Seja bem vindo

E olha aí você… Quem diria hein? Você, justo você… A selfie até que ficou boa. A Paulista está realmente bonita. E essa bicicleta aí, é nova? É mesmo inacreditável… Você, justo você. Quem diria…
Você que há cinco anos atrás me mandava ir pedalar na Europa. Lembra?
Você que não resistia em me jogar para fora da via, gritando da janela que ali era um lugar só para os carros. Você que me mandava ir para a calçada. Você que me tirava finas sem qualquer necessidade. Afinal a pista do lado estava vazia…Você que acelerava sem se preocupar se aquilo me tirava o equilíbrio.Você que me ultrapassava com fúria só para chegar no sinal vermelho antes…E quando você me chamava de ativista? Lembra? Ahhhh esses ciclistas! Quanto estorvo!! Porque eles não compram um carro? Você que dizia que bicicleta era coisa de pobre, como se ser pobre fosse algo que não é digno. Porque digno mesmo era gastar a metade do seu décimo terceiro só no IPVA… E você fazia isso com muito orgulho.
Você que nunca me deu a preferência. Você que não sabendo o quê fazer, inventava um novo Código de Trânsito e reclamava pela milésima vez sobre a falta do meu capacete… Olha aí você. Tirando selfie com a sua bike nova na Paulista. Você. É com você mesmo que eu estou falando. E por favor não levante a voz. Nem o dedo. Porque isso aqui é uma conversa e agora você também vai ter que me escutar. E eu tenho algumas coisas para lhe dizer também. Algumas coisas que estão na garganta já, há uns anos…
A primeira delas é “seja bem-vindo”. Espero que a bicicleta seja para você um veículo de transformação, assim como ela é para mim. E que você seja capaz de redescobrir sua própria cidade. Saiba que ela também é sua e trate dela com mais carinho e menos individualismo.Que você descubra espaços antes invisíveis. Que você entenda que as distâncias ao final não eram tão distantes assim. E que no caminho há uma série de surpresas. Eu desejo que você sorria ao perceber que os velhinhos passam perfume para levar seus cachorros para passear. E são muitos velhinhos que fazem isso e você nem sabia. Desejo que você saiba o que é parar no sinal sem fechar os vidros, sem travar as portas e olhar no olho do flanelinha para lhe dizer “bom dia”. Você não vai crer o quanto isso lhe deixará feliz e a ele também. Espero que você compreenda que com as suas próprias pernas você pode chegar ao trabalho, a um outro bairro, a uma nova vida. Espero que você se encante por chegar aos lugares sem ter que procurar por uma vaga para estacionar, porque o próximo poste é logo ali. Espero que você fique doido com os cheiros da cidade, como eu fico. E se encante com os ipês que enfeitam o asfalto grudando também no seu pneu. Espero que você seja mais livre sentindo o vento, a chuva ou o frio. E também se descubra mais vulnerável. Espero que se sinta feliz aprendendo sobre as partes do seu corpo que mais suam. Espero que você sinta suas pernas mais fortes, seu peito mais aberto, sua vida com mais disposição. Espero que você esqueça a sensação de esmurrar a buzina no próximo congestionamento. Espero que você descubra que finalmente você vai poder chegar na hora! Bem-vindo a um mundo que flui. Que passa. E que é lindo. Bem-vindo a uma vida em movimento!
Eu sei que você não vai gostar de ouvir isso. Vai levantar a sobrancelha com desdém e vai me responder “mas eu não andava de bicicleta porque não era seguro. Porque não tinha ciclovia…”
Mas tudo bem. Com a maior paciência do mundo, eu vou deixar você agir como um mimado para depois te contar um segredo. Não é ciclovia que deixa seguro, meu querido. É respeito. Respeito.