Precisamos falar da nossa relação (ébria) com o álcool

Parte I

days of wine and roses (1962)

Inicio-me aqui com um trecho magnífico de um texto do Gustavo Gitti que representa o que tentarei fazer ao abordar a temática do álcool e a nossa relação com o mesmo.

Toda boa crítica mira, antes de tudo, o passado daquele que a desfere. Sempre que encontrar alguém dilacerando uma certa ideia, tenha certeza de que ele já foi um forte defensor da mesmíssima visão atacada. Ou, pior, ele inconscientemente ainda a mantém e a reprime por meio do discurso público sobre quem gostaria de ser (na esperança de que exaltar o ideal desvie os olhares do real). Ora, a crítica se faz completa e detalhada justamente por isso: ninguém melhor para falar do pecado do que o próprio pecador. Desconfiem, portanto, desse texto. Eu pertenço ao segundo tipo de críticos.

Eu e o álcool

Em meados dos meus dezoito anos de idade foi que comecei a sair commaior frequência, me relacionar um pouco mais e com uma maior variedade de pessoas, e como consequência dessa “abertura social” o natural seria a apresentação ao álcool, a iniciação ao que seria uma parte do processo social.

Fiz questão de esperar até a maioridade justamente por conta da proibição de venda, e por conta da consciência que tinha de quão não era recomendável para menores de idade, por inúmeros motivos. Sim (!) até os meus dezoito anos de idade eu tinha a imagem que eu deveria ser politicamente correta. A típica careta entre os amigos mais descolados da turma.

Com a chegada da maioridade e com ela as primeiras cervejas, os drinques tomados, as doses viradas à la “ arriba, abajo, al centro y adentro”. Toda aquela curiosidade e novidade de perceber e participar do admirável mundo novo onde era permitido/incentivado beber algo que, misteriosamente, dava o incrível poder de mandar a timidez dar uma voltinha e te deixar se relacionar em paz, pelo menos enquanto durasse o efeito da bebida.

Ademais, com o passar do tempo fui vendo que minha relação com o álcool não era das mais lúcidas, nem poderia ser, já que eu entendia pelo velho mantra “se for para beber é para ficar bêbado, muito bêbado”.

Mas essa lógica, estúpida diga-se de passagem, começou a mostrar suas consequências drásticas como sexo casual exagerado e inconsequente, não saber controlar a dosagem de quanto beberia, sensação interna de fracasso, diminuição do aproveitamento real dos encontros com amigos, e além dos problemas de saúde que o excesso acarretou e/ou piorou.

Falando assim das consequências você deve estar aí do outro lado, me apontando e se perguntando como não percebi que eu poderia ser uma alcoólatra. No entanto, o que é ser alcoólatra? Há essa noção clara entre quem consome álcool do que é ser alcoólatra? Qual é o limite entre beber e ser alcoólatra, de fato?

E responder essas perguntas de forma sincera, e justa consigo mesmo, se torna mais difícil quando se frequenta um meio social em que a prática de “beber até cair” é venerada, e é para isso que vocês estão ali.

Olhando hoje, e de fora, vejo o quão, em alguns momentos, toda aquela embriaguez era engraçada e oportuna para se quebrar algumas barreiras sociais e psicológicas, mas também o quanto ela em excesso e como dependência (mesmo a não assumida/percebida) foi e é bem tragicômica.

A Proposta

Reavaliando como estava bebendo e como isso estava me afetando, e afetando minhas relações, resolvi que no ano de 2016, não iria fazer a típica promessa de ano novo de “eu vou parar de beber”, ao contrário, iria diminuir o consumo de bebida alcoólica e o mais importante ressignificar minha relação com a bebida, como disse Guilherme Valadares no portal Papo de Homem, em um texto também instigante:

Francamente, beba o quanto quiser.
Não creio que o ponto é condenarmos o ato.
O ponto é tornarmos nossa relação com a bebida mais lúcida e menos autodestrutiva.

“Quem beber menos, lava a louça!”

Você se considera uma pessoa que bebe socialmente por pressão dos eventos sociais? Se assume alcoólatra? Ou que bebe até cair, nos eventos com amigos, mas se diz ter autocontrole de parar na hora que quiser? Ou que bebe ocasionalmente?

Qual o tipo de consumidor de álcool você se considera? Aliás, você já tinha parado para pensar em como você trata sua relação com o álcool?

É disso que quero falar aqui. De que abordemos a nossa forma de beber de uma forma lúcida, e consciente. Não como uma válvula de escape, ou influência da pressão social.

Para que o texto não fique longo e cansativo, separarei o tema em dois artigos. esse, falando mais da minha trajetória pessoal com a bebida, e um outro trazendo dados acerca da relação das pessoas com o álcool e da influência disso na sociedade. Nesse segundo também trarei um pouco da história do álcool, o efeito dele no organismo, entre outras variantes que poderão ao final de tudo fazer com que você reavalie como está lidando com o álcool, ou como as pessoas ao seu redor estão.

Mais para frente pretendo falar mais sobre o tema, abordando formas alternativas, não de beber desregradamente e sim de beber bem, com qualidade e lucidez. Por enquanto, me limito a estes dois artigos como pretensão de incentivar o debate acerca do tema. Se estes mesmos dois artigos te fazerem rever a sua relação, seja com o álcool, seja com outras drogas, eu já terei me dado por satisfeita.

Um abraço e bons goles de lucidez regados à um bom vinho, ou cerveja!