Precisamos falar da nossa relação (ébria) com o álcool II

sente-se, peça uma bebida e vamos conversar.

Você sabe o que bebe?

Fórmula estrutural e molecular do etanol

O que é, álcool, segundo o Wikipédia:

O álcool (do árabe al-kohul) é uma classe de compostos orgânicos que possui, na sua estrutura, um ou mais grupos de hidroxilas (“-OH”) ligados a carbonos saturados. É, comumente, utilizado como combustível, esterilizante e solvente. É o componente principal das bebidas alcoólicas.

O que é, bebida alcoólica, segundo a Constituição*:

Para efeitos de diploma, considera-se bebida alcoólica toda bebida que, por fermentação, destilação ou adição, contenha um título alcoométrico
superior a 0,5% volume

*Decreto Legislativo Regional n° 14/2008/A de 11–06–2008 — artigo 2°

O que é, o álcool, segundo a área da saúde?

O álcool é um depressivo. Isto significa que deprime e lentifica o funcionamento do sistema nervoso. Ele é rapidamente absorvido, vai para a corrente sanguínea e para todos os órgãos, inclusive o cérebro. No cérebro, o álcool afeta nossa capacidade de processar informações.

O nosso corpo e o álcool

O álcool ingerido age diretamente no nosso organismo, afetando todo o corpo e seguindo uma trajetória desde o primeiro gole à ressaca do outro dia passando também pelos efeitos futuros do acúmulo de ingestão de bebida alcoólica ao longo da vida.

Abaixo temos, a enumeração cronológica do que ocorre com o nosso corpo quando bebemos aquela birita de sexta à noite:

  1. Assim que ingerimos o primeiro gole, as moléculas de etanol começam a entrar na corrente sanguínea pela mucosa da boca, começando assim a odisseia da embriaguez.

2. Pelo esôfago, a bebida chega ao estômago. E até a saída da bebida desse órgão já se foram 25% de etanol despejados na corrente sanguínea. O restante só vai entrar na corrente sanguínea após chegar ao intestino delgado, local onde a permeabilidade dos vasos e membranas fazem com que a ingestão do etanol no sangue seja mais rápida.

3. A ciência explica e o corpo sente.

Logo após 15 a 60 minutos, o etanol já tem praticamente atingido toda a circulação e se espalhado por todo o corpo. Esse tempo pode variar de acordo com a presença de comida no estômago e a velocidade com que a pessoa bebeu, daí deriva o fato daquele seu amigo afoito que bebe rápido demais ou até mesmo daquele dia que você foi beber de estômago vazio e teve efeitos bem drásticos de embriaguez.

4. Caindo no sangue, as moléculas irão ser transportadas para os órgãos com a maior presença de água, como o fígado, o cérebro, o coração e os rins. Não à toa, os órgãos mais vitais do nosso corpo.

5. 90% das moléculas serão metabolizadas no fígado, ou seja, elas serão quebradas em partes menores para melhor facilitar sua eliminação do corpo. O fígado processará o equivalente a uma lata de cerveja por hora.

6. Então assim, o etanol começará a intoxicar o nosso corpo agora já ébrio, acarretando os efeitos já conhecidos de embriaguez.

Efeitos nos órgãos vitais

No cérebro: Chegando no cérebro o etanol fará com que se estimule a liberação extra de serotonina pelos neurônios. Causando assim nos momentos iniciais de bebedeira a sensação de euforia e desinibição do indivíduo.

Se a pessoa segue bebendo, o etanol afeta também os neurotransmissores GABA e glutamato. Sem o controle do glutamato, a liberação de GABA aumenta atingindo assim áreas como o autocontrole e coordenação motora, já que esse neurotransmissor faz com que os neurônios trabalhem menos e mais devagar.

No estômago: O etanol irrita a mucosa do estômago, produzindo então mais suco gástrico do que no normal, dificultando assim a digestão. Logo a sensação de desconforto, azia e enjoo aparecem. A reação do corpo será repelir a substância por meio do vômito, já que expelindo a substância é cessada a irritação à mucosa do estômago. Por isso depois do vômito muitos já estão pronto para outro porre, sem nem pensar duas vezes.

Nos rins: O álcool acaba aumentando a produção de urina em 50%. E não apenas pelo aumento de líquido ingerido, mas também pelo motivo de que o etanol atinge a hipófise (uma glândula localizada no cérebro) que inibe a produção do hormônio que absorve a água, logo com menos líquido absorvida mas urina é eliminada. Por isto, você não consegue parar de ir ao banheiro.

No coração: Durante o ato da famigerada bebedeira, os batimentos cardíacos podem ser alterados constantemente. E isso se deve, também, pelo o excesso de eliminação de urina que acaba expelindo substâncias como o magnésio e o potássio, substâncias estas que ajudam manter o batimento cardíaco controlado.


Sabendo então o que é causado no seu, no meu, no nosso corpo após a bebedeira, ou mesmo após umas poucas taças de vinho ou corpos de cervejas, você pode e deve perceber o quão perdemos o controle sobre nós mesmos, sobre nosso corpo e é sobre ter noção da responsabilidade prévia de tudo o que faremos dali à frente, enquanto embriagados, para com os outros e conosco, é para isso que devemos mudar nossa relação com a bebida.

Alguns famigerados dados

Estimativa do consumo per capita de álcool de acordo com país. (OMS)
Doenças e prejuízos total ou parcialmente decorrentes do uso do álcool. (OMS)

Fonte: CISA(Centro de Informações sobre Saúde e Álcool)

Brasil é o quinto país em mortes pelo consumo de álcool nas Américas

A cada 100 mil mortes no país, 12,2 são causadas pela bebida.

Fonte: Gazeta do Povo

78% dos jovens brasileiros bebem regularmente e 19% deles já são dependentes do álcool

Os adolescentes estão cansados de ouvir ou ler esta tarja preta e séria que aparece minúscula nas propagandas de bebidas alcoólicas. Infelizmente, poucos levam a recomendação a sério.

Fonte: Viva Saúde


A não-possibilidade da sociedade atual de ter encontros lúcidos e sóbrios

Como disse, brilhantemente, Danilo Gonçalves neste artigo: “Não exaltemos esse empoderamento que o álcool parece nos dar”.

Sim.

Não empoderemos a pseudo-coragem, aquele velha desinibição ao que normalmente não teríamos tanta desenvoltura, a inspiração eufórica de proferir inúmeros discursos filosóficos imaginando nós que tomamos o cálice sagrado. Não… não tomamos.

É óbvio e perceptível que a bebida, não de forma exagerada e desregrada, dá certa dose de desinibição necessária em alguns momentos, ou mesmo e até mesmo nas artes, nas decisões, nos insights, naquele encontro. Mas isso e só isso. Sem muito ênfase e empoderamento nesse efeito. É não permitir que isso venha a se tornar uma muleta em um ciclo vicioso.

Não ache que tomando porres e vomitando úlceras você se tornará um Bukowski. Até mesmo por quê ele foi o artista que foi pelo seu talento, e não pelas cervejas que ele tomou. E mesmo se achar que assim deve fazer, saiba arcar com as mesmas consequências que ele, corajosamente, arcou. No entanto, uma recente publicação da VICE contesta essa questão da bebedeira de Bukowski, segundo entrevista com o editor do velho safado, ele nunca viu, uma vez sequer, Bukowski bêbado. Para ele, esse Bukowski mostrado nos livros é um mero personagem que muito difere da realidade de quem convivia com o escritor.

Não seja alguém que manipulado pela pressão social, é fantocheado e ancorado na imagem de vários caras alcoólatras da TV/teatro/literatura 
e se achando um mega barato por isso, se achando o dono da própria vida. Qualquer coisa que te tire sua sobriedade e que te deixe dependente, 
não é uma escolha livre, é uma imposição apegada.


Pra complementar, recomendo esse vídeo informativo, conscientizador e interessante do psicanalista Artur Guerra no programa Café Filosófico, da TV Cultura.

E pra finalizar você também pode trocar esse texto por esse comercial da Heineken, e vice-versa, pois falam a mesma língua e pretendem passar a mesma mensagem.

A Heineken já entra 2016 se sobressaindo às publicidades de bebidas alcoólicas e dando um tiro certeiro e consciente.