Deviam ensinar “não” na escola

Por 29 anos da minha vida, eu praticamente só disse não para uma pessoa: eu mesma.

De resto, sambo entre sims e desculpas. É a velha história do medo de desagradar, de não me sentir parte de nada, de não me sentir amada e tal…

Quer jeito melhor de ser querida do que falando sim pra tudo?

Você quer ir nesse bar? Sim, claro, não importa que eu preferia ficar em casa. Quer que eu faça esse trabalho que não tem nada a ver com a minha experiência/habilidade profissional? Faço, pode deixar. Quer transar agora? Transo sim, mesmo sem vontade. Sim, claro, sempre, tudo bem, pra tudo.

Quando não queria mesmo, mesmo. “Tô doente, deu caganeira, tenho reunião”… Magina que logo eu ia acabar virando mitômana — e suspeito que cheguei perto.

Parte boa: passei quase 29 anos sem precisar lidar com o conflito externo.

Quase ninguém briga comigo, poucas vezes as pessoas ficaram insatisfeitas com as minhas escolhas. Né? Quem vai se incomodar com a mina que só diz sim ou, quando não pode, é porque tá à beira da morte?

Só eu me incomodava.Ou me enfiando em coisas que não queria, ou tendo que lidar com o desenrolar de desculpas e mentiras mil se encavalando — sério, um dia eu conto da minha festa surpresa de aniversário e o dia em que menti para quatro grupos diferentes e todos estavam se comunicando. VERGONHA.

Sei lá se é maturidade, se cansei, se é o feminismo me ensinando um monte de coisa ou apenas se cresci e agora sou mulher. Mas esse ano decidi falar não.

Não saio se não quero, não transo mais sem vontade, não vou em festa “por obrigação” e estou pulando fora de um monte de coisa.

Também nada mais de desculpas. 
Não é mais “claro, vamos sair”, mesmo se o que quero é ver TV. Nem mais “putz, estou com diarreia ,não vai rolar”. Agora digo: “deixa pra outro dia, hoje não estou com vontade”.

Tá, não é assim, da água pro vinho. Se me distraio, digo uns sins sem querer ou invento umas desculpas — inércia. Mas tá rolando a atenção e o esforço.

E como minha vida é um grande filme infantil da Disney, agora vem a lição de moral, ou o famoso “o que aprendi com isso tudo?”: o mundo não desaba se você fala não.

Umas pessoas ficam putas, outras incomodadas… Mas o que percebi mesmo é que puta que pariu como é difícil falar não. Como me dá medo da reação alheia. Como eu automaticamente me sinto desapontando o outro, me culpo e me torturo. Eu já pedi desculpas por boy por não querer transar um dia, acha?

Gente, devia ter aula de “não” no ensino fundamental. É muito mais útil que bhaskara (xis é igual menos bê mais ou menos raiz de bê ao quadrado menos quatro a cê sobre dois a, lembra?)

Mas mesmo pra nós, mulheres crescidinhas, deixo essa dica de fazer o esforço, tentar usar o não. Ao contrário do que mandou uma marca de cerveja, não deixa ele em casa, leva pra todo lado. É difícil, vem imbuído de toda a culpa-brinde-de-não-ser-perfeita, envolve confiar um pouco mais nas suas vontades, pensamentos, desejos e instintos, mas é libertador.

Eu sempre admirei a categoria “mulheres que dizem não” e em breve serei uma delas. Daí vou dar um workshop.

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