Sou cristão e não voto em Bolsonaro — 10 motivos

Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Nos últimos dias, um vídeo sobre aborto produzido por um teólogo youtuber e o lamentável ataque sofrido por Bolsonaro repercutiram fortemente nos círculos cristãos. Repentinamente, na mente de muitos (muitos mesmo!), ser discípulo de Jesus passou a ter um novo e indispensável requisito: votar em Bolsonaro. Igrejas, associações, líderes e pessoas comuns, clara ou sutilmente, têm constrangido vários com esse posicionamento. Uma obtusidade política que eu nunca tinha presenciado na igreja. Em momentos complicados, premissas básicas precisam ser relembradas. Primeiro: o voto é livre e individual. Segundo e mais importante: ser cristão não te obriga a votar em Bolsonaro.

Se você está se sentindo acuado nesse cenário, apresento dez motivos pelos quais eu, mesmo sendo cristão, não voto no candidato:

1 — O episódio da faca é triste, mas não deve ser nosso critério de escolha

Não há nada que justifique o ataque à faca que Bolsonaro sofreu. Isso é repugnante e lamentável. Você deve orar pelo candidato e desejar a plena recuperação dele. Mas essa empatia não deve ser o fator levado em conta no momento da sua escolha. Na verdade, estamos vivendo um contexto de polarização radical e o país precisa ser reconciliado. Você acha que os melhores nomes para trazer paz ao Brasil são justamente os que estão nos extremos dessa disputa? A engrenagem de ódio e polarização no nosso país está se tornando perigosa e nessa hora faz mais sentido usar a moderação e o bom senso. Candidatos que têm o histórico de não lidar bem com ideias divergentes não parecem ter a condição de reunificar o país.

2 — Ele não é o candidato de Deus

Desconfie de todo candidato que se apresenta (ou é apresentado) como o escolhido, o ungido, o único abnegado que trava a luta do bem contra o mal. Isso tira a disputa do mundo real e só serve para acirrar o contexto de polarização, desviando o foco das questões importantes. Não se preocupe, Deus não precisa do seu voto para colocar alguém no poder se isso realmente for da vontade Dele. Tampouco ele vai te castigar se você escolher um candidato com base na racionalidade, visto que não existe nenhuma revelação específica para as eleições do Brasil em 2018. Nossa única regra de fé e prática deve ser a Bíblia, lembra? Há 13 candidatos à presidência da república, com estilos e ideias bastante diferentes. Conheça a história e as propostas de todos eles e escolha o seu livremente, com base na sua consciência e em todos os princípios que norteiam a sua vida.

3 — A esquerda não é necessariamente do mal

Parece que tudo de errado no país hoje é culpa da “esquerda”. Mas você, como cristão, sabe que o problema do mundo se resume a uma palavra: pecado. Esquerda, direita, qualquer ideologia vai carregar características ruins, oriundas justamente do pecado que está na mente e no coração de cada ser humano. Mas também é verdade que cada indivíduo consegue apresentar traços de bondade originais da criação, mantidos pela graça comum. Se você acha que toda esquerda é comunista ou socialista, comete um grande erro. Esquece-se que foram ideias mais à esquerda que criaram os sistemas de previdência e saúde pública, por exemplo. Nomes como Martin Luther King e Nelson Mandela seriam hoje associados à esquerda. Os países com maior qualidade de vida no mundo (Suécia, Dinamarca, Noruega) seguem ideais construídos com base na social-democracia (de esquerda, portanto), que mistura a liberdade de ideias com preocupação social.

4 — Essa eleição tá cheia de Fake News

As redes sociais nos permitem receber e compartilhar informação o tempo todo. Muito do conteúdo que recebemos nos choca e nos preocupa bastante. Nossa reação natural é repassar rapidamente para as pessoas de quem gostamos. O problema é que grande parte dessas informações não são verdadeiras. As eleições desse ano estão repletas de boatos e mentiras sobre todos os candidatos. A campanha de Bolsonaro, que tem bastante força na internet, tem sido uma grande fabricante de desinformações desse tipo. A bem da verdade, é necessário dizer que o candidato também é alvo de muitas mentiras. O fato é: eu não posso basear meu voto nesse tipo de informação. Portanto, antes de acreditar num boato ou encaminhar mensagens de origem duvidosa, se informe sobre os fatos como realmente são. O cristão não pode ter compromisso com a mentira, nem levantar falso testemunho contra quem quer que seja, ainda que contra o candidato que você não gosta. Jogue limpo nas eleições, esse é o seu dever.

5 — O presidente não pode tudo

Eu sou definitivamente contra o aborto e ainda assim não voto em Bolsonaro. Primeiro, porque não é verdade que todos os outros candidatos estão ansiosos para assumir o poder e no dia seguinte liberar o aborto irrestritamente, como a narrativa tem feito parecer. Há vários postulantes nas chapas presidenciais contrários ao aborto. Segundo, porque é uma mentira a ideia de que o presidente pode barrar definitivamente o aborto ou qualquer outra pauta que ofenda nossa moral. A ideia, presente no imaginário popular, de que o presidente pode impedir isso é falsa. Mais eficaz, para esse fim, é escolher deputados e senadores que sejam contra esses assuntos. E mesmo assim é possível que isso não seja definitivo. O STF, por exemplo, está em via de julgar a legalidade do aborto em determinadas circunstâncias. Sabe qual a influência que o presidente terá nesse assunto? Nenhuma. O problema é que nós, cristãos, temos nos acostumado a acreditar em salvadores da pátria, que façam o trabalho por nós, enquanto somos completamente irrelevantes nos espaços adequados à defesa racional e profunda dos nossos valores. Se esse for seu único critério, você corre o risco de ao final ter o aborto legalizado e um presidente sem capacidade para o cargo.

6 — Ele não é competente

Não se engane, a principal tarefa do presidente da república será lidar com o desemprego, com o problema das contas do governo, com a questão da previdência e tantos outros problemas reais. Isso requer experiência e habilidade na gestão. Você pode achar que não, mas isso tem bastante influência sobre sua vida. Bolsonaro tem sido deputado por mais de 20 anos e não tem nenhum projeto, ideia ou iniciativa relevante para o país. Antes de ser deputado, militou no exército e foi avaliado por superiores como alguém de inteligência limitada e ambição perigosa. Mesmo a equipe de um eventual governo dele pode não suprir as lacunas do candidato. As ideias de Paulo Guedes, já anunciado como Ministro da Fazenda no governo Bolsonaro, nunca foram testadas em nenhum lugar do mundo. Até economistas de direita afirmam que esses planos são perigosos ou fantasiosos e não produzirão o efeito prometido.

7 — Cadê o amor?

Alguém que já falou que fuzilaria adversários, que desejou que uma oponente morresse de câncer ou infarto, que exprime ideias reprováveis sobre mulheres, negros, homossexuais, que advoga a tese de que bandido bom é bandido morto, que festeja torturadores e tantos outros absurdos, no meu entender, não reproduz, nem nos discursos, o amor que se espera de um cristão. Verdade sem amor é estupidez. Como agirá com o poder em mãos?

8 — Há um risco real à democracia

Bolsonaro já demonstrou vontade de alterar a composição do Supremo Tribunal Federal. Em entrevista à Globo News, o General Mourão, vice na chapa, admitiu a hipótese de o eventual presidente, com o apoio das Forças Armadas, aplicar um autogolpe, reduzindo ou eliminando o papel dos demais poderes. Uma possibilidade que guarda semelhanças com o que ocorreu na… Venezuela. Percebe a ironia?

9 — Defensor da família?

Ok, esse ponto é um pouco constrangedor, mas eu acredito que tem certa relevância. Bolsonaro já casou três vezes. Se orgulha de ter quatro filhos homens, mas disse que na quinta vez “fraquejou e saiu uma mulher”. Questionado por repórter da Folha de São Paulo sobre o motivo de receber auxílio-moradia mesmo tendo imóvel, Bolsonaro respondeu: “uso o dinheiro pra comer gente”. Grotesco. Magno Malta, senador e grande apoiador do candidato (inclusive, foi convidado para completar a chapa na vice-presidência), casou-se pela segunda vez com uma cantora gospel divorciada de pastor e que virou deputada federal, num enredo que envergonharia qualquer cristão defensor da família. A vida é deles e eu não tenho nada a ver com isso. O problema é que em certos assuntos ou você tem autoridade ou você tem hipocrisia. Eu não aceitaria conselhos nutricionais de quem só se alimenta de fast-food. Teria dificuldades em acreditar nas ideias de um educador financeiro que vive no cheque especial. A dúvida que me ocorre é: Bolsonaro é realmente alguém que acredita e aplica os princípios cristãos na sua vida e família ou um oportunista que usa essa pauta para angariar votos?

10 — Não é corrupto? Será mesmo?

Os defensores de Bolsonaro gostam de alardear que o político não é corrupto. Isso é bem questionável. Embora não seja vinculado a nenhum grande escândalo de corrupção, Bolsonaro tem uma série de atitudes típicas de uma ética corrompida, como receber auxílio-moradia tendo imóvel, fazer campanha com dinheiro de cota parlamentar e ter passado por aumento patrimonial que não se explica apenas com sua renda. Ademais, sobre ele recai suspeita de ter recebido dinheiro por caixa dois e ter feito lavagem de dinheiro com imóveis. Vale dizer que três dos filhos dele são políticos, num modus operandi semelhante ao de todos os políticos tradicionais no Brasil.

O voto e as manifestações a favor de Bolsonaro são legítimos. O problema é fazer isso com postura desonesta, arrogante ou ingênua, como se estivesse numa missão dada por Deus. O Senhor não está do lado de um candidato, Ele não é cabo eleitoral de ninguém. Eu, pelo menos, não fui comunicado disso. Portanto, não se deixe intimidar pela postura de alguns e use sua consciência e seus princípios para fazer sua escolha, sabendo que é possível votar em vários candidatos e ainda assim glorificar a Deus.

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