
Promessas
Qual é a primeira ideia que lhe vem à cabeça quando ouve falar em promessas?
Bom, estamos na cauda de 2015 e é quase inevitável não pensar em uma lista de prioridades para 2016.
Lista de promessas, lista de "eu vou...", que tenta resgatar aquelas decisões que foram postergadas - embora parecessem tão prementes e inadiáveis - e até esquecidas e deixadas para trás à medida que o ano corria feito um cavalo indomável - talvez ele mesmo horrorizado com tanto escândalo e fatos perfeitamente inacreditáveis que, pelo menos, nós, brasileiros, tivemos que engolir como uma colher de óleo de fígado de bacalhau depois de comer forçosamente um quilo de jiló.
Mas antes da tal "lista pra 2016" é preciso falar um pouco sobre promessas.
Muito longe de querer esgotar esse tema, simplesmente prefiro falar, bem a grosso modo, em três tipos de promessas, de acordo com o que é prometido e a quem é prometido. Ou seja: o que está em jogo e quem está envolvido nesse jogo - se assim podemos nos referir de forma lúdica a essa palavra.
Informalmente eu classificaria assim:
A promessa vertical: que envolve um elemento de sofrimento e superação, cujo empenho é dado em troca de um bem concedido pela divindade.
Há aqui a consciência do jogo desproporcional entre o ser humano e o divino - ou o seu mensageiro (um santo, por exemplo, para ficar na perspectiva católica). Somente com a Graça divina - ou a intercessão de um santo - se conseguirá superar uma vicissitude, uma fraqueza, uma doença, uma chaga.
"Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada" bem ilustra essa relação.
Mas ao me expurgar, me superar, cresço através do deserto árido do sofrimento percorrido, o que me faz, pelo menos simbolicamente, mais digna e apta a receber a Graça, a cura, a fortuna, o milagre...
Eu posso então receber, numa partida em que deixei de ser uma mera observadora. Posso assim exercer o divino em mim, ainda que por meio da consciência da Graça concedida. "Sou um instrumento".
A promessa horizontal: a que fazemos para um semelhante, mortal como nós, mas que de certa maneira - por um motivo ou um feixe de situações - encontra-se num papel de autoridade, que nós próprios, diga-se de passagem, emprestamos a ele, muitas vezes moral, e no qual espelhamos aquilo que não conseguimos admitir em nós mesmos.
É o caso do marido que promete pra mulher parar de beber; o filho que promete que não vai mais repetir de ano; o homem (ou mulher) que promete deixar de ser ciumento (a) e dar vexame; um outro a parar de arranjar confusão...
E há também as promessas solenes: pedidos feitos pelo moribundo e seladas com o "eu prometo" no leito de morte do parente, do amigo... "Não abandone os seus irmãos"; "não desampare fulano"; "não abandone o projeto xxx"; "não revele a ninguém o segredo y".
Ainda tem os votos - de casamento, de castidade, de pertencimento a uma ordem, de fidelidade; os juramentos - outra espécie de promessa solene.
Passarei ao largo das chamadas "promessas vazias", baseadas na ultrajante postura dos que prometem aos outros o que - eles bem sabem - nunca darão, em troca de seu voto (muitas vezes literal) de confiança, que resulte em alguma vantagem. Caso de políticos cafajestes, trambiqueiros, canalhas e oportunistas de toda ordem.
Mas retomando: ainda neste rol da promessa horizontal também incluo aquele tipo que se dá por modalidade de anúncio: "vou fazer um romance"; "vou criar uma obra"; "vou parar de fumar"; 'vou emagrecer xxx kg", "vou conquistar mundos", vou conquistar fundos"... e por aí vai.
A questão aqui é o quanto empenhar a palavra numa promessa dessas de maneira pública contribui para o efeito desejado. Nesse caso - como costuma ser com tudo - dependerá do espírito de cada um.
Recentemente, li sobre pesquisa na qual verificaram que ao se falar publicamente sobre um projeto a admiração e apoio que tal promessa suscita entre as pessoas traz um tipo de recompensa "negativa" para o cérebro. Ou seja: ele já entende essa "louvação" como recompensa, o que o faria desinvestir no objetivo ou promessa ou que nome se queira dar a um propósito divulgado aos quatro ventos. Resultado: abandona-se o plano antes mesmo do seu início ou apenas nos seus primórdios.
Para outros, contudo, o ato de tornar público, de anunciar um intento, soa como uma largada de F 1; um tiro de largada numa corrida de 100 metros rasos; o gongo no ringue de boxe, enfim, um mecanismo de disparo com foco resoluto no alvo.
Na minha percepção e por experiência própria, acho que fazer promessas, falar muito sobre determinado objetivo, decisão ou projeto não é o mais indicado, pois o esvazia quase que de imediato.
Parece que à medida que se propala muito sobre o que se pensa em fazer - em vez de pôr as mãos à obra - a energia que seria usada para isso, gerada a partir de uma contenção e concentração, se esvai como areia entre dedos abertos, água em vasilha furada ou palavras dirigidas aos que de modo algum querem ouvir nada nem ninguém. Ou seja: é desperdício puro e simples - e ingênuo, no melhor dos prognósticos.
Isso me faz lembrar da história de Joe Gould, retratada por Joseph Mitchel, jornalista da revista The New Yorker. Em um trabalho de reportagem memorável, ele o perfilou na aclamada publicação em dois períodos - 1942 e em 1964, quando os reúne em "O Segredo de Joe Gould" - trabalho considerado pérola do jornalismo literário (vale muito a leitura).
Bem, Joe Gould era um excêntrico, maltrapilho e brilhante homem que perambulava pelo Greenwich Village, bairro nova-iorquino da boemia dos anos 40, andando de bar em bar, dormindo em albergues, poeta, bêbado, errante, amante da literatura, iconoclasta, ácido crítico dos "maus poetas". Figura folclórica, e conhecido como Professor Gaivota, por dizer entender a linguagem dessas aves, alardeava que escrevia uma monumental "História Oral do Nosso Tempo", cujo substrato colhia ao conversar, ouvir e observar as pessoas. Porque uma história não oficial, escrita pelos comuns, homens da rua, deveria existir, para além da "história oficial". Andava pra cima e pra baixo, de mesa de bar em mesa de bar, carregando o que seriam as sinopses, os escritos e anotações da "obra". Costumava dizer que o trabalho já estava maior que a Bíblia.
Pouco antes de falecer, em 1956, o jornalista Joseph Mitchel descobrira que a tal obra monumental nunca havia existido. Embora tenha se criado ao longo dos anos em que perambulou pelo Greenwich Village o folclore em torno do enigmático boêmio e sua obra monumental "em construção" - que de tão falada parecia já se inscrever na esfera do real.
É isso: muitas vezes a promessa esvazia o intento, como um "abracadabra" ao contrário.
Há ainda um terceiro tipo de promessa que me vem: é o que eu chamaria de "promessa introversa". Aquela que à primeira vista parece excluir as outras duas, mas que quando nos aproximamos melhor notamos ser a síntese das anteriores. Pois em vez de ser uma promessa anunciada para fora - para o outro ou para a divindade - é dirigida para si mesmo. Portanto é uma palavra silenciosa que sela um compromisso pessoal consigo próprio.
Como ela não procura se firmar e se realizar a partir de um espelhamento no outro, esse tipo de promessa se funda em um apurado exame e reflexão sobre o que se quer realmente: "aonde quero chegar?", "por que quero chegar aí?", "como chegar a este ponto?" - sendo bem simplista sobre a saga que representa esse processo, mas com o qual lidaremos perfeitamente bem, uma vez que aqui estamos para isso mesmo: descobrir para que viemos e realizá-lo.
Parte-se assim do zero (eu nada sei e mergulho para descobrir) e pela contenção e recolhimento interiores chego ao cerne que me vivifica, uma vez que agora tudo fará sentido. É como a galinha chocando o ovo: esse intento inquebrantável cria do vazio a nova vida, dali nasce o pintinho.
Eis porque acredito que a "promessa introversa" seja a melhor, porque abarca os três modos: 1. A promessa horizontal: com um igual, que não por acaso é você; 2. A promessa vertical: com o Deus que habita em você; 3. A promessa introversa: as duas acima e com o seu Eu maior - sua verdadeira natureza, que se fará ouvir no silêncio, na meditação, no desapego do que é desnecessário, ancorando-se no aqui e agora; e no exercício da compaixão e do amor no dia a dia, não a do reinado da ficção e da hipótese distante.
Isso não significará manter segredo necessariamente daquilo que se deseja alcançar, mas o fato de colocar num verdadeiro caldeirão o estado bruto e cru das possibilidades, avaliando o que ecoa em nós, o que nos pertenceu desde antes do início, transforma-o em um núcleo extremamente forte que se pretende manifestar, prescindindo em suas origens do olhar e da aprovação exteriores. Rufem os tambores! De preferência na cadência dos batimentos do coração. Daí sairá o esboço do mapa pelo qual se pretende alcançar o nosso território por excelência.
Por incrível que possa parecer, esse jeito de gerar um intento o tornará tão forte a ponto de poder ser, aí sim, compartilhado, recriando-se e sendo capaz de transformar a nós e aos outros.
Tal postura resulta em economia e o que quisermos dizer sobre planos daqui pra frente terá mais a ver com palavras-chave que figuram como indicativos da trilha desse perfeito mapa do tesouro.
E a minha lista pra 2016?
Bom, posso dizer que, no andar da carruagem, para mim seria mais certo falar em lista para o próximo milênio.
E aqui não se trata de prometer, mas de me comprometer com aquilo que suave e seguramente tece o bordado da (minha) existência. E faz o sentido; dá o sentido.
Alinhavando os pontos - e me alinhando:
1. Menos consumo
2. Cortar os excessos [mais economia: de coisas, estímulos, sentires, pensares]
3. Mais autocompaixão [perdoar-se]
4. Mais compaixão [empatia]
5. Apenas fazer
6. Foco
7. Presença inteira
8. Respirar
9. Meditar
10. Agora no agora
11. Valorizar o silêncio [lembrando as palavras de São João De La Cruz: "O falar distrai e o silêncio na ação leva ao recolhimento e dá força ao espírito."]
12. O exercício do Amor
13. Agradecer [a partir do reconhecimento de que já se tem o que basta]
14. Desapegar
15. Doar [tempo, palavra, sorriso... Ah, bem, isso já está no ponto 12: o exercício do Amor, mas nunca será demais reforçar]
Foto: Koshy Koshy, Children at the Temple, Creative Commons