotidiano, inerente e necessário. As pessoas fazem sexo, por exemplo. Produzir é atribuir sentido ao fazer, um conjunto de ações que contribuem para a concepção de algo palpável, real e até então inexistente. Um álbum é produzido, um evento, resmas de papel. Criar, então é soma dos dois últimos: quem produz está criando e fazendo e quem está criando está produzindo e fazendo, mas não é sempre que fazer leva à criação ou à produção. Depende do grau de atenção, do nível de tesão e da existência da transformação. Ao criar, existe esse túnel por onde aprendizado, frustração, insights, e toda sorte de eventos mudam completamente aquilo que está sendo criado e aquele que está criando. Uma relação dialética mesmo. Produzir pode conter partes do criar, mas é mais recorrente que na produção se deixe levar pela repetição, serialização e capitalização. A criação independe de um mercado, apesar de poder existir nele, dependendo, claro, de uma série de fatores. A criação deve existir primeiro para aquele que cria, que na sua agonia, na sua inquietude, na sua pressa, urgência e necessidade concebe para contemplar a própria paz de espírito após o descarrego e transposição de ideia para o plano real. A produção tem um objetivo, um cliente, um preço, um valor balanceado pela concorrência, etc, a produção é condição para o capitalismo. A criação é condição para a subjetividade e para a distinção entre massas e indivíduos.

Basicamente todas as coisas que são criadas por nós, reles mortais, podem e têm um enorme potencial de capitalização. Mas ao capitalizar, estamos produzindo, criando produtos que são moldados pela necessidade alheia, que não é bem a sua: a sua deve ser provavelmente ganhar dinheiro e tentar mais ou menos não se trair, embora a traição já exista se não é o caso para você essa coisa toda capitalista. Então, esse ciclo frustrante entre criar e se manter fiel a si ao passo que existem contas para pagar que não esperam por inspiração, lealdade entre você e você mesmo e o que você acha sobre isso.

Eu digo isso porque ano passado eu li o melhor texto sobre criar, que coincidiu no momento em que eu pensava não ser possível simplesmente criar e ganhar dinheiro e ficar de boas com isso. Mas basicamente é possível se existir organização, obsessão, iniciativa, interesse e persistência. Não é dinheiro para sair pelo mundo sem se preocupar com limite de cartão de crédito, não é dinheiro que dá pra comprar impulsivamente sem pensar na possibilidade de ter o nome na serasa, não é dinheiro que não seja revertido em material de criação, não é dinheiro de funcionário público, resumindo. Mas quando se cria meio que dinheiro é importante mas não é empecilho para que se pare de criar, porque a paz de espírito já é pagamento transcendental que capitalismo nenhum consegue dar conta.

Eu estou meio que dizendo isso pra mim mesma porque eu estou bem longe de capitalizar meu espírito inquieto que recai sobre um tipo de criação que eu mesma nem sei da qual é. Mas que existe esporadicamente e só isso já descarrega um peso enorme de existir sobre um plano onde o que mais existem são coisas-produtos pré-estabelecidas que realizam uma dinâmica de estupro e não-escolha sobre a vida como um todo, ou sobre a vida que penso ser legal levar. Mas as coisas todas que me movem e que adicionam-se à minha formação cultural, social e política são evidentemente contempladas nas vezes que eu decido que hoje é dia de escrever, que agora é hora de rabiscar, que daqui a pouco é hora de fazer um feijão. E que as vezes em que eu como um feijão que eu fiz e ficou foda, que eu vejo que até que tem graça os bonequinhos de palito e que aquilo que eu escrevo dialoga com o que eu penso e eu me vejo ali sendo o que eu posso ser e o que eu sou, nossa, dá um alívio, dá um remelexo na alma, dá vontade de simplesmente sair de bicicleta ouvindo Goo.

É isso: a capitalização pode existir, mas ela não é obrigatória. Antes disso é importante se atentar às próprias capacidades e trabalha-las conforme nossas vontades e ir fazendo espontaneamente, testando, errando, e principalmente: errando. Gozando.

Gosto também do jeito como na verdade os mecenas todos eles meio que ajudaram artistas, em graus maiores ou insignificantes de ajuda, porque os artistas queriam mesmo ficar detidos nos seus próprios mundos e os mecenas descarregavam suas culpas por não serem eles os artistas através de doações e como essas mesmas doações colocaram muitos artistas na posição de se sentirem obrigados a satisfazerem mecenas e no final ficavam frustrados artistas e mecenas e como isso é de uma enorme lição de moral e de amor próprio para toda vez que se pensar em se vender sem equiparar o próprio valor com aquele proposto pelo mercado. Mas é possível sim, claro, capitalizar ideias, talentos, abordagens, grafismos, músicas. Depende, e gosto disso, do nosso grau de atenção e de desprendimento para se encontrar e se perder, sentir medo, ter recaídas, crises mas sair na mesma ponta de faca: só quem tem urgência para criar sabe da urgência que tem, e só quem sabe o quão é ruim não ter tempo para criar porque se está trabalhando em um emprego bem nada a ver sabe que essa urgência pode ser capitalizada.

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