O Brasil Quebrou, e eu Ajudei a Quebrar

“Esse país está quebrado”.

Essa é a frase que eu tenho mais escutado ultimamente quando converso com alguém no Brasil. A 3 anos moro no Texas nos EUA.

Para te contar como eu contribui para quebrar nosso querido país nós precisamos voltar a 2004, quando eu ouvi falar nesse novo programa do governo, chamado Prouni. Coincidindo com a mesma fase onde a loja de fotografia da nossa família estava quebrada graças a revolução digital (mentira, graças a má administração) e eu saindo do ensino médio logo vi nesta a minha única chance de entrar em uma universidade, depois de ter arrependido os 3 anos de ensino médio onde eu aprendi muito sobre relações interpessoais e muito pouco sobre o que eu deveria ter aprendido para passar na Universidade Federal. Sim, vagabundei 3 anos e não teria me formado se não tivesse colado todas as minhas provas de matemática.

Mas tudo bem, certo, eu nunca ia precisar de matemática mesmo. Enfim, já havia prestado o ENEM e tirei uma nota relativamente boa (sempre me saí bem em provas, acho que pensar era uma forma de quebrar o tédio de ter que olhar um pedaço de papel por horas). Cadastrei pelo site e sinceramente não me dei conta de que tinha conseguido até que as aulas começassem. 4 anos depois estava me formando e muito grato ao Lula.

Fast forward agora para o ano 2016. Trabalho em uma agencia francesa que tem filial em Dallas no Texas, um dos estados mais conservadores dos EUA.

Você não volta mesmo para o Brasil né?

Não. Pelo menos não por agora. Não muito pelo país estar em uma situação financeira complicada, mas mais pela fase profissional. Tenho muito a aprender. E culturalmente tenho aprendido muito com o processo eleitoral americano.

Quero te apresentar a duas palavras muito usadas aqui: Tax Payer e Entitlement. Tax payer é o contribuinte. Entretanto essa palavra tem uma forma muito mais aguda por aqui. As pessoas realmente tem noção de que são contribuintes e o governo é o administrador da sua contribuição.

Quando cheguei aqui em 2012 estava estudando e montei meu próprio negócio para trabalhar em casa e pagar as contas. Deu certo, fiz o suficiente e um pouco mais, comprei meu carro a vista enquanto ainda estava na parcela 33 de 70 do meu carro no Brasil. Great success já diria Borat.

Foi até que no começo de 2013 comecei a ver todos os comerciais de taxas. “Preencha com a gente que garantimos o máximo de restituição”. Pensei, uau, que ótimo, não ganhei muita grana então o governo ainda deve me devolver alguma taxa que devo ter pago, embutida nos serviços. Ouch, puro engano.

Após contratar um profissional para fazer minhas taxas recebi a facada. Cerca de US$3000,00 eu devia ao governo. E eu vivendo com minhas contas calculadas teria q ralar dobrado pra pagar. E olha, não queria ser aquela pessoa devendo o governo americano. Enfim, paguei e segui em frente já juntando todo mês o que deveria para pagar no ano seguinte. Nada mudou, exceto minha consciência que agora eu também era uma pessoa contribuindo para o país, me tornei um tax payer.

Agora vamos para a outra palavra, entitlement.

Entitlement é a palavra que alguns americanos usam pejorativamente para falar das pessoas que nascem achando que merecem receber tudo e não precisam contribuir com nada. Eu sempre escutei e pensava nas cotas, nos bolsa casa, bolsa vale transporte (nisso tudo que a gente tem aqui e olha, os beneficios sociais daqui são bem maiores que os do Brasil). Graças a Deus eu não era um desses. Credo, eu pensava.

Foi até que me deparei com o grande dilema americano: plano de saúde. Acontece que por essas terras ou você faz um plano de saúde ou pode pedir falência após sair do hospital, e eu digo, literalmente. Dai pensei em nosso SUS com um olhar diferente. Como eu queria ter um SUS aqui, e olha que eu tinha plano de saúde no Brasil e nunca utilizei o SUS.

Então vamos falar como descobri que no Brasil eu era “entitled” e não sabia.

Não sei realmente quanto custa, hoje, formar em uma faculdade particular. Mas imagino que na época que eu me formei eram cerca de R$40.000. Muita grana, mas mesmo se tivesse pago teria sido o investimento que fez o que eu sou hoje como profissional. Nunca estive desempregado e trabalhei em boas agências. Daí te conto como ajudei a quebrar nosso país.

Literalmente em todas as agências que trabalhei existia a opção de trabalhar “por nota” ou por receber o piso na carteira e o resto por fora. Espertão como era obviamente que não queria pagar imposto de renda, então recebia o mínimo da categoria e o resto por fora. Ignorei o fato de que meu país investiu em mim para poder tirar minha vantagem em cima do governo.

Eu sei, é difícil enxergar isso e só hoje eu consegui entender como nós contribuimos dia após dia para o fracasso do nosso país.

Ah mas o governo rouba da gente também.

Tudo bem, é inegável que subjetivamente e ultimamente literalmente os governantes tem “roubado” do povo. Mas aí entramos em uma discussão que é bem mais brutal, o que vem primeiro o direito ou o dever?

Se entendermos que o nosso direito vem sempre antes que o nosso dever, como eu pensava no Brasil, nosso país vai SEMPRE estar quebrado. Esta noção de entitlement tem que ser erradicada das nossas mentes. Quando você entra no SUS, quando você dirige por uma estrada ou quando o governo constrói mais uma escola este dinheiro vem do bolso de alguém. E eu te digo, se não está vindo do seu, você está roubando de alguém.

Infelizmente não posso voltar ao tempo, e mesmo assim, ainda dói pensar que se eu fizesse a coisa certa seria apenas uma gota d’água em um oceano de gente levando vantagem. O objetivo também não é criticar a forma de como o nosso governo tem administrado o país, mas eu quero que você tente fazer uma conta mental de quanto você pagou e quanto você tem usufruido do Brasil. Se sua conta estiver positiva vai lá meu amigo, xingue, cobre e brigue por um país melhor.

Mas se por outro lado sua conta estiver negativa pense em como você pode contribuir para fazer o Brasil um país melhor.

Quando falamos “o país está quebrado” estamos implicitamente comparando o Brasil a uma empresa, e é bem isso mesmo. Todas as nações funcionam como uma empresa, e se os “CEO’s” estejam administrando mal, começar a roubar da sua própria empresa só vai levá-la mais rápido para o buraco.

Então, mude sua perspectiva um pouco. Cobre sim, mas contribua também. O seu país, independente de qual for, precisa de você o mesmo tanto de que você precisa dele.

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