erro

Curioso como se tem falado muito sobre o “erro”. Se antes ele era colocado como inaceitável, intransponível frente de concreto contra a qual esmurrava o repetitivo behaviourismo, hoje o erro contracena com as narrativas de recentes álbuns, de recentes exposições.

Em agosto desse ano, esteve exposto no Museu Mineiro, obras manuais de Júlia Panadés. São vestidos costurados à mão, a apresentação da exposição feita quase como se fosse um lambe conceitual, e processos, processos, para que “Ela, a linha”, pudesse se colocar como algo com a qual as pessoas se vissem integradas, entregues ao conforto de que as linhas soltam, de que a caneta não acompanha o fluxo do nosso pensamento e que os rabiscados da tentativa de apagar o erro estão visíveis no que compõe a obra. O erro contemplado como um elemento constitutivo da nossa formação, contra o qual podemos esconder, escapar, fingir, negar, se quisermos, não sendo mais verdadeiros com aquilo que inevitavelmente nos tornaremos.

Em certo cartão, diz Júlia assim: “Para além do funcionamento pleno, o fracasso também é um modo de ir”.

No álbum de Sandy Alê, tem uma música que se chama o Cheiro e a Flor. Nela, Sandy diz assim: “vou dar um grau no incerto, quanto mais eu erro, mais eu tento acertar”. A música foi lançada dia desses, 2015 no máximo.

Eu não saberia dizer se todas as pessoas que resolveram colocar esse tal de “erro” como um emblema para o qual se curva um abraço, na tentativa de se salvar, de se isentar da culpa, aliviando sua existência aceitando, contornando, tem consciência de que o fazem.

O fato é de que para quem quer que seja, o erro é trajeto certo que leva para Roma como queria César, ou para a venda, como ejecta Graciliano. Os contornos que o erro traça são também, por assim dizer, os elementos constitutivos daquilo que entendemos por contingência.

Em livro recente de Bernardo Carvalho, de 2013, Reprodução, a narrativa é colocada nesse tema, e é tratado por uma advogada niilista, que coloca mais ou menos assim: o erro é o que nos salva da reprodução. Reprodução, essa palavra multi uso, que serve à vários campos semânticos. Imaginem que um discurso esquecido, sob o erro de colocação de uma palavra, já retira a reprodução do seu lugar de conforto. Na repetição aparece a diferença, essa diferença é o erro.

Em ep de Paola Rodrigues, o mais recente, Wifi ❤, o erro é colocado como protagonista. Faz parte do modo, da conduta em que se fiam as narrativas de eterna perseguição de entendimento das coisas, e de que lugar confortável é sozinho, onde o erro não está sendo observado, colocado como erro, no lugar do erro-de-ser, e comparado ao que é entendido como certo.

Penso eu que essa nova disposição de olhar sobre o erro, e entendê-lo como um lugar-comum, não é coisa recente-recente, porque dentre tantas coisas, o Construtivismo existe para minimizar o impacto de deslocamento das crianças de suas experiências quando colocadas frente à seus erros como erros. Mas o erro em meio à músicas, exposições, livros, não vejo que isso possa se distanciar em mais de quatro anos para cá.

Também observando como se colocam muitos artistas, ilustradores, escritores, compositores, frente a esse “erro”, observo que eles o tratam como se a partir dele se tivesse obtido a chave para muitas peristalses na composição de suas obras.

O que mais me chamou a atenção foi quando no festival traço, em agosto também, em algum lugar na savassi, em BH, Lovelove6 desenhou enquanto Sara não Tem Nome cantava, e desenhava de modo a rasgar alguns papeis, a apagar alguns desenhos, a contornar com outras formas alguns princípios de ilustração, a retomar coisas deixadas de lado. Como se parar, guardar, lembrar, retomar, errar, achar horrível, fosse aquilo que deve ser mostrado, ao invés da plasticidade inerente que carrega toda obra pronta.

Isso me leva a pensar que é de uma enorme consideração para os “leitores”, saber COMO alguém chegou a tal ideia vendo essa transfiguração entre ideia e realização sendo formulada. E também deve representar um enorme alívio para aqueles que se sentem levados por instintos de se principiar em mundos fantasiosos e lúdicos, sem se sentirem pressionados pelos exemplos de que bonito é preciosismo de técnicas extravagantes e feio é essa tentativa de desenho em guardanapo em mesas de bar.

Penso que um novo “modelo” de produção que considere esse tal erro como aquilo para o qual se projetam todas as tentativas de superação, alçando finalmente a firmeza de uma mão não titubeante, de um pensamento mais claro, e de uma organização mais orgânica e honesta consigo mesmo/a depende também do reconhecimento do erro e de suas causas. Sem isso, a frustração segue um percurso pleno e satisfatório dela mesma, cujo gozo é amassar o papel e desistir.

Percebo que nas músicas, no livro e na exposição, existe esse entendimento do erro, as causas são variáveis, erra-se porque erra-se, porque existem jet lags no cognitivo e isso tudo não passa na fina peneira de que nos fazemos humanos, afinal, errar não é muito coisa de máquina, ainda que seja, mas nesse caso, representa prejuízo. Ao contrário, o erro humano em humanos, tornam os mesmos cientes de seus limites enquanto sujeitos de ação, e pouco a pouco superam suas próprias barreiras, e aceitando que os próprios erros podem ser contornáveis, e quando não, podem ser colocados na parede como um fator que contribui de alguma forma para a composição de sua história.

Esteticamente, a indumentária do erro são construídas de modo menos claro, pelas narrativas escritas é muito mais fácil identificar quando se trata do erro, de falar dele. Mas observo que nesse clipezinho da Céu, que foi colocado acima, esses freezes da imagem, representa tudo que não queremos no vídeo. Representa o erro de funcionamento do driver que lida com o peso de 20 abas abertas, pacotes adobe em pleno funcionamento e vídeos em full HD no VLC. Aí trava, lógico, porque o erro também vem de sobrepeso. Identificar que o erro tem sua importância numa tal formação do ser, isso vem como contrapeso, acredito.

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