Somos todas Marias
Todas nascemos Marias, todas temos obrigações, expectativas e uma lista de coisas que Marias devem fazer ao longo de suas vidas. Somos todas Marias ao nascer.
Vamos falar de empoderamento feminino?
O que é? Ações e movimentos que tem surgido nas últimas décadas visando igualdade de gênero devido a inferiorização da mulher ao longo da história.
Por que é importante? Para que todos os seres humanos tenham os mesmos direitos, deveres.
Como? Respeito pela liberdade de cada um.
Minha opinião e visão se resume nas 3 perguntas acima, mas é claro que o assunto é muito mais complexo que isso e minha história com o tema não é recente, especialmente sendo mulher. Com experiências e reflexões, é realmente complicado resumir todos os pontos de pensamento, mas espero costurá-los em uma visão íntegra do cenário de empoderamento feminino como um todo, como eu o vejo.
Sendo filha em uma família tradicionalmente gaúcha, logo cedo os papéis do feminino e do masculino foram bem delineados, desde quem deveria ou não lavar a louça ou ajudar com a colheita. Mas isso nunca foi um problema, sempre me senti feliz em ser útil. Foi só crescendo que ficou claro pra mim o quanto eu tinha acesso a coisas que nenhuma das minhas primas tinha, começando pela escolha, ou o acesso, por exemplo à educação. A faculdade foi um grande momento, especialmente quando eu percebi que era a única dentre as minhas primas iniciando o ensino superior. Acho que essa foi a primeira vez que comecei a perceber desigualdade por gênero e por “falta de escolha”.
Mais tarde, já em Nova Iorque, trabalhei em uma multinacional de tecnologia que se define como uma comunidade de pessoas que fazem soluções tecnológicas advocando para impacto social positivo, e uma das várias causas trabalhadas era justamente igualdade de gênero. Lá, eu tive a chance de mentorar um grupo de meninas que havia ganhado um prêmio em uma competição internacional cujo objetivo é engajar mulheres na área da tecnologia. Elas competiram com milhares de meninas para ganhar o prêmio, pela chance de estar ali tendo mentoria dos melhores cinetistas da computação… para terem apoio e ajuda para tornar um sonho realidade. Foi no dia-a-dia com essas meninas que pela primeira vez eu percebi o quanto é necessário lutar para e estar em um ambiente igualitário.
No entanto, eu só consegui estruturar esse assunto mentalmente, ao voltar para o Brasil como voluntária e responsável pela disseminação nacional da competição. Rodando de norte a sul do Brasil eu tive a chance de ver na prática que os dilemas e problemas que eu via na minha própria família se refletia em no Brasil todo. E foi trabalhando com pessoas que hoje, são minhas maiores referências dentro do assunto de igualdade de gênero e inclusão, que eu consegui ver os dados por trás das histórias que eu ouvia em diferentes sotaques. Perceber que os problemas que eu via desde a escola mais elitista em São Paulo, até a escola pública com a pior infra estrutura em Recife, eram iguais, estudados e compartilhados por meninas no mundo todo… foi um marco na minha história. E isso se intensificou no final desse ano, ao ver que na Brasil, Índia e qualquer outro país que participou dessa competição, os problemas sociais do projetos eram os mesmos… inclusive os de inclusão e igualdade de gênero. Foram pessoas como Camila Achutti e Deb Xavier que me ajudaram a entender o cenário brasileiro e global sobre a desigualdade de gênero e entender a tamanha proporção desse problema que compartilhamos.
Nos anos seguintes eu me tornei uma representante em pequena escala do empreendedorismo feminino e do empoderamento atravéz da educação. Meus projetos sempre tocam o assunto explicita ou intrinsicamente, seja pela cultura de liderança em uma das minhas equipes ou pela proposta de entrega do projeto em si. Mas falando em cultura, nutrir conexões e referênciais são essênciais para sair do discurso e ter inspiração para tentar coisas novas. Anielle Guedes, Malala, Emma Watson, Sheryl Sandberg e várias outras são minhas principais referências na escala global. Mas assumo que para mim nada se compara às Marias do meu dia-a-di, meninas/mulheres se superando em seus sonhos sejam eles quais forem, essas sim são minhas maiores referências.
Assim como no começo desse texto a Maria era minha mãe, minha vó, minhas professoras e amigas. Hoje, a Maria sou eu. E como elas faziam antes da Meta #5, o movimento ajude uma mulher, ou o empowering a billion women by 2020, com seus exemplos, eu acredito que é de Maria em Maria que teremos mais Malalas, Ada Lovelaces, Marie Curies, etc.
Empoderamento feminino, pra mim, é o processo diário de encontrar Marias, descobrir seus nomes, histórias e sonhos, e reconhecê-las por quem realmente são, e não mais como Marias.
Muito prazer!
Uma Maria chamada Hellem Pedroso.