Sobre canetas e idealização

A situação que estou prestes a narrar é muito comum quando começamos a ter nossas noções românticas. Nos anos em que adolescemos nos interessamos por alguém e passamos a tentar decifrar cada palavra e atitude, procurando qualquer resquício de interesse deste alguém, ao qual poderíamos nos agarrar, como na situação em que a pessoa que você tinha uma quedinha te emprestava uma caneta colorida, de maneira solícita e educada, e você obviamente já dava um jeito de escrever seu nome, o de seu amado ou amada e um belo coração, bobeira de criança né?

Pois bem, e se eu te falar que essa situação não ficou no ensino fundamental e é constantemente reproduzida na nossa realidade? A sua quedinha virou seu crush, a figura idealizada da paixonite de internet. As redes sociais estão cercadas de conteúdo sobre isso, pessoas falam sobre seus crushs e como estes são perfeitos, como não tem coragem de falar com os mesmos, como estes muitas vezes os magoam, por não corresponderem seus sentimentos, não darem a famosa chance.

Para começar o maior perigo desse conceito é a idealização, essa pessoa pela qual você desenvolveu algum tipo de desejo passa a um patamar acima, no qual não se trata apenas de um interesse, e sim de toda uma idealização acerca do que você vai desenvolver com a mesma. Seu crush é a pessoa intocável, que na verdade tem defeitos, mas estes não são o foco, não há importância real em conhecer a pessoa, criticá-la, humanizá-la, e sim em obter sua atenção e o mais importante, o sentimento recíproco. Por isso é tão difícil colocar em palavras sua real intenção com o crush, você fala através de piadas e indiretas bem comuns da internet, porque a pessoa é tão perfeita que obviamente te daria um fora. Mas o que acontece quando você leva um fora?

Aí vem a parte mais complicada da situação, você idealizou todo um cenário romantizado em que a pessoa em questão se apaixonaria por você da maneira que você se apaixonou por ela, mas o crush nunca pediu para estar nessa posição, nunca pediu para ser posto em um pedestal, é uma situação similar a já desmitificada friendzone. A situação em que uma garota por exemplo tratava um garoto bem, e ele achava que isso necessariamente implicava num interesse afetivo por parte dela, e quando a mesma não o correspondia era uma aproveitadora que o jogou na famosa “zona da amizade”. O que quero dizer com isso é que seu crush não necessariamente se aproveitou de você, até porque isso entra em outros termos de abusividade que permeiam diversos relacionamentos na sociedade. O crush em questão nunca pediu para ser idealizado, e se ele te tratou bem e você interpretou isso de maneira errada, cabe a você entender porque continua se iludindo ao invés de tentar conhecer alguém de verdade.

Seu crush te respondeu numa rede social e te tratou com educação como quem empresta uma caneta colorida na aula de artes, e você está escrevendo corações em forma de likes esperando ser correspondidas. Talvez nossa imaturidade nos leve a idealizar ao invés de encarar os relacionamentos. Talvez seja a hora de você parar de idealizar, porque quem corresponde as expectativas não pode ser culpabilizado por você ter-las criado.