Sobre representatividade e capitalismo

Esta semana, a marca de roupas Ivy Park, lançada este ano por Beyoncé, foi denunciada por trabalho escravo na produção de seus produtos.

“Uma série de trabalhadores da fábrica dividiram suas histórias com a publicação, revelando jornadas de trabalho que duram cerca de 10 horas por dia, com meia hora de almoço, e que a MAS Holding — nome da fábrica — paga a eles cerca de 18.500 rúpias (R$ 440) por mês. O valor fica acima do salário mínimo legal no país, que é de 13,5 mil rúpias por mês, mas ativistas defendem que o valor mínimo para sobrevivência no país deveria girar em torno de 43 mil rúpias.”

O fato nos coloca em um ponto inevitável no debate de representatividade midiática através de grandes personalidades acumuladoras de capital. Por um lado temos uma mulher, negra — influente nos Estados Unidos, onde o racismo é ainda mais pesado que a exclusão social,diferente do caso brasileiro, onde a questão racial está altamente atrelada à social, também por formação histórica de nossa sociedade que marginalizou o grupo minoritário — se colocando em relação aos direitos das mulheres, principalmente mulheres negras. Isso é importante? Obviamente sim, crescemos na sociedade de desvalorização da figura da mulher e do negro, a mulher negra é altamente marginalizada e sexualizada constantemente. Quando uma mulher inserida nestes grupos marginalizados e detentora de visibilidade se coloca a favor de suas “iguais”, gera um debate a nível mundial. É importante ver na grande mídia uma mulher empoderada e segura de si, mas nem tudo são flores no sistema capitalista. Mas por que coloquei iguais entre aspas? Porque há uma barreira clara entre Beyoncé e as demais mulheres negras e periféricas que são exploradas não só por sua marca, mas pela lógica de produção capitalista.

Como isso entra no debate do empoderamento? Bom, o capitalismo se apropria das pautas em voga pra mercantilizá-las, não podemos diminuir Beyoncé simplesmente por estar inserida na lógica de produção em questão, isso seria silenciar uma mulher e todo o trabalho de empoderamento dela. Porém a mesma representa cooptação do capital da militância feminista. 
Será que as mulheres em situação de trabalho escravo se sentem contempladas pelo trabalho da Beyoncé, ainda sendo oprimidas pela mesma que usa da exploração destas pra enriquecer? Provavelmente não.
Porém é bom ter apenas representantes brancas em ambientes midiáticos? Também não.

O debate, por sua vez, deve ser acerca dos limites do feminismo liberal, que é relevante, afinal nenhuma mulher tem que ser apagada, porém não é suficiente. Não podemos estacionar em Formation, é necessário reconhecer e entender todas as opressões sofridas por mulheres que não tem condição alguma de viver, apenas lutar para sobreviver, no mundo do capital. Uma
mulher negra empoderada incomoda, e faz toda diferença para as moças que recebem sua mensagem. Porém, até todas sermos livres, nós mulheres não podemos deixar de questionar. Feminismo liberal existe, mas nunca será suficiente, nunca será inclusivo na sociedade do capital.

A raiz de nosso debate deve ser: como nossa luta contemplará e emancipará todas as mulheres? Até que ponto a representatividade realmente nos representa?
Não podemos estacionar enquanto uma de nós está na mídia usando um vestido caro feito pelas mãos escravizadas de outras.

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