Gênesis do Gênero Lombrinha

arqueologia da água que bebem Alt-J, The XX, Grimes, Jamie XX, etc

Persona. Ingmar Bergman

Existe essa palavra-chave para entender trajetórias de alguns gêneros da música hoje: Pós-Contemporaneidade. Alguns autores avaliam como um dos sintomas desse evento teórico a fragmentação do sujeito (por sinal, o primeiro evento teórico que antecipa, preenche e superinterpreta os eventos reais). De alguma forma, Bauman, Deleuze, Guatarri, Derrida, incluindo Foucault colocam à luz antigos valores circunscritos no nosso entendimento sobre arte, amor e comportamento patrocinados por revoluções ali no começo do século XIX, XX e XXI. Inauguram, assim, um apelo teórico altamente reverberante. A força motriz para tal sucesso é o reconhecimento de um novo sujeito moderno, despido de uma uni-identidade, que, viabilizado ou induzido a novas condições de trabalho, é autorizado a encontrar novas formas de se alocar nesse mundo fluido pelo movimento performático da modernidade, inconstante pela retomada de todas as forças subjetivas, e como consequência desta, reafirma-se enquanto o sujeito do discurso, da ação, do efeito, do uso a partir de suas múltiplas-identidades.

A fragmentação do sujeito está autorizada a acontecer mais ou menos quando novas condições de trabalho são impostas ou viabilizadas. O pós-guerra autoriza novas perspectivas de trabalho que ainda atendem demandas das reminiscências dos poderes bélicos, mas há uma sístole significativa do assujeitamento quando o movimento possibilitado pela urgência de inovações tecnológicas é entendido como algo potencialmente danoso. A carga tributária da energia gasta para se gerar movimento é muito maior do que a recompensa desse deslocamento, iluminaram-se. Essa consciência perpassou a música sobretudo nos anos 60, 70. Os anos 80 chutaram o pau da barraca e desde então, com algumas nuances heterogêneas, o movimento do sujeito (suas performances, o teatro onde expõe suas fraquezas e forças) é alegoria dele mesmo, o reencontro, reconhecimento e re-entendimento positivo do narcisismo.

Essa fragmentação do sujeito recai sobre todas as esferas que nos dizem respeito. O efeito mais perceptível está na nova concepção de família e deslocamento da força principal. A mulher assume novas frentes, o homem mais frentes ainda, a quantidade de filhos, pesos, medidas e responsabilidades morais sofrem sístoles, e essa suposta libertação pela contração inaugura um novo espaço a ser preenchido pela subjetividade. O sujeito não precisa ser e nunca foi, mas só agora temos dados para isso, necessariamente, o mesmo que rega as plantas do jardim de sua bela casa, o que tem um único emprego a vida inteira, e que suas escolhas são premeditadas na unidade um até que suas capacidade vitais não deem mais conta. O sujeito moderno nunca deu conta dessa conjuntura unitária, e assumindo isso, é capaz de escolher (porque esse movimento abre novos caminhos) novas perspectivas e delas se absorvem novos valores que se confrontam fatalmente com aqueles que circunscreviam o mundo de Platão e Aristóteles.

Os novos espaços conquistados por novas ferramentas, e por tabela, tecnologias realoca o sujeito e o apresenta a uma realidade virtual. Se ele já sofria com as crises disjuntivas de sua identidade, agora ele tem não só o amplo espectro da realidade para performar, passear e absorver, como possui as milhares de abas possíveis em redutos, guetos de significações, estilos de vida, e teatros totalmente projetados pela inevitável realidade.

O século XIX também autoriza com prévias assinaturas do século anterior a massificação de produções, produtos e conhecimento. A internet quando vem, só endossa os efeitos dessa abertura. Um deles é a morte do autor. Barthes não queria que essa expressão ficasse presa à literatura, então é justo que apliquemos isso para muito além dela.

A morte do autor é sinônimo de sujeito fragmentado. Sua performance multi-identitária dá fim à noção que tínhamos de autoria. O autor sofre com várias mudanças:

a) A revalorização, a possibilidade de muitos poderem valorizar sua arte, coisa vista como desvalorização por alguns puristas, a partir do momento que ela deixa de ser una em tela, para poder ser impressa em novos formatos, dimensões e qualidades gráficas.

b) A recente força da subjetividade encontrou suporte, a internet, lugar em que todos, absolutamente todos, não só podem como já são autores.

c) Se antes a distância em que se colocava ou o colocavam o autor de uma dada obra do leitor era imensa, essas fronteiras hoje se estreitam cada vez mais. Não somente porque nosso vizinho é autor de algo, mas principalmente porque com a massificação e deslocamento desse valor específico dado à Arte, e com a subjetividade e subjetivismos à toda eletricidade, nós, ao lermos, vermos e escutarmos algo, estamos mudando para a economia de todas as nossas prévias referências, nos tornando autores de uma autoria dada. Prova disso, é a internet brasileira, em que os memes se transfiguram, se re-significam e tomam novas mídias.

O último item só foi levado em consideração há pouco tempo, porque é certo que a massiva democratização dos meios para se produzir não foi e ainda não é bem aceito, ainda que sua naturalização esteja caminhando para reverter isso. As forças de poder tentam enlaçar-se sob valores antigos mas travestidos pelo novo. Deleuze ensaia os perigos dessa euforia do NOVO, INÉDITO, MOVIMENTO, DESCONSTRUÇÃO, ao dizer que a repetição perpassa todos os fenômenos (climáticos, sociais, comportamentais), e disso se vale nossa memória e nossa sobrevivência, e que dessa repetição focos de diferenciação são identificadas, porque o locus, ethos e tudo mais que descreva circunstância é levado em conta.

Algumas ressalvas nessa humilde genealogia dessa suposta pós-contemporaneidade precisam ser feitas, senão tudo pareceria megalomaníaco e poderíamos sair agora entendidos de que somos incríveis, quando na bem da verdade, sempre no nosso sempre a mesma ausência.

Podemos captar elementos desse momento específico que começa, na teoria, ali na década de 50 com os franceses queridos que ilustram nossos argumentos seja aqui nesse post, seja nas batalhas de ego das universidades. Na vida real, nosso corpo ainda é histórico e não é tão fácil assim se despir de anos educados por mitologias, dicotomias e ideologias do pensamento alemão do século XIX. As múltiplas identidades, o sujeito que flui, parece lindo, uma varanda suspensa, mas isso resultou numa crise que gerou o movimento contrário. Por isso dizer que as teorias pós-contemporâneas antecipam para além daquilo que é nossa realidade. O rock e seus infinitos gêneros, mas principalmente o punk, nos anos 70, se bloquearam para um movimento que poderia eventualmente misturá-los a outros gêneros. Suas denúncias que lhes diziam respeito, a negação de valores com refrões como “I can’t”, “I don’t”, “I won’t”, o tornaram sorumbáticos o suficiente para manter uma pureza e construção de algo uno, uma identidade específica que não deveria ser corrompida. Confesso não saber se eventualmente foi corrompida essa imagem que o próprio punk queria dele mesmo sendo algo coerente com suas nuances próprias. Mas me utilizando de algo que um amigo me disse, existe lugares na música que se institucionalizaram tanto, fizeram tanta questão de protocolar e cunhar suas características fundamentais e genuínas, que algo como “repetição e diferença” não faria o menor sentido para esse exemplo. Seria a repetição por ela mesma, a serialização, o idêntico, ele nele mesmo. Esse fenômeno não teria nada de pós-contemporâneo, ainda que o movimento punk tenha existido a partir dos anos 70, separado em vinte anos a inauguração da pós-contemporaneidade nas letras.

Isso ilustra apenas um pouco, pouquíssimo, de como a teoria não acompanha em nada a prática, apenas dá condições de seu discurso. Porque até hoje existem não só movimentos musicais, mas movimentos de todas as espécies (sobretudo na estratosfera dos acontecimentos, o movimento sobre identidade de gênero), que tentam ter para si uma identidade fixa e intransponível à despeito de todos os esforços de Bauman.

O sujeito punk entendeu, no entanto, muito cedo, eu diria, os danos de cair nesse movimento moderno, porque isso acabaria por colapsar nossos corpos, totalmente inaptos para uma abertura de século como foi o XIX. Não só entendeu os possíveis danos, como potencializou sua negatividade. Reforçou os limites do sujeito para que este pudesse negar a indução em massa por uma nova era de promessas patrocinadas por aquilo que os anos sessenta era determinadamente contra, a guerra. E vejam vocês, na tentativa e no sucesso fonográfico de uma anti-cultura, eles se viram fechados em sua própria construção, revelando uma performance dual: a resistência pelo novo enquanto propagavam uma nova forma de resistir a esse novo. Disso se valem os beats na literatura também. E parte do fenômeno anti-cultural.

É bom que não nos iludamos com essas promessas das múltiplas escolhas, porque ainda que possamos efetivamente ser o que quisermos, e somos, em grande medida ainda, aquilo que trabalhamos, os milhares de caminhos nos deixam confusos, e a modernidade não nos proveu de coragem o suficiente para abrirmos mão de toda uma conjuntura do medo e do bloqueio, então nossas margens de segurança ainda são parecidas com aquelas que nossos pais e nossos avós se apoiavam. Por isso, é tão difícil entender mesmo, com nossas experiências o efetivo significado e uso dessa liberdade que nos foi dada como uma das consequências de um movimento mais rápido e virtual. Mas ainda que tenhamos mais e melhor, ainda existimos sobre rodas, sobre pés, e sobre suportes, que nos encaminham, mas também nos limitam — o conteúdo não pode se despir de uma forma condutora. E é dessa consciência que deveria se valer as teorias pós-contemporâneas. E é desse refluxo que vivem as pessoas: uma má digestão do entendimento sobre o seu tempo multi-facetado ao passo de que nos supermercados, esse é o produto mais acessível. Afinal a dialética atual é um pouco isso: o gourmet em versões populares e o popular em versões gourmet, e esses nomes retiram o valor real daquilo que estamos ingerindo, e uma das máquinas propulsoras disso é esse lugar que ocupa a consciência do moderno e do pós.

Por último, não é incrível, ou ao menos paradoxal, que a fragmentação do sujeito tenha viabilizado de modo mais efetivo (de novo, não sem a internet) suas produções? Como algo desconfigurado, multi-rostificado e fluido pode dar origem a mais conteúdos tão coerentes e sensíveis ao seu meio e tempo? Deleuze foi muito pontual em ensaiar sobre as potências, que são várias e de variadas naturezas, e que cada uma delas tem capacidade e habilidades próprias para gerar algo, o que corrompe um esforço teórico que vinha de antes: de que era a unidade que fazia a força, resumidamente. A identidade enquanto algo a ser mantida, porque a verdade não poderia ser traída são concepções que hoje existem em retração, embora nós apuremos mais ou menos conforme nossas próprias histórias e realidades sociais, lembremos.

No âmbito da música, esse fenômeno é muito claro: o artista tem a possibilidade de experimentar muito mais, não só tecnicamente falando, mas principalmente pode se isentar de ser entendido enquanto autor, o que concede uma liberdade até então inexistente. Assumir vários pseudônimos e dar a cada um desses rostos uma performance diferente. David Bowie é a prova viva disso: cada um dos seus álbuns é uma tentativa de desconfigurar o que veio antes, como se ele negasse essa unidade ao extremo de si mesmo. Antes de isso ser sintomático com a modernidade, isso faz parte de sua personalidade e seu modo de lidar e conceber música. A tal da subjetividade como um valor acima de outros valores, em que ele se torna autor dele mesmo, criando personas e personagens que podem ou não se comunicar. E que por sua vez, David Bowie sente e reflui temas, estruturas e musicalidade conforme as condições que seu meio proveio, muito embora se lerá em alguma biografia sua sobre isso de ele ser além de seu tempo.

Eu acho interessante como o futuro é esse lugar que admite a qualidade de muitos artistas, sendo que esse mesmo futuro não existe, ele é uma lacuna que preenchemos com elementos atuais e reminiscências passadas. Como as teorias a cerca da pós-contemporaneidade se tornaram experts em preencher.

Notas:

Eu entrei nesse preâmbulo pra identificar os pontos em comum de algumas bandas que me intrigam e sobre os quais eu vou tratar na segunda parte desse grande texto. Performa-se aqui uma vontade, acima de tudo, de expor reflexões que eu tive e venho ruminando sobre o modo como criam artistas como Alt-J, Jamie XX, The XX, The Knife, Blank Banshee, Glass Animals e outros tantos, outros vários. O ponto em comum para todas esses grupos é, adiantando o que vai ser o objeto do próximo texto, a fragmentação do gênero musical à favor dele mesmo, dialogando com aquilo que entendemos de moderno e de pós-moderno.

É bom que se saiba que nada disso daqui tem a pretensão de estar certo e de ser verdadeiro, mas me comprometi com uma verossimilhança. E que se alguém quiser e se dispuser a acrescentar, negar, discordar, enfim, qualquer coisa que esteja circunscrito nesse texto e para além dele, por favor, que o faça, porque não sou mais autora desse texto.

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