poética da faxina
[ou: ô joga fora no lixo!]


Foto: Jess Pac. Creative Commons

“Eu preciso fazer uma faxina…” Quantas vezes falamos e ouvimos isso antes de conseguir arregaçar as mangas e partir para a ação? Hoje em dia, aliás, passou a ser uma das tarefas que entra item sai item da lista do “eu preciso fazer” e ela continua lá.

Compramos, acumulamos coisas e as guardamos para fazer uso delas, desfrutá-las “assim que estivermos mais magros; assim que tivermos um tempinho”, e por aí vai. Tal como os animais enterram os alimentos para consumi-los depois, na hora da necessidade, assim vamos adquirindo, guardando, empilhando, como se estivéssemos sempre abastecendo um abrigo para enfrentar privações típicas das hecatombes nucleares, terremotos, tsunamis… Evitamos um temido estado de privação acumulando coisas, e tudo numa escala que pode alcançar o exagero facilmente — ou até o patológico, vide os acumuladores compulsivos. E, ao contrário dos animais — ou em raras ocasiões, não precisaremos e nem faremos uso de tantos objetos mais para frente.


comprar, acumular, esquecer


Querer ter as coisas não é um problema em si, pois é a manifestação concreta do esforço em construir o nosso caminho no mundo. A questão é o sentimento que move o “eu necessito”. Por isso se fala tanto da compra por impulso, porque às vezes forjamos a necessidade, compramos como uma maneira de nos desvencilhar do desconforto de não conseguir preencher nunca a falta de algo que nem ao menos sabemos o que é. E não logramos trazer à luz da consciência essa necessidade tão intangível; ou o fazemos para nos compensar de algo que achamos merecer e que não nos foi dado.

Vamos comprando e acumulando; aliás, notável contradição moderna, na sociedade que cultua o consumo, vivemos a era do descarte de tudo e ao mesmo tempo acumulamos — como uma espécie de expediente precário que procura preservar miríades de coisas que parecem perder o seu “valor em si”, numa liquidez vertiginosa. E esses objetos têm seu reinado assegurado ou porque achamos que ainda precisaremos deles ou pelo apelo sentimental que carregam. Assim, um infinito rol de todo tipo de tralha se amontoa num caos particular, que com larga condescendência procuramos despistar, nos gabando e dizendo “eu me acho nessa bagunça”.

No começo, esse acúmulo pode ser um forro macio que aninha tudo aquilo que desejamos representar, alcançar ou preservar; depois passa a criar liames que vão nos engessando, denunciando a paralisia que marca o nosso momento.


então… a faxina


Mas você a essa altura deve estar pensando: “pera lá, mas tudo isso envolvendo uma simples arrumação, uma faxina?”

Ouvi certa vez sobre uma faxineira que era tão especial, dedicada no que fazia, que de alguma forma quando ela concluía o seu trabalho todos podiam sentir que a casa estava mais leve de energias. A limpeza era física e espiritual também. Tudo no seu lugar. Mas também todos os lugares confortáveis no seu lugar e cada uma das coisas também ocupando o seu próprio elemento naquele pequeno universo que representa toda casa.

Aqui trato de uma faxina da qual só nós podemos dar conta: a que dá sinal verde ou cartão vermelho e determina o que fica e o que vai das coisas que nos pertencem.

De toda forma, acho que esse é um ótimo jeito de encarar a faxina. Pra começar, que faxina é diferente de limpeza: a limpeza limpa, mas a faxina é uma limpeza profunda e radical, que revisa espaços, objetos, materiais ou imateriais, estando eles nos mais recônditos escaninhos, esquecidos, escondidos, abandonados. Revolve e exclui o que não pode e não deve estar mais lá. A faxina é resoluta. Ela espreita, vasculha e liquida toda sorte de coisas que teima em importunar, pesar, atravancar, tornar-se obstáculo no fluxo e na ordem das coisas. Fazer uma faxina é atividade nobre se entendemos as causas e os efeitos implicados nessa tarefa.

Pois além de a faxina ser uma oportunidade de arrumarmos a bagunça doméstica, esse mover de peças, descarte, organização, faz com que processemos as suas equivalências no mundo interior. A faxina é um exercício de desapego, mesmo às vezes não sendo tarefa fácil.

Assim, tudo passa pelo crivo de um discernimento novo: “preciso disso?”; “ainda isso me é necessário?”; “não seria a hora de descartar essa velharia?” Essa nova ordem abre espaços, conexões possíveis inéditas que o convidarão a uma outra postura, uma diversa forma de olhar. E na mesma equivalência nos perguntaríamos: “essa atitude ainda me é necessária?”, “essa mágoa, esse ressentimento?”, pois não raro tal reflexão se ancora num objeto que impõe sua radiografia sentimental, trazendo uma passagem, uma emoção, uma história.

A pergunta remove certezas sólidas, dissolvendo muros, abrindo possibilidades de reavaliar antigas percepções, sentimentos e propondo novas coreografias, inéditas aglutinações, dando origem a tabelas periódicas impensáveis até então na alquimia interior da construção incessante do ser.


ô joga fora no lixo!



E como começar? Uma vez que decidimos iniciar a faxina, o negócio é pôr a mão na massa, sem vacilação ou adiamentos.

Há cada vez mais literatura especializada e bacana discorrendo sobre o passo a passo da limpeza-faxina-organização. Para mim, vale considerar fundamentalmente dois aspectos sobre esse modo de fazer.

Porque esse é um processo transformador, melhor resistir à tentação de querer criar um cenário de terra arrasada e tirar todo o amontoado de coisas dos armários, almejando acabar logo com isso de uma vez — sendo “isso” a faxina. Não funciona. E todo mundo tem pelo menos uma historinha para contar sobre esse assunto. O desespero de ver se acabar o dia livre que tiramos para arrumar a bagunça e constatar que tudo, tudo está fora do lugar, gerando um novo caos — agora intolerável — e no qual você não mais se acha. Sem mencionar o risco de se estropiar fisicamente por torções erradas da coluna, posturas incorretas etc etc.

Pessoalmente, um método que acho viável e interessante procura estabelecer setores — ou lugares — que serão arrumados de cada vez. Vale criar um bom clima para a tarefa. Escolher uma playlist que você curta; dançante, alegre — ou plácida, se você se entender melhor com ela. Isso significa não considerar só o fim — a faxina feita — , mas o meio. E aí está a parte boa de ir por seções, calmamente, assim poderá ver tudo com certa equidistância entre razão e sensibilidade; descarte e acumulação. Sendo capaz de orientar sua escolha “instintiva” do que fica e do que vai embora.

Há as roupas com as quais nos identificamos, os objetos de não uso e também as fotos, cartas, bilhetes, fitas, CDs, tíquetes de teatro, cinema, passagens, fôlderes de passeios, museus; desenhos, rabiscos, escritos, bibelôs de bares, de viagens, de hotéis, recortes de jornais…Tudo passará pelo crivo da “atualidade do essencial” — uma mistura de grau de utilidade; memória que pretendemos que fique; nova pele que muda com nossas transformações. E há ainda apenas o descarte do desnecessário facilmente identificado: roupas que não cabem mais, objetos nunca usados ou há muito já esquecidos nos armários.

O importante é não perder de vista o fim: ver tudo arrumado, trazendo ordem ao caos, escolhendo do mundo ainda amorfo da bagunça o desenho do mundo a partir do qual você quer viver daqui em diante. Para isso é preciso também agir sem dó nem piedade, sendo prático sobre o que vai e o que fica. Sem grandes apegos, com o foco na necessidade de fazer o que tem que ser feito.

Assim pode ser tremendamente gratificante encarar o ritual da faxina: hora de acolher o imprevisível, de abertura das janelas para novas aragens, de tocar delicadamente os apegos e exercitar o abrir mão, dando boas-vindas às coisas sem rosto, ainda não nascidas, que surgirão no caminhar.

Aos poucos talvez possamos experimentar uma nova postura — e esta, mais radical, implicará em antes de querermos ter um item a mais fazermos as mesmas perguntas que antes só nos vinham no final do processo — e outras novas: “eu preciso mesmo disso?”, “o que me move para comprar agora?”, “não será melhor sacrificar esse bem para algo maior que desejo à frente?”, “que necessidade move esse desejo?”

Com isso não pretendemos a austeridade, mas pousar o nosso olhar sobre a voragem do desejo, do querer ter sem esgotamento. E, ao observar o arco de sua gênese, ápice e fenecimento, aumentar nosso poder de escolha, criar autonomia, porque às vezes escolher dizer não é liberdade.