a experiência de morar na casa de alguém que já morreu
algumas semanas atrás, me peguei levantando do sofá e indo em direção ao quarto que ela costumava ficar, porque, na minha cabeça, ela havia me chamado para pedir alguma coisa. fui no automático, mexendo no celular, como algo rotineiro. mas aquilo não era da minha rotina mais.
como pode? afinal, em um ano e quase dez meses, é mais que possível se adaptar à ausência de alguém que morou comigo durante um bom tempo. é possível se reinventar e inventar uma realidade que vai além daquela que estabeleci como padrão durante toda a minha vida. por que não?
foram dias e noites pensando no evento banal de levantar para o nada, por causa de uma memória fixa de um costume passado, porém recorrente.
percebi, então, que onde vivo não me ajuda a me livrar desse costume que ficou pra trás e que jamais voltará — sim, falar esse tipo de coisa dói imensamente, mas eu trabalho em aprender todos os dias a remanejar o como a dor me afeta — , pelo simples fato de que ela se fez presente o tempo todo.
dentre tantas coisas e tantas memórias afetivas que tem o malicioso poder de me consumir e desestabilizar, lembrar de espaços específicos da minha casa em que ela ia (todos?) e o modo como ela andava em direção ao lugar, como tocava e parava um assunto no meio porque estava concentrada em encontrar alguma coisa em alguma gaveta é o que mais me afeta.
não tenho o desprazer do peso na consciência. jamais pensei “devia ter aproveitado mais enquanto pude”. jamais. de todos os seres humanos que tiveram a sorte de ter contato com ela, eu fui a mais privilegiada. eu tive o privilégio de conviver diariamente durante o início da minha infância até início da vida adulta. pude dizer que a amava todos os dias do início da minha vida até o final da vida dela, de segunda à segunda, vinte e quatro horas por dia, o quanto eu quisesse. eu nunca me cansei, e sempre fiz questão de deixar claro o quanto eu a amo.
pude, por tantos anos, colocar o despertador para tocar às vinte e uma horas para eu ir na cozinha e pegar o remédio que ela tomava para dormir, naquela gaveta ao lado do fogão que guardávamos seus remédios,e que hoje está quase toda vazia.
pude deixar pra lá o despertador também, porque eu sabia que às seis ela abriria a porta do meu quarto para eu ir para a escola. ela era muito preocupada com horário.
sem contar que eu pude, também, acordar às três do mesmo dia porque ela estava passando mal durante a noite e não queria ficar sozinha. nunca quis incomodar ninguém, mas sempre se sentiu à vontade de me chamar para ficar com ela, até porque eu fazia isso com ela também.
hoje, muita coisa mudou. abro alguns armários de roupas e não vejo nada, vou ao quarto que ela costumava ficar e não tem mais nenhum móvel, abro a gaveta de remédio e só vejo duas cartelas, em vez de milhares de caixas. quando deito no sofá, tenho que pegar almofadas porque o colo que eu deitava não tá aqui mais, sem contar que eu tenho que colocar o despertador para tocar umas três vezes, se não eu não acordo. esquecer a toalha depois do banho é um perigo, porque a certeza de que teria alguém por perto para buscá-la para mim se tornou incerta. hoje, eu ando pela casa de chinelo, mas não porque tem alguém me dizendo que eu vou “pegar soluço” ou “pegar gripe” que nem acontecia uns anos atrás, mas porque, por algum motivo, me sinto desconfortável sem eles. na hora do almoço, posso sentar no meu lugar da mesa favorito, que também era o dela, porque não tem ninguém que o pegue mais. não me orgulho tanto assim, mas posso fingir que não escuto o telefone fixo tocar, porque não tem ninguém que me mande correr para atender.
muita coisa mudou, e eu nem citei metade. pude perceber que, na verdade, a minha vida cotidiana continua a mesma, porém, o processo de me reinventar e aprender a lidar com a ausência me fez viver novamente a minha casa. do mesmo jeito, mas sem ela. a ausência dela muda tudo.
